13/04/2002
Número - 254

 

          

Francisco Simões

 

LIGARAM O VENTILADOR II, E EU TAMBÉM

Há umas 3 semanas eu lancei a crônica “Ligaram o Ventilador, e eu também.” Prometi, ao final, que voltaria ao assunto, até porque ele só vai se esgotar quando estiverem realizadas as próximas eleições.

Enquanto isso serão divulgados dossiês secretos, informações “sigilosas”, processos de difamação, enfim, a escrupulosidade será vítima dos interesses mais infames, desprezíveis, para que certos candidatos tentem afastar outros de seu caminho na disputa eleitoral. A verdade estará comprometida.

Ardilosamente eles jogam com uma boa dose de desinformação e até de ingenuidade de grande parte de nosso povo, alguns chegam ao extremo, não só de vasculhar a vida particular de seus adversários, mas até de inventar, de montar provas e denúncias as mais descabidas. Você acha exagero? Pois lembre junto comigo.

Rocorda-se daquele ano de eleição em que haviam seqüestrado o Sr. Abílio Diniz? Por uma coincidência ele foi libertado justamente na reta final para as eleições presidenciais. Faça um exercício de memória. Recorda-se de que os tais seqüestradores, estrangeiros, ao se renderem, saíram do cativeiro, convenientemente vestidos, todos, com camisetas de propaganda do Lula?

O fato em si era tão ridículo, tão grotesco, tão inverossímil, que não deveria ter merecido o crédito de ninguém. No entanto, aquele episódio, aquela farsa, montada provavelmente pela própria polícia, cumprindo ordens sabe-se lá de quem (?!) influiu e muito em tanta gente na hora de votar. O efeito apareceu logo nas pesquisas de opinião pública divulgadas a seguir.

Ali, não apenas ligaram o ventilador, mas nele atiraram algo tão abjeto que num país onde ao povo seja propiciada mais educação, mais cultura e informação, simplesmente teria sido desprezado e, se efeito houvesse, seria de bumerangue, com os autores da farsa sendo desmascarados. Mas, aqui foi diferente.

Nem vou lembrar de quando vasculharam a vida do mesmo candidato até descobrir uma mulher, no seu passado, e uma filha. Sem qualquer escrúpulo, sem se preocuparem com os efeitos negativos sobre a vida da jovem, a expuseram publicamente de forma desumana e cruel. Os fins justificavam os meios.

Assim agem pessoas sem o senso de moral e ética, para as quais caráter deve ser uma qualidade desprezível. E elas estão por aí, à espreita, prontas para novos atos vis, infames, a custo de Judas. Quem pagar mais poderá contar com sua “dedicação”, seu “trabalho”, sua “fidelidade”.

A propósito deste assunto, e considerando a recente invasão da fazenda dos filhos do Sr. FHC, pelo MST, parte de nossa imprensa levantou a suspeita de uma nova armação contra o mesmo candidato. Não se pode garantir nada. Só pensar que é muito estranho que em 5 tentativas anteriores, a segurança lá colocada, tivesse evitado que as invasões se concretizassem. Desta feita, no entanto, a caminho de novas eleições presidenciais, a segurança teria sido retirada. Apenas é estranho.

Um bom amigo, outro dia, fez-me uma pergunta que por sinal tem certa coerência. Perguntou-me o Renato Campos: “Quem será o ‘cabo Anselmo’ do MST?” Para entender o sentido basta lembrar um pouco da história do nosso período da ditadura militar. Teriam “atirado no ventilador” neste caso também?! Não sei.

Aliás, no sentido inverso da expressão acima, está sendo muito divulgada na TV uma aparentemente inofensiva mensagem na qual falam pessoas diferentes, e a qual sempre termina com a seguinte afirmativa: “Há 8 anos estamos construindo um novo país” ou algo bem próximo disso. Propaganda oficial do atual governo, que, subliminarmente visa, claro, a favorecer o seu candidato.

Estranho, porque parece-me que não tem apoio legal este tipo de divulgação, visto não ser permitido, no momento, aos demais candidatos e partidos, difundir mensagens de propaganda eleitoral. Mas, parece que a justiça tem interpretação diferente da do cidadão comum que pensa e escreve, como eu e outros.

Analisando o fato por outro ângulo, seria de se contrapor uma indagação. Além de se tratar, pelo que se sabe, de uma, digamos, “publicidade abusiva” (vide acima) não se poderia considerar a idéia de que tentam passar ao povo, principalmente na afirmativa final, uma propaganda enganosa? Por que não?

Que “novo país” querem nos fazer crer que “estão construindo há quase 8 anos”? Estamos num estado de descalabro e desamparo total em termos de saneamento básico, de saúde, de segurança pública, com a educação fora dos trilhos, um salário mínimo que deve sentir vergonha de si mesmo, etc. Já esqueceram quantos escândalos aconteceram, envolvendo pessoas em destaque dentro do governo, durante este tempo? E a CPI da corrupção?

E a aprovação do projeto que permitiu a reeleição, em causa própria? Sobre isto, não apenas Deus, mas também o PFL e o PMDB certamente sabem tudo a respeito, especialmente das negociações e convencimentos para que alcançassem o objetivo pretendido. Se os senhores do PFL tivessem coragem e patriotismo suficientes poderiam fazer certas revelações pela convivência mais do que íntima com o poder. Mas, é esperar e exigir demais deles.

Outro dia eu li na coluna do jornalista Hélio Fernandes matéria com este título: “Balanço de FHC não vê o fracasso social.” Ele lembrava que, em recente pronunciamento impregnado de incoerências, S. Ex.ª “…apresentou como uma grande coisa os investimentos de R$ 29 bilhões que informou ter realizado no ano passado no campo do desenvolvimento social.”

O jornalista recordou que: “Num orçamento de R$ 950 bilhões, como foi o do ano passado, o que representam R$ 29 bilhões? Em números redondos, apenas a parcela de 3% da massa federal de recursos.” O pior ainda foi que o Sr. FHC, ao apresentar aquele dado como algo grandioso, como uma decisão nobre, frisou, logo a seguir, que cerca de 32% dos brasileiros e brasileiras vivem na miséria…Isto significa “apenas” algo em torno de 50 milhões de pessoas. É este o país que estão construindo há tantos anos e do qual se vangloriam?!

Desenvolvimento social para os atuais governantes parece ser somente distribuição de salário-creche, vale-transporte, tíquete-refeição, que no fundo são apenas paliativos. Sabemos muito bem que o caminho seria propiciar-se empregos e salários dignos. Mas, para isso, só com um desenvolvimento econômico sério, não apenas existindo nos dicursos para iludir eleitores mal informados. Eu não sou economista, mas não precisa ser para sabê-lo.

E poderíamos desfiar um rosário de promessas não cumpridas, desacertos e desmandos que alguns ainda se recusam a enxergar e querem até que só reconheçamos “os méritos”!! Este é o Brasil que vota e que elege, depois chora, depois protesta, mas, ao votar de novo é capaz de repetir tudo outra vez.

Lembremos o saudoso Oswaldo Aranha: “O Brasil é um deserto de homens e de idéias.” Sua afirmação continua atual e mais justificada ainda. Aliás, cabe também outra assertiva: “A economia vai bem, mas o povo vai mal.” Alguém disse isto durante a ditadura militar. Agora, em nosso arremedo de democracia, ambos não vão bem, mas talvez o povo vá ainda pior.

Até a taxa baixa de inflação não indica a verdade. Sabemos que somos diariamente ludibriados no peso, na medida, etc, de vários produtos, do supermercado à farmácia. A inflação “fantasma” que não chega aos índices, mas dói e corrói nossas parcas economias.

Voltando aos ataques pessoais de candidato a candidato, não quero dizer que apenas o Sr. Lula seja o alvo, claro que não. No momento eliminaram da concorrência quem nunca poderia existir como ameaça, D. Roseana. Se o Lula se mantém na liderança das pesquisas, das quais sempre desconfio, ele será o alvo, mas basta outro candidato crescer que as baterias para ele se voltarão.

No momento quem anda muito e estranhamente agressivo é o Sr. Anthony, o Garotinho, principalmente contra o PT e o próprio Lula. Há jornalistas que afirmam que ele faz jogo de cena, mas no fundo quer mesmo é se reeleger governador. Pelo sim, pelo não, Carlos Chagas, em sua coluna, observava: “Ele parece um quinta-coluna, um agente provocador infiltrado nas oposições.”

O jornalista chega a indagar a quem ele estaria servindo, já que é candidato pelo PSB, ou seja, está no bloco da esquerda que poderá precisar de união num eventual segundo turno. Assim, conclui Carlos Chagas: “A resposta poderá surpreender, lembrando a história do Cavalo de Tróia.” É um caso a se pensar.

Enquanto isto o Sr. Anthony dá um show de inaugurações, uma atrás da outra. A TV mostrou outro dia um hospital sendo inaugurado totalmente vazio de aparelhos. É o “vale-tudo” nesta reta final, na qual economistas do PT o acusam de estar comprometendo cerca de um bilhão de reais de um orçamento que não suportaria tantos gastos. Em resposta, Garotinho chama os petistas de incompetentes e imbecis… É o nosso “reality show” eleitoral. Haja ventilador!!


(13 de abril/2002)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm