Francisco Simões


SER OU NÃO SER … ELEITOR?

Sempre fui um crítico severo da postura daqueles que costumam se alhear do processo de eleição. Uns ao fazerem opção por votar em branco, outros ao decidirem anular o voto, etc. A mim não importava o motivo alegado, eu não aceitava, em hipótese alguma, tais procedimentos.

Sempre tive uma forte conscientização política, uma opinião formada através de décadas desde os meus 17 anos. Sonhei com horizontes bem diferentes para o nosso país, mas que deveria alcançá-los pelo anseio popular, através do voto e no decorrer de uma democracia plena, muito diferente da que temos hoje.

Amigos e alguns familiares foram por mim censurados quando, em desacordo com a realidade que nos impunham os políticos, decidiam atirar seu voto ao lixo.
Nunca busquei passar-lhes influência, mas não concordava que se omitissem e não exercessem um dos mais sagrados direitos do cidadão. Por vezes tive dificuldade para decidir quando sobravam, em um segundo turno, candidatos cujo ideário político nada tinha a ver com o meu. Mas jamais deixei de votar.

Entretanto, meus limites de tolerância, paciência e convicção foram ultrapassados. Não dou crédito a nenhum dos atuais postulantes para merecerem minha admiração, respeito, confiança e, logicamente, o meu voto. Mesmo estando entre eles a pessoa em quem votei nas 3 últimas eleições presidenciais. Lamento, é a minha opinião, a minha visão, o meu conceito. Não faço qualquer pregação.

Pregação, aliás, fazem e continuarão fazendo os referidos candidatos. Certamente, com a aproximação do pleito, o nível de denúncias, acusações e ofensas deverá descer, como de hábito, os patameres de impudência, valendo-se os postulantes à presidência de recursos os mais abjetos, ignóbeis.

Encontrava-me neste impasse de decisão quando recebi mensagem do amigo Manuel Antonio dos Santos, que mora em Cascais, Portugal. Ele comentava minha crônica "Esperança ou Ilusão?". Dizia também do seu desencanto, ele que morou por décadas no Brasil, onde trabalhou e foi meu colega no BB. A certa altura ele escreveu:

"Para mim o voto é um direito do cidadão; mas ele também deverá ter o direito de se abster de votar, se os candidatos não merecerem o seu voto. A ausência também é um ato de participação política, pois transmite uma mensagem que merece ser "lida" e "computada". Nos países que praticam uma democracia mais moderna, o voto não é obrigatório e quando a abstenção é elevada, os políticos se preocupam em descobrir as causas.

No Brasil, infelizmente, o povo não pode usar o seu direito de protestar por este meio. Só lhe é concedido o direito de escolher alguém, mesmo não o aprovando para a função ou votar em branco. Mas, neste caso, se não estou enganado, o eleitor poderá, sem querer, estar beneficiando pessoas nas quais não votaria em hipótese alguma. Por isso, creio que a ausência ao pleito seria mais significativa e contundente."

Irreparáveis as colocações e argumentos do amigo Manuel. O Brasil, por sinal, é um dos raros países, no mundo, onde o voto ainda insiste em ser obrigatório. Claro que esta obrigatoriedade facilita e muito o tal "voto de cabresto", antiga e tradicional instituição ainda hoje usada pelos políticos por este país afora.

Os argumentos para manterem a obrigatoriedade não resistem a um bom debate, se realizado com seriedade e honestidade de intenções. A repulsa manifestada por um povo, não comparecendo às urnas, eu comprovei não apenas em Portugal, mas também em outros países europeus, em determinadas eleições, quando lá morei por 4 longos períodos.

Diz mais o Manuel: "Por isso, resolvi que só voto se houver candidato que mereça algum crédito. Fora disso, não voto. É a minha forma de dizer que, ou não confio em nenhum dos candidatos, ou não concordo com as suas propostas. Penso que ausência à votação é uma forma de protesto absolutamente válida e legítima.

Segue o Manuel: "O que aconteceria se o "eleito" obtivesse uma quantidade mínima de votos, em relação ao número de eleitores ? O povo não ganharia mais força para exigir melhor desempenho, até para exigir a realização de novas eleições com outros candidatos ? E, com isso, cidadãos capazes, honestos e com propósitos patriotas, não envolvidos nos esquemas viciados montados há dezenas de anos, passados de pai para filho, ou de "amigos" para "amigos", como acontece hoje, não poderiam se sentir estimulados a participar da vida política partidária ?"

"Além disso, eu penso que a rotatividade do poder é fator fundamental para a democracia. Mas, para mim, rotatividade do poder não significa apenas trocar o "nome da vez" - para iludir - e afinal continuar tudo como dantes. Não posso aceitar também, de forma alguma, as alianças eleitoreiras de partidos que, em termos ideológicos e programáticos estão em posições absolutamente opostas ? Recuso-me a participar dessas farsas."

Eu me punha a meditar seriamente nas sábias e justificadas palavras do amigo Manuel quando me chegou, de outro grande amigo e incentivador, o Joaquim Amaro, uma crônica do excelente analista Fritz Utzeri, publicada no JB de 03.03.2002. Uma descrição perfeita do que ocorre atualmente em nosso país.

Fritz faz questionamentos, coloca sugestões e levanta patrioticamente uma bandeira com a qual eu gostaria mesmo de poder sonhar e ver erguida no topo da política brasileira. O lema não teria apenas "ordem e progresso", mas também "ética, moral, justiça social, idealismo patriótico", entre outros. A certa altura o jornalista diz: "Declarar amor ao Brasil é abstração vã. Para amar o Brasil é preciso amar os brasileiros. Eles são o Brasil."

Mais adiante ele afirma: "Por que as plataformas de governo não se estruturam em torno de algo tão simples, tão primário e humano? Banir a miséria em 20 anos, começando agora! Já! É preciso criar um ideal republicano. Ideal de igualdade, de oportunidades, de justiça e liberdade. O país está anestesiado, entregue em mãos sem escrúpulos, que manipulam a opinião pública, tentam nos convencer do inaceitável e fazem de tudo para manter privilégios que há muito já deviam ter sido revogados."

Ao encaminhar essa matéria a mim e a muitos outros amigos seus, o Amaro aduziu esta mensagem de sua autoria: "É tempo de reação, de começarmos, nós, e não os "eleitos", a procurar criar a vontade política para provocarmos uma componente ascencional naquilo que Gunnar Myrdal denominou de Processo de Causação Circular e Acumulativa. Passaremos, então, da contínua deterioração dos princípios, ideais e bem estar do povo para uma continuada melhora. Podemos até, como meta de curto prazo, visar retornar ao que já fomos. Não é difícil, é preciso. E como sabemos, querer é poder."

Senti nas palavras de Fritz Utzeri e do amigo Amaro, uma imensa vontade de trazermos o país de volta aos trilhos, digamos assim. É o meu sonho, ou minha utopia também, assim como a do amigo Manuel, claro. Mas, me pergunto se um "grande foro nacional" conduzido, por exemplo, por pessoas da estirpe de Evandro Lins e Silva, Raymundo Faoro, Celso Furtado, Oscar Niemeyer e Dom Paulo Evaristo Arns, como sugere Fritz Utzeri, juntando a eles nossas vozes, seria o suficiente?

Lembro que o quadro de políticos que aí está, postulando a presidência, mostra pessoas dispostas a tudo para conseguir seu intento. Se comprometeriam com propostas partidas de uma respeitável parcela de nossa sociedade representada por nomes da envergadura dos acima citados? Pode até ser que sim. Ouviriam propostas e soluções que não se originassem nos quadros de seus partidos ou dos a eles aliados? Para se elegerem, acredito também que sim.

Mas me permito perguntar: haveria sinceridade nisso? Após sentados no poder cumpririam a palavra antes empenhada? Com este time de candidatos que aí se apresenta tenho dificuldade em crer que poderíamos confiar em tanto civismo, em tanta probidade, em tanta dignidade da palavra empenhada.

Afinal o que fez o Sr. FHC? Quem acreditaria que levasse o país ao ponto ao qual o conduziu e ainda ficasse a contar vantagens sempre que discursa a ponto de se referir ao "país que estamos construindo"…

Não quero ser pessimista, não, estou procurando ser realista dentro de um espírito democrático. Se o descumprimento de compromissos assumidos tivesse que significar novamente retirar-se um presidente eleito, fosse por que canal fosse, poderíamos enveredar por perigosos caminhos de retrocesso, ou não? A idéia me assusta face ao estágio enfraquecido de nossa pobre democracia.

Não pretendo ser dono da verdade, mas preferia mesmo era ver outros nomes figurando na lista de postulantes à presidência. Por que não um ou dois dos citados por Fritz Utzeri? Talvez eu me animasse e minha esperança, utópica ou não, retomasse o seu lugar, no momento assumido por um grande desânimo. Sobre isso pediria que quem não leu desse uma olhada na minha crônica anterior: ESPERANÇA OU ILUSÃO?

(março/2002)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm