13/04/2002
Número - 254

 

 

          

Francisco Simões

 

O DISTRATO DOS DIREITOS DO HOMEM

Em abril de 1964, o poeta brasileiro Thiago de Mello escreveu "Os Estatutos do Homem". Eles fazem parte do livro, do mesmo autor, "Faz escuro mas eu canto." 

No presente momento parece que alguns desejam mergulhar a humanidade numa escuridão sem precedentes. Nela só poderão cantar os que têm olhos, mas não enxergam, têm coração, mas não o escutam. O poeta não terá motivos para cantar.

À época, Thiago assim definiu sua obra: "A poesia é uma arma contra as forças escuras, contra o império da injustiça, da arbitrariedade e do terrorismo." "Os Estatutos do Homem" são, acima de tudo, uma celebração da vida. É o poeta demonstrando fé no amanhã, nos valores eternos do homem e na sua indiscutível vocação para a paz, como está dito na abertura desta nova edição.

Em oposição ao pensamento e aos anseios do grande poeta estão aí as idéias, as ambições, o desejo intenso de poder, de conquistas, de supremacia, de expansão de alguns e também as pregações e os atentados do terror, seja de grupos radicais, seja de governos, não menos inflexíveis e radicalistas. Parece pretenderem escurecer nossos sonhos de paz, apagar o sol de nossas auroras de esperança.

O artigo primeiro dos "Estatutos" de Thiago de Mello diz: "Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira." Entretanto, as pessoas que andam se apossando do destino desse nosso mundo atualmente e o empurrando para tão escuros caminhos jamais entenderiam aquelas palavras.

Do cenário internacional atual, indo de Osama Bin Laden, a George Bush, passando por outros que também se arvoram em defensores da humanidade, mas que, com seu espírito belicista, poderão causar-lhe um mal ainda maior ao estabelecerem que a força substitui o diálogo, só vejo condições para eles escreverem o que seria "O Distrato dos Direitos do Homem". 

Certamente o primeiro artigo imporia: "Fica decretado que agora vale a mentira. Agora vale a morte, e de mãos bem armadas, bombardearemos todos, explodiremos tudo pela paz verdadeira e duradoura e pela vida eterna, recompensada." 

O artigo 4º dos "Estatutos" diz: "Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu." 

Para os atuais senhores da vida e da morte, certamente a redação deste artigo seria algo assim: "Fica decretado que o homem desconfiará sempre do homem e o denunciará sem escrúpulos. O homem não confiará no homem que confia em ideais diferentes do seu, em princípios que colidem com os seus, em deuses que não sejam os seus, em valores que se contraponham aos seus."

O artigo 13º dos "Estatutos", por exemplo, diz: "Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou."

Já para a arrogância, o indecoro, o despudor e mesmo o fundamentalismo exacerbado, as determinações deveriam ser: "Fica decretado que o dinheiro comprará consciências, corações, alianças, opiniões e, se necessário for, condicionará o sol de todas as manhãs, impondo o medo e a morte. O dinheiro se manterá como uma afiada espada contra o direito de cantar, de sonhar e do pensamento e da palavra livres, até a festa final do capital ou da guerra santa."

A contabilidade dos atuais senhores da vida e da morte apenas considera vítimas de uma raça, de um credo, pelas quais continuam a clamar por justiça pelas próprias mãos, realimentando seu ódio irracional. Os muitos que sucumbam sob a ira de seus imensos pássaros de aço ou de suas emboscadas traiçoeiras, ainda que inocentes, são ignorados como seres humanos. Nem figuram como estatísticas. 

Parece que os referidos senhores se deleitam em praticar o "esporte da guerra" numa olimpíada sadista que pretendem duradoura. O mesmo e primeiro pretexto que os lança a uma luta irracional, despreza a conformidade do direito e da justiça verdadeira, e os motiva a prosseguir na matança desmesurada e sem limites. 

Os alvos poderão variar, mas a obsessão continuará tentando ocultar o rastro da própria incompetência. Quando faltam argumentos, aos medíocres resta usar o poder da força, já que a força da razão os intimida, os desnuda, os desmascara. 

Preferem condenar o bom senso ao silêncio lúgubre e poltrão das masmorras que substituem suas consciências. E a cada eventual "vitória" só as suas próprias insanidades lhes permitirá celebração.

Isto mais se comprova, por exemplo, nas palavras de um general americano, o Sr. Tommy Franks, chefe do Comando Central das tropas que estão no Afeganistão. Declarou ele à imprensa: "Os Estados Unidos estão a caminho de acabar com o problema do terrorismo no mundo." 

Com todo o respeito que S. Senhoria merece, suas palavras não traduzem nenhuma novidade. Fala a velha arrogância, a presunção, a estultice, a vaidade prepotente de quem acha que tudo pode, mas não tem tempo para pensar ou não tem interesse em.

Antes pudesse ser verdade, antes fosse tão fácil. Como acreditar nessa gabarolice, nessa fanfarrice do generalato, se as próprias autoridades americanas consideram que haja terroristas espalhados por cerca de 60 países? Só se repetirem, por muitas vezes, o exemplo lamentável que deram ao mundo ao soltar bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Por aquela ótica, realmente o general Tommy tem razão. 

Traçar caminhos sensatos, soluções outras que passem pelas verdadeiras causas que motivam tanto terrorismo pelo mundo afora, certamente nem pensar. Aplicar os tantos bilhões de dólares queimados no Afeganistão e alhures, e os a queimar na continuação desta "guerra", na eliminação ou minimização da miséria, da fome, das doenças que anualmente matam tanto ou mais que essas guerras insanas, nem devem ocupar espaço nas idéias do general e de seus superiores. 

General, (digo eu) não há efeitos sem causas, e sem eliminar estas os efeitos ainda estarão pelo mundo quando V. Senhoria e seus superiores hierárquicos tiverem se despedido da vida, deixando-a certamente pior do que a que temos aí e que já nos preocupa demais. 

Trocar bombas, mísseis, por efetivas ajudas humanitárias, não lançadas sobre a cabeça das pessoas, mas que nasçam de extenuantes e sinceros diálogos, planejamentos, uma eqüitativa distribuição da riqueza hoje acumulada por tão poucos que hipocritamente oram e/ou choram por tantas vítimas de males que poderiam sim ser evitados em sua grande maioria, isto nem pensar, não é general?

O senhor já ouviu a música "Imagine", de John Lennon, claro. Sei que ouviu, mas deve achar um amontoado de bobagens utópicas, não? Não o culpo, algumas pessoas que conheço e a cantam também no fundo não acreditam na possibilidade de termos um mundo como ele sonhou. O senhor sonha, general? Não deve ter tempo para essas "tolices", certo?

Mahatma Gandhi disse: "A não-violência é o primeiro artigo da minha fé e é também o último artigo do meu credo." Um dia, um terrorista o matou. O senhor certamente mataria aquele terrorista, se pudesse, para salvar Ghandi, mas provavelmente se arrependeria depois se ouvisse palavras de admoestação do próprio Ghandi, não? Sei que é difícil de entender, ainda mais para quem tenha uma visão que não deve ir a mais de um palmo para além da mira de sua arma.

O Artigo 6º de "Os Estatutos do Homem" diz que: "Fica estabelecida, durante todos os séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora." No "Distrato dos Direitos do Homem", que imagino elaborados pelas pessoas aqui já referidas, este artigo deveria ter esta redação:

"Fica proibida, por todos os séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, pois a águia se juntará aos lobos e eles celebrarão juntos, reinarão juntos, dominarão juntos todos os pastos que puderem e jamais dividirão sua comida ou suas auroras com os cordeiros."

Enquanto o poeta acredita que seja possível a construção de uma sociedade humana solidária, os pretensiosos senhores da guerra escrevem solidariedade com bombas e mísseis. No final do artigo 12º dos "Estatutos", do poeta Thiago de Mello, está dito que: …"Só uma coisa fica proibida: amar sem amor." 

Os atuais senhores do mundo amam, realmente amam muito, a si próprios e aos seus símbolos de poder e de riqueza. Aos que sobrevivem para além de suas fronteiras, o "resto do mundo", como eles dizem, só permitem e impõem mesmo é "O Distrato dos Direitos do Homem." 



(13 de abril/2002)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm