março/2002

      

Francisco Simões


ONDE ESTÃO AS RESPOSTAS?
   

á se passaram vários meses daquela barbárie, que aconteceu em Nova York e em Washington. É algo que nunca iremos apagar de nossa memória. Ademais, ninguém, a não ser os terroristas ou quem mais os tenha ajudado no planejamento e execução, poderão ter ficado insensíveis à dor gerada por aqueles atentados.

A emoção inicialmente excitada, açulada pelos fatos, deixa agora que a razão aflore. Ela levanta a cabeça e vem plena de questionamentos, de perguntas. Indagações que se calaram, à época, mas que não se calariam para sempre.

Confesso minha incapacidade para entender, para aceitar que, tendo os Estados Unidos os maiores e mais completos serviços de inteligência e segurança, possam ter sido incapazes de encontrar pistas, de descobrir a tempo aquele plano do terror. Por que fracassaram tão desastradamente?

No primeiro momento as opiniões se dividiram entre os congressistas americanos, havendo pressões de alguns parlamentares para que fosse levada a cabo uma ampla investigação, o que, aliás, deveria ter sido feito. Por que não o foi?

Posteriormente acabou prevalecendo a tese de que era preferível manter a unidade da nação e de todas as forças políticas num apoio integral ao governo. A meu ver, isto não invalidaria as necessárias diligências no sentido de apurar responsabilidades. Estranho foi o súbito desinteresse na averiguação. Por quê? E como tiveram condição de, em 24 horas, acusar como autor dos atentados o Sr. Osama Bin Laden?

Segundo a imprensa estadunidense, à época, o senador republicano Richard Shelby chegou a defender a demissão imediata do diretor da CIA, mas foi vencido em seu intento. Por quem? Lembramos de ter visto o Sr. Bush, logo depois, aparecendo publicamente abraçado com o chefe maior da CIA, como que a repudiar qualquer tentativa de o atingirem. Por quê?

Uma vez que o comunismo da União Soviética faliu, não seria de se esperar que aquele órgão monitorasse as atividades de grupos terroristas? Segundo informações da própria imprensa americana, a verba anual destinada à CIA giraria em torno de US$30 bilhões, no mínimo. Gastaram no que?

Outro republicano, o senador John McCain, insistiu em que fosse feita logo uma ampla investigação para se apurar por que haviam falhado, tanto a CIA quanto o FBI. O senador objetivava uma reorganização das duas agências com vista a serem evitadas novas falhas futuramente. Também teve que recuar. Por quê?

Analistas internacionais afirmaram que não foi em um mês, nem mesmo em um ano, que os terroristas planejaram tudo com tantos detalhes, com tal precisão hedionda de permitir ao mundo assistir, ao vivo, pela TV, o segundo avião embater-se contra a outra torre.

Os terroristas conviveram com o povo americano durante longo tempo, fizeram amizades, freqüentaram escolas de pilotagem, devem ter mantido contatos com outros adeptos, digamos, da sua seita, ou facção ou lá o que seja. Isto deve ter ocorrido tanto na América como fora dela. Telefonemas devem ter sido feitos. Nunca deixaram algum rastro, alguma pista de nada durante todo esse tempo? Como conseguiram tal perfeição criminosa?

Viu-se que foi tudo orquestrado de forma a ocorrer no mesmo dia, na mesma manhã, com requintes de estratégia impressionantes. Seqüestrar 4 ou 5 aviões não produziu nenhuma pista pelo sistema de rádio das aeronaves? Se perceberam algo estranho, nada comunicaram imediatamente às autoridades?

Entre o choque do primeiro avião com a torre e o segundo houve quase 20 minutos de intervalo. Teriam ficado todos hipnotizados? Nenhum alerta geral foi dado? Àquela altura, o segundo avião já estava no ar, assim como o terceiro e o quarto. Ninguém percebeu, naquele tempo todo, que as demais aeronaves haviam alterado suas rotas? Para que servem os sofisticados radares dos aeroportos?

É quase inacreditável que o quarto avião tenha caído, mas por ação direta de alguns passageiros que enfrentaram os terroristas a bordo. Pelo menos foi o que noticiaram. E a força aérea americana, não foi avisada a tempo? Segundo divulgado pela imprensa, à época, o avião que caiu no Pentágono teria dado antes umas 2 ou 3 voltas sobre a Casa Branca e o próprio Pentágono.

Este importante espaço aéreo não é fiscalizado? Não tem um rastreamento permanente? Qualquer maluco pode invadi-lo e atingir a sede do governo da mais poderosa nação do mundo? Como os seres mortais, em terra, nem sequer podem caminhar pelas calçadas à frente de consulados americanos, como ocorre em Paris, por exemplo? Fui orientado a passar pelo asfalto, por um policial, em 1995.

A imprensa internacional chegou a comentar que a demora para iniciarem alguma investigação sobre algo de tal gravidade, contrastava fortemente com a rapidez, com a agilidade com que o Congresso americano se lançara anteriormente na apuração de fatos bem menos significativos, durante vários anos de mandato do então presidente Clinton. Fatos que nada tinham a ver com a segurança nacional.

Eu diria que não só contrasta como desperta estranheza, em qualquer pessoa de bom senso, o aparente desinteresse na apuração de responsabilidades sobre uma tragédia que comoveu o mundo inteiro. Os líderes parlamentares americanos recuaram de repente das tentativas de apuração sobre o fracasso dos órgãos de inteligência e ainda concordaram em adiar as investigações "sine die"! Por quê?

Seguindo na análise, lembremos que os serviços de entrevistas dos Consulados costumam ser rigorosos na concessão de vistos, para simples visitas, quanto mais para anseios de imigração. Teria sido comprovado, pelas próprias autoridades norte-americanas, que as pessoas denunciadas, como tendo causado aquelas tragédias, passaram por aquele serviço de identificação quando entraram no país.

Ademais os Estados Unidos se dão ao luxo de possuir satélites no espaço que vasculham todo este nosso planeta. Dizem os entendidos que não há qualquer centímetro quadrado do solo, de qualquer continente, que eles não possam esquadrinhar, se o desejarem, com essa tecnologia tão avançada. Isso para não falar da atuante espionagem, em terra, operante em todos os continentes.

Diariamente vimos, e continuamos a ver, as mais variadas autoridades americanas comparecerem a uma entrevista coletiva com a imprensa internacional, fato transmitido ao vivo pela CNN. Os jornalistas, de uma maneira geral, estão sempre bem comportados. Ouvem mais do que perguntam. Ninguém faz questionamentos mais sérios. Parece uma peça teatral bem ensaiada.

As autoridades dizem o que querem, exibem documentos que são aceitos sempre com total passividade. Nas vezes em que assisti à coletiva não ouvi nenhum jornalista levantar questões relativas ao grau de culpabilidade das duas principais agências, de inteligência e segurança. Parece que ninguém está interessado em saber se a tragédia poderia, ou não, ter sido evitada, nem se ela poderá se repetir.

É de se crer que as autoridades, em vários níveis, devem explicações a sua própria gente. Com certeza. Todavia, nada é dito e também nada é perguntado sobre isso. E o povo, poderá ele se sentir seguro a partir de agora? Pelos alarmes espalhados depois pelo FBI , que felizmente não se confirmaram, julgo que não.

O que se viu foi acirrarem-se preconceitos, ocorrerem perseguições a simples nível de desconfiança de alguma culpa, crescer o pânico, de forma coletiva, para o qual contribuíram os tais alertas não confirmados do FBI, além de uma pouco velada censura à mídia de uma maneira geral.

Curioso é perceber que o Sr. Osama, o Bin Laden, acabou, por certo ponto-de-vista e politicamente, favorecendo ao presidente americano, se podemos dizer assim. Dias antes da terrível tragédia, os mesmos líderes mundiais, que passaram a apoiá-lo integralmente, haviam se colocado todos contra ele em várias questões de interesse da comunidade internacional.

Elas foram muito divulgadas. Refiro-me à insistência do Sr. Bush em colocar no espaço o tal "escudo anti míssil", ao Protocolo de Kioto, que ele se recusou a assinar, e ao fato de ele não concordar com a redução do arsenal nuclear americano, desejo de todos os demais líderes mundiais. Agora, com a revelação feita pelo jornal "Los Angeles Times", na edição de 09.03.2002, dos planos de ampliação de armas nucleares do governo Bush, tudo fica mais claro.

O que me parece mais grave ainda é estarem incluídos como "inimigos" em potencial, podendo ser alvos daquele plano de ataque nuclear, nações e respectivos governos com os quais o Sr. Bush tem tratado, como aliados, da "luta contra o terrorismo". Ali estão citadas Rússia e China, e recentemente vimos o Sr. Bush de beijos e abraços com o premier russo, assim como com o governo chinês.

Mas, de repente o Sr. Osama, ou mais quem seja, com a brutalidade daqueles atos terroristas de 11/setembro, acabou por colocar todas as principais lideranças mundiais "no colo" do presidente americano. Incrível coincidência. Sobre isto tenho que concordar com a palavra de Fausto Wolff em sua matéria no jornal "O Pasquim21", de 26.02.2002. Escreveu ele:

"Está na hora de fazer perguntas sérias que a imprensa séria não faz para si mesma e nem tenta responder. Se sabiam dos planos do sósia do Caetano, por que não o impediram de realizá-los? Outra coisa: Será que o árabe saudita seria tão burro de acabar com as torres do WTC e depois se meter numa caverna do Afeganistão? Não seria mais lógico que já houvesse feito uma operação plástica e fosse se esconder em Paris ou em Roma, perto do Vaticano? E caso ele estivesse em Paris ou em Roma, os americanos bombardeariam a Cidade Luz ou a Cidade Eterna?"

Na seqüência de seu raciocínio, Fausto faz colocações que dão o que pensar a quem ainda pensa e não abre mão de fazer o seu próprio juízo, ao contrário daqueles que preferem calar-se e aceitar passivamente as imposições colocadas de forma meio autocrática seja por parte da mídia, seja por parte de autoridades americanas, nas tais "entrevistas coletivas".

E se decidirem alargar a guerra para algum outro país, por exemplo, o Iraque, conforme palavras do próprio presidente americano, a humanidade não poderá passar a ser alvo de futuros atos terroristas? Particularmente eu sempre achei que os governos europeus não estariam coesos na continuação dessa aliança e isto agora está se cofirmando.

Entretanto, se aquela intenção bélica de maior alcance for mesmo efetivada, não correremos o sério risco de ver deflagrada uma não desejada guerra com armas nucleares e/ou bacteriológicas?

Pelo documento divulgado pelo jornal "Los Angeles Times" os EUA parecem dispostos a recorrer a essas armas, se julgarem necessário. As conseqüências não poderão ser devastadoras? Ninguém se preocupa com isso? Alguém anda querendo confirmar as previsões de Nostradamus?

E deixo a minha última pergunta: onde estão as respostas?


(março/2002)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fmsimoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm