27/04/2002
Número - 256

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A VIDA É BELA

Eu, particularmente, tenho bons motivos para achar que a vida é bela, ainda mais junto com ela. Bela no sentido da união, da paz, do entendimento, do companheirismo, da solidariedade, do amor compartilhado, da dedicação absoluta de um ser a outro ser.

A vida é bela na cumplicidade de olhares que não precisam de palavras, nas mãos entrelaçadas que guiam, pelas ruas e jardins, corações que se doaram. Não importam as diferenças se, embalados nos mesmos sonhos, repartindo os mesmos planos, segurando a mesma fé, a mesma esperança de vida, nos tornamos iguais.

A vida é bela, sim, mas é preciso que haja amor, acima de tudo, amor. Como disse Franklin Jones: “Amor não é aquilo que faz com que o mundo vá em frente. Amor é o que faz uma jornada valer a pena.” Afinal, amar é se doar. Anotei certa vez, mas não me lembro do autor: “Doadores doam até quando recebem. Os tomadores tomam até quando dão.”

A vida é bela se há felicidade no seu coração. A vida é bela na amizade leal, que coonesta, que abriga, que preserva, que ampara, que reparte com você sua alegria, que chora e que sofre com você na dor que o aflija. A vida será sempre bela para alguém cujo coração lhe dita tão lindos versos como esses:

“Só lerás o que eu puder defender. / Mas o que chegar a teus olhos, defenderei / Com unhas, dentes, vísceras, coração. / Ali terás minha alma, meu choro, meu riso, / Noites de insônia, dias de ansiedade, / Euforia, êxtase, frustração. / Ali terás a minha dedicação.” Este é um trecho do belo poema ‘Reconhecimento’, da talentosa poetisa, e minha amiga, Isabela Benício.

Amor e amizade às vezes se confundem, se completam, interagem entre si, derrubando barreiras, não se curvando nem se deixando acuar por preconceitos, mas que jamais dominam ou subjugam, apenas aceitam e cultivam o que recebem da outra parte.

O oposto a este modo de ser, de viver, compartilhando com outro que a vida é bela, está expresso nestas poucas palavras de um pensamento de Seneca: “Solidão não é estar só, é estar vazio.”

Há também uma citação atribuída a Rose Muraro que diz o seguinte: “Uma das coisas mais belas da amizade é saber quando o amigo precisa de alguém, antes que ele mesmo o saiba.” Eu adaptaria o sentido desta afirmação também para o amor. A convivência na paz, na felicidade, no entendimento, nos leva algumas vezes, realmente, a intuir um desejo, um pensamento, que esteja por ocorrer a quem amamos. Já experimentei esta sensação.

Ano passado, 2001, por ocasião do Dia dos Namorados, eu escrevi este pequeno poema que me permito registrar aqui, agora:

“Pouco me importa o que teci, o que perdi, / As lágrimas, as saudades, os desencantos, / Tantos disfarces, infernos, tantos véus, / E quantos céus que eu rejeitei, e quantos. / Pouco me importa agora esse tempo / Que traçou rugas, desenhando o envelhecer, / É o mesmo tempo que hoje pára e escuta / O que a vida sempre me ouviu dizer: / Eu te amo.”

Eu poderia tê-lo escrito antes, há 37 anos, mas fazê-lo agora teve um sabor e um significado especial. Prova alguma coisa, reafirma uma amizade que perdura e que se consolidou através dos tempos. Mostra que valeu a pena ter plantado uma semente de amor. Germinou uma vida realmente bela, onde são repartidos e compartilhados os momentos de alegria e de dor.

Alguém há de pensar e de me julgar egoísta, mas não é verdade. Sempre tive uma visão ampla e muito realista do mundo. Quem conhece o conjunto do meu trabalho, em prosa e em verso, sabe disso. Sei que a vida é bela, mas não é perfeita. Nem todos a podem desfrutar igualmente por que também existe a infelicidade. Destino? Karma? Desígnios de Deus? Não sei, confesso-me incompetente e impotente, por não poder tornar a realidade igual para todos.

Outro dia eu caminhava pela Praça N. Sra. Da Paz e cruzei com um homem que caminhava lentamente, apoiando-se em duas muletas. Só tinha uma perna. No seu rosto triste percebi que a natureza o castigara ainda mais: era cego do olho direito. Ele pedia ajuda e eu o atendi. Era só o que podia fazer por ele. Como falar de esperança para alguém que, mesmo que conserve a fé no coração, convive com a certeza de que a vida lhe foi injusta?

Mais adiante vejo um senhor sentado sobre uma pequena almofada. Faltavam-lhe as duas pernas e ele não tinha muletas nem qualquer outro acessório para ajudá-lo a mover-se. Nossas ruas estão povoadas de pessoas carentes de tudo para as quais as cores da vida jamais serão belas. Alguns transeuntes não gostam de olhar, como se a sua indiferença desvanecesse o panorama de penúria, de indigência, chagas de uma sociedade enferma e injusta.

É como eu disse em meu poema “Meia-Noite”: “Meio banco faz um leito, / Meio jornal, cobertor, / Meio olhar é preconceito, / Meia ajuda é pouco amor.” Procurando expressar em versos os sentimentos de um imenso exército de famílias sem-teto, eu escrevi, em novembro/2000, a seguinte poesia:

“Como aceitar que a vida é bela / Se me tomaram a porta e a janela, / Se minha alma, sonhos e planos / Foram emboscados numa esparrela. / Sonhos e planos, minha utopia, / Minha doce e fiel fantasia / Que noite e dia me sustentava / Para eu não me afogar na hipocrisia / De tudo que eu via e ouvia, / Que me agredia e me desdourava / Visto que tudo que eu sentia / A ninguém, a ninguém mesmo importava.”

Nos últimos versos deste poema, procurei traduzir com fidelidade a dor que deve açoitar a alma desses seres humanos marginalizados, aí incluídas crianças de várias idades que já nasceram sem berço, sem lar, sem direitos e sem defesa:

“Como aceitar que a vida é bela / Se eu não passo de uma tela / Na calçada, um quadro mal pintado / Desprezado por quem passa, / Açoitado pela indiferença, / Confinado na desgraça, / Sufocado na descrença.”

Basta nos lembrarmos de centenas de milhões de seres que, pelo mundo, padecem por doenças, maus tratos, fome, vítimas de guerras insanas, da ambição de alguns que disseminam a violência, até em nome de Deus, em vez de plantarem flores e árvores ou valorizarem a vida humana, e percebemos ser impossível, mesmo com muito amor em nosso coração, levar-lhes a mensagem de que a vida é bela. Seria mesmo um escárnio.

Mas, apesar de tudo, nunca devemos deixar de fazer a nossa parte. Modificando-nos para melhor, tentando aprimorar a realidade a nossa volta, clamando por justiça sem ambicionarmos nos sobrepor a ela, doando-nos com sinceridade, lealdade e desprendimento. Plantemos o amor, aceitemos a desculpa e saibamos perdoar o erro. Algumas vezes precisaremos que façam o mesmo por nós.

Transcrevo aqui um pequeno trecho de uma linda mensagem cuja autoria foi atribuída ao grande Charlie Chaplin, embora haja quem a conteste. Eu, porém, quero saborear a beleza dessas palavras, independente de quem as tenha escrito:

“Nesse mundo de céticos, preciso de alguém que creia nessa coisa misteriosa, desacreditada, quase impossível: a amizade. Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa. Preciso de um amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida, mesmo que isto seja muito pouco para suas necessidades.”

E ele termina dizendo: “Nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma amizade verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela.”

A vida consegue ser bela no sorriso que mitiga, que ameniza a angústia, o sofrimento, o desalento, plantando no coração a fé, a esperança, o ressurgir. A vida é bela no carinho que reafirma uma existência inteira de devotamento, de consagração ao amor que jurou honrar. A vida é bela quando a poesia sobrevive para além das dificuldades, dos obstáculos, dos estorvos.

A vida é bela na tolerância, na solidariedade, no desprendimento. A vida será sempre bela se houver justiça social, igualdade de direitos e obrigações, respeito às individualidades, às diferenças de raça, de crença, enfim, respeito à vida em si mesma, posto que a ninguém é dada a prerrogativa de eliminá-la, suprimi-la, sob qualquer pretexto que seja.

A vida pode ser bela também para você. Tente fazer por onde. Siga o que diz o Mestre Dalai Lama: “Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro, amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.” Então, viva, e deixe viver.
 


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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