Francisco Simões

   

ESPERANÇA OU ILUSÃO?


Na maioria das eleições não "acertei" nos eleitos. Procurei, porém, dar-lhes sempre um crédito de confiança. A chama da esperança teima em permanecer acesa porque prefiro crer, até que me provem o contrário, por seus próprios atos.

Todavia, diante de tantos desmandos, desgovernos, abusos, conchavos partidários, desregramentos, impunidade incentivadora de ilícitos, agravados com uma corrupção que parece endêmica, começo agora a me questionar se minha esperança não passa mesmo é de uma grande ilusão!

Afinal, é evidente que por trás da política deve haver setores da sociedade que comandam, ou mandam tanto ou mais que os políticos. Quem financia a campanha dos candidatos? Quem faz as famosas e milionárias "doações" para a campanha dos partidos? Quem contribui não cobra depois o retorno, ou seja, a dádiva em recompensa de favor ou presente?

Indo por este raciocínio, fica mais fácil entendermos porque parece ser tão difícil governar "pelo povo e para o povo", como dita a Constituição. As prioridades, na maioria das vezes, realmente não passam pelo povo. Assim não fosse e nossa gente não estaria tão desamparada, seja quanto à má qualidade da saúde pública, seja quanto ao péssimo estado do ensino brasileiro (vide minha crônica "Terrorismo Tupiniquim"), etc, etc.

A miséria, a fome, as doenças que afligem a dezenas de milhões de patrícios nossos, só estão presentes na "preocupação" de políticos ao redigirem seus discursos eleitoreiros. Daqui até outubro ouviremos enxurradas de promessas e um chorrilho interminável de soluções que jamais serão efetivadas, sabemos disso. Sabemos, mas muitos ainda acreditam, aplaudem e até votam nesses mesmos promesseiros, ou promesseiras, que, no fundo, não são pagadores de promessas.

Se você não crê em "forças ocultas" me responda por que os senhores banqueiros, por exemplo, passaram incólumes, sem qualquer arranhão, tanto pelo período da ditadura militar como por todos os planos mirabolantes lançados após ela?

Explique também por que ecoa uma grave denúncia, na mídia e na internet, de que há no ar uma armação dos Bancos, junto ao Banco Central, cujo resultado redundaria em mais prejuízos para os nossos direitos de cidadãos e clientes deles? Você acreditou mesmo que o "Proer" foi criado para proteger a poupança do povo e não para favorecer impudicos banqueiros ?

Mas, eles devem ser apenas parte das tais "forças ocultas". Nesse time de "eleitos" deve haver mais peixes graúdos. Responda-me de novo: por quê, até hoje, o Congresso não teve nenhum interesse em tirar da gaveta a tal de CPI das empreiteiras? Ela foi iniciada ainda no governo Collor e "esquecida" com a rapidez conveniente de uma conivência que fica difícil desmentirem.

Entretanto o Congresso, em nome da moral, da honra e da ética, já fez até CPI do futebol. Sei que o mar de lama também corre pelos bastidores do nosso "esporte bretão", como dizem alguns comentaristas especializados, mas como defender moral, ética, honra etc, fingindo ignorar que não há mais nada de importante para apurarem com seriedade? Por que a CPI das empreiteiras é algo "proibido"?

O Sr. Collor, não fugindo à regra tupiniquim, também foi apoiado pelas mesmas forças, evidentemente. Não votei nele, já disse isso, mas na busca da verdade sempre me perguntei porque parte dessas forças depois se insurgiram contra ele? Tudo fizeram para colocá-lo no poder e posteriormente fizeram de tudo até derrubá-lo. Patriotismo? Deram apoio total e não conheciam seu "curriculum"?

Gente que sempre gozou da intimidade do poder, que jamais liderou qualquer movimento popular, repentinamente rompeu em seguidas denúncias contra o então presidente eleito e convocou o povo às ruas! Denúncias muito graves, provas muito evidentes na mídia que mais parecia sedenta, digamos, de vingança! O Sr. Collor foi banido do poder e até comemorei, pois jamais acreditei em seus discursos e métodos. Aliás, pelo ilegal confisco da poupança de todo um povo, ele deveria ter sido preso, mas as forças que o apoiaram fizeram vista grossa.

Denúncias graves, provas muito evidentes, que entretanto não foram suficientes para a Justiça. Em 7 ou 8 dos processos em que ele foi julgado, o inocentaram! Alguém me explica? Por outro lado, quantos escroques do colarinho branco e criminosos confessos, são libertados ou têm penas reduzidas ou até são favorecidos com indulto, liminares etc? Sentenças de 18 anos viram 6, ou são simplesmente invalidadas, reduzidas a nada e o condenado passa a ter uma ficha "limpa"!

Em sua defesa a justiça alega que seu dever é fazer cumprir as leis e que estas não são feitas por ela. Em verdade essa função é da competência do poder legislativo, isto é, dos senhores congressistas. Ora, devemos então depreender que muitas das nossas leis são falhas, não resta dúvida. Advogados inteligentes, e/ou espertos, costumam valer-se de brechas na legislação ao fazerem a defesa de seus clientes, especialmente os ligados ao crime do colarinho branco.

Estes podem pagar os elevados custos de um competente advogado, ou equipe de advogados, o que não está ao alcance do cidadão comum. Como diz Gabriel, o pensador, em uma de suas letras: "A justiça prendeu o pobre coitado, mas soltou o deputado…" E por que nossas leis favorecem tanto a criminosos em vários níveis? Por que elas são tão condescendentes, até com os chamados crimes hediondos? Por que não há interesse em se endurecer as leis para certos tipos de delitos?

Saltemos para outro patamar. Por que o Sr. FHC, quando pretendeu conseguir mais recursos, através da arrecadação de impostos, alegando a tal perda com a correção da tabela do imposto de renda, voltou suas baterias para os autônomos, os prestadores de serviço? Talvez porque estes não financiem campanhas de partidos políticos. Os que o fazem estão ao abrigo das asas do poder. Deve ser isso.

Por que a idéia de taxar grandes fortunas foi descartada mais rápido que ligeirinho? Por que o próprio chefe da Receita Federal disse na Tv, não faz muito tempo, que "quem mais pode pagar imposto de renda, no Brasil, paga menos", ou, digo eu, às vezes nem paga? Evidentemente que ele se referia a pessoas com situação sócioeconômica invejável. Então sabe, declara e nada é feito para tentar-se uma melhor justiça fiscal? Por quê?

Ainda na voracidade de arrecadar mais, por que o Sr. FHC, que está agora na reta final do mandato, se empenha em taxar com imposto de renda as cadernetas de poupança? Já não chega o massacre a que ele, em sete anos, submeteu a classe trabalhadora, arrebatando-lhe várias e antigas conquistas?

Sua conveniente miopia política não consegue enxergar os brasileiros acima referidos pelo chefe da Receita e tomar deles, e não do indefeso povo, até para compensar o que provavelmente muitos deles sonegam? Talvez seja mesmo a incalculável influência das "forças ocultas" que inibe e, de certa forma, até controla certas ações do poder. Votamos num homem e elegemos uma máquina, invariavelmente "mortífera", que atua sempre contra nós mesmos.

Lembro aqui do saudoso Henfil. Seu personagem maior, a graúna, fazendo reflexões, disse certa vez em 2 quadrinhos: "Eu queria ser rica, muito rica, milionária, pra não ter que pagar imposto de renda.!" Algo escrito há muito tempo, mas que se eterniza porque nossa realidade não mudou em nada. Mas eles, os que nos governam, com o consentimento dos nossos votos, desmentirão sempre tudo, farão juras as mais falsas, e jamais cederão às evidências.

Joseph Goebbels, então ministro da propaganda de Adolf Hitler, disse certa vez: "Uma inverdade mil vezes repetida passa a ser vista como verdade." No prefácio do livro "Ilusões populares e a loucura das massas", de Charles Mackay, publicado em 1841, em Londres, está escrito: "Os homens, já se disse muito bem, pensam em bandos; e se verá que eles enlouquecem em bandos, ao passo que só recobram a lucidez lentamente, e um a um." (Li na coluna do jornalista Márcio Accioly)

Aqui relembro novamente, com saudade, o nosso Henfil. Os amigos da graúna perguntaram-lhe: "Grauninha, conta como é que foi o seu primeiro voto de analfabeta…" E ela respondeu: "Escolhi o meu candidato pela aparência. Um bem frio, mentiroso, dado a negócios escusos, enfim, aquele que torrou mais dinheiro, me prometeu emprego público, comprou meu voto."

Os amigos, espantados, retrucaram: "Peralá graúna! Não é assim que se vota." E ela: "Como não? Há anos que eu venho observando como é que os alfabetizados votam…" Os amigos se entreolharam e concluíram: "Viu esta? Incrível! Ela pegou rapidim o cinismo da coisa…" Como faz falta o nosso bom Henfil.

Por concordar com a graúna e crer também que, para governar este país, o eleito terá que rezar pela mesma cartilha de seus antecessores, (vide a aliança que pode somar PT com PL, entre tantas outras) pressinto minha esperança transmutando-se definitivamente em ilusão. Nada mudará. A estrutura de poder parece ser mesmo "imexível" (com permissão do antigo ex-ministro). Desisto.


(março/2002)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro

fmsimoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm