20/04/2002
Número - 255

 

          

Francisco Simões

 

FEBEAPÁ 1253

Que falta nos faz o Sérgio Porto. Quem foi ele? Nós, da velha guarda, tivemos a honra e o privilégio de o conhecer. Como Sérgio Porto ele também foi funcionário do Banco do Brasil. Artisticamente se assinava "Stanislaw Ponte Preta". Um dos maiores talentos do humor brasileiro de todos os tempos. Criador de vários personagens que marcaram época. Inteligente e dono de uma cultura geral invejável.

Deus o convocou ainda muito cedo, precocemente. Um enfarte foi o passaporte. Certa vez ele compôs o "Samba do crioulo doido", um sucesso extraordinário. A letra descrevia um brasileiro, de intelecto mediano, tentando entender as peripécias, as trapalhadas, as incoerências do quotidiano da vida brasileira, desde a chegada, aqui, de Pedro Álvares Cabral. Um crítico mordaz, mas muito alegre, do panorama social e político.

Aquela composição musical está perfeitamente atual e, se vivo fosse, ele teria composto muitas outras, com o mesmo espírito, já que a nossa realidade, no que mudou, o fez para pior, oferecendo fartas situações para uma infinita inspiração que o talento de Sérgio Porto saberia explorar, esquadrinhar com um sentido crítico muito pessoal. Como ele faz falta neste momento.

Sérgio também escreveu uma série de livros com o título de FEBEAPÁ, ou seja, "Festival de Besteira que Assola o País". Hoje já deveria estar escrevendo o FEBEAPÁ nº 1253, ou por aí. Quem sabe? Matéria prima não lhe teria faltado.

Se não, vejamos. Conforme a disputa presidencial vai se acirrando as pedras vão se mexendo no tabuleiro do xadrez de vaidades pessoais, ambições incontidas, conchavos variados, alianças completamente esdrúxulas e politicamente incorretas, se é que nossa política ainda se lembra do que é ética, princípio moral, ideário político, entre outras coisas que parece caíram em desuso.

O PFL, habituado com a intimidade do poder há mais de 39 anos, tem nele o seu oxigênio. Fora dele corre sérios riscos de sobrevivência. Lançou uma candidata que acabou tendo que renunciar pelas evidências, em vários processos contra ela e seu marido, que ela mesma negava. Como havia "rompido" com o governo, ficou meio sem rumo. Dizem que está repartido. Logo o PFL (ex Arena) que sempre marchou em ordem unida, desde os tempos da ditadura militar.

De repente passa a ser cortejado por vários outros postulantes à presidência. Tudo bem se os tais postulantes não estivessem inscritos como candidatos em partidos da chamada esquerda brasileira. Alguns, bem à esquerda mesmo. Algo impensável até então, só entendido, quase que filosoficamente, pelo conhecido ditado popular: "Os extremos se atraem", ou "Tudo pelo poder."

O candidato Ciro Gomes olha com bons olhos uma aliança com o PFL. Estarei sonhando? Ele não é candidato pelo PPS, antigo "Partidão", ou Partido Comunista Brasileiro? O time do PFL não ajudou os militares, com tanto empenho, a combater o que eles chamavam de comunismo? Está certo que o muro de Berlim foi derrubado, que a União Soviética faliu, mas não restou nenhum pouco de orgulho, ou amor próprio nos integrantes do PPS?

Bem, no que concerne ao correto e íntegro Roberto Freire, logo lançou seu justificado clamor contra esta tentativa de um casamento que já nasceria com odor de divórcio. Aí ouço o Sr. Ciro, que mesmo estando no PPS, na verdade é um político de centro-direita, tentar minimizar a autorizada voz de Freire, e até desautorizá-lo. Bolas, é uma tremenda falta de respeito com o presidente do PPS.

Freire batalha, no que hoje é o PPS, a sua vida inteira, aí vem alguém, que até deu apoio à Roseana, quando a polícia Federal invadiu o escritório de seu marido, e tenta censurá-lo, cassar-lhe a palavra, sufocar sua voz que tanto bradou contra o regime de exceção que vivemos por quase 3 décadas? E dentro do partido do qual ele é um dos fundadores? Talvez seja bem feito para o PPS.

Então surgem vozes oriundas do PTB, que está em aliança com o mesmo PPS (nos padrões dos velhos tempos havia coerência, mas agora?!) e também criticam severamente a posição séria e coerente de Roberto Freire, pelo menos no meu entender e divergências à parte. Meu Deus, este PTB, que já foi o partido dos trabalhadores brasileiros, ou pretendeu ser, e recentemente teve como presidente um… banqueiro?! Mais, tem agora nos seus quadros, políticos que integraram a tropa de choque do ex presidente Collor! Ele que congelou a poupança dos trabalhadores por anos e a devolveu muito desvalorizada!!

Ah, Sérgio Porto, que falta que você faz. E o PFL passou também a ser cortejado pelo Garotinho, que até considerou que Roseana foi uma "injustiçada e vítima de perseguição política." Seu partido, o atual, bem entendido, é o PSB. E socialismo combina com direita liberal?

Mais espantado fiquei ainda ao ler que Garotinho está de olho grande num possível apoio de Maluf. Pensei logo: e como fica nessa o antigo batalhador das esquerdas, nas ligas camponesas, o Sr. Miguel Arraes? Aliança com o PPB de Maluf? Não acredito. Ele vai reagir como fez o Roberto Freire.

Então li que o próprio Arraes teria dito que, apesar das históricas divergências com Maluf, "apoio não se despreza." É, não devo mesmo entender mais nada de ideário político, ética na política etc. Os tempos mudaram muito, ou mudaram tudo. Neste assunto, porém, eu prefiro não mudar meus conceitos. Caso contrário teria que riscar do meu dicionário a palavra coerência, que alguns querem confundir com "novos tempos". Eu não honraria a memória de meu pai.

Nesta fico com as palavras de Luiza Erundina (ex PT, atual PSB). Em entrevista ao jornal "O Globo" ela disse: "Estou perplexa. Prefiro acreditar que não seja verdade. É um absurdo. Maluf é o antagonismo do que queremos construir, um partido socialista." Graças a Deus alguns ainda são coerentes e éticos.

Eu poderia até ser o personagem central de uma nova composição do Sérgio Porto, se vivo ele estivesse. Quem sabe se intitularia "Samba do coroa idealista e louco"? Com muita honra, claro.

Honra sim, que também significa dignidade, probidade, retidão, e que passa bem ao largo nessas alianças que visam apenas e tão somente a alcançar o poder maior, a presidência de uma República onde o povo, em nome de quem deveria ser exercido esse poder, só é lembrado, bajulado, abraçado, carregado no colo, às vésperas de eleições. Depois já sabemos o que fazem com ele: ignoram-no.

Por favor, não incluam como povo os favorecidos e nunca desamparados do Proer, ou os usuários do colarinho branco, para os quais há sempre uma liminar ou um "habeas corpus" disponível, não obstante a gravidade das eventuais fraudes, extorsões, subornos ou peitas que desfalquem o erário público, e nem a imensa seleção de políticos que desfrutam de inúmeras vantagens de toda ordem, inimagináveis para os cidadãos comuns, trabalhadores deste país.

Mas, voltemos ao PFL, a "noiva" mais cobiçada no cenário político atual. O Serra é o candidato da situação, portanto do governo com o qual o PFL "rompeu relações". Parece, porém, que aquela separação deixou saudades em boa parcela do PSDB. Foram quase 8 anos de longa convivência amigável. Trocas de carinhos e de favores que marcaram aquela aliança.

Quando seria de se esperar que Serra buscasse apoio em outras plagas, ou legendas, leio que ele declarou: "Vou tentar levar de volta o PFL para a base do governo." Isso é que é paixão, hein?! Ah, caro Stanislaw, se eu tivesse a sua competência! Contrariando os anseios de Serra, o Sr. ACM já disse que com ele o PFL não se comporá, em hipótese alguma. Topa até apoiar o Lula, Serra, não.

Só que o grande cacique pefelista, diante da atual crise existencial do PFL (doença gerada pelo afastamento do poder) parece não estar a ser ouvido por todos, como sempre o fora antes. Estaria havendo, dentro do partido, o que se chamaria de uma "desobediência civil ACMista".

A meu ver, mesmo que o PFL apóie no primeiro turno a Garotinho, ou a Ciro, num segundo, com a presença de Lula, digamos, podem até ficar tentados a sentar no colo do PT, se o outro candidato for o Serra. Mas, creio mesmo que o fator determinante, decisivo, serão as pesquisas de opinião pública.

Se elas caracterizarem uma evidente vitória de Lula, nada os levará para Serra. Todavia se o Serra conseguir a façanha de ultrapassar a Lula, bem, aí vai falar mais alto a eterna vocação para o poder, algo incontrolável nas hostes pefelistas. Se o Lula nem chegar ao segundo turno, hipótese pouco provável, tudo pode acontecer. Mas a decisão se apoiará mesmo no rumo das pesquisas, podem crer.

E se o PFL tornar-se mesmo aliado do PT, num segundo turno? Como reagirá o partido da estrela vermelha? Como explicar ao seu eleitorado essa aliança? E se chegar a ser governo, conseguirá impor suas idéias, seu programa, ou terá que fazer muitas concessões, como fez FHC? O país suportará outros 4 ou 8 anos iguais? Nem quero pensar. Mas, com certeza o Stanislaw escreveria ainda muitos outros FEBEAPÁs.



(20 de abril/2002)


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm