04/05/2002
Número - 257

 

          

Francisco Simões

 

PRIVATIZAÇÃO À BRASILEIRA

Apesar de ter escolhido hoje o assunto acima, prometo preservar o bom humor que neste dia despertou junto comigo para mais uma jornada de vida. Caminharemos, ou, digitaremos juntos esta crônica.

Quando levantaram a bandeira das privatizações neste Brasil brasileiro, de Ari Barroso, surgiram logo ardorosos defensores da desestatização. Alguns amigos bem próximos se rejubilavam. Preferi me abrigar na sombra da discrição. Não vestia a camisa dos “contra”, absolutamente, só temia a pressa e os descritérios habituais. Alguns clamavam por privatização total, vender tudo.

Neste país, quando as autoridades querem adotar algo para o que nós, como povo, demonstramos desconfiança, é comum irem buscar no exterior, EUA e Europa, especialmente, exemplos que nos convençam. Já repararam nisso? Quando lá fora, entretanto, adotam fórmulas ou procedimentos que se aplicados aqui nos favoreceriam, as mesmas autoridades se calam. 

Por exemplo, o preço do barril do petróleo sobe lá fora, aqui sobe mais, e se lá fora o preço cai, aqui sobe, do mesmo jeito. No Japão e em outros países a carga horária de trabalho foi se reduzindo ao longo dos anos embora a produção tenha se mantido ou até aumentado. Aqui também aumentam, mas só a carga horária de trabalho. Meus amigos economistas têm sempre uma justificativa. 

Mas, voltemos às privatizações do atual governo. Um exemplo mesmo a não ser seguido, em vários casos. Afinal, privatizar significa desestatizar. Como diziam alguns: é preciso retirar das tetas do governo empresas deficitárias. Ou então: o governo não tem nada que estar se metendo na geração de energia elétrica, na telefonia, etc, etc. Seguiram esta lógica e venderam, a preços bem contestados, mas venderam o que puderam.

Passado já algum tempo das privatizações eu saio da tal sombra da discrição e observo que mais uma vez fomos enganados. Pior, fomos e estamos nós, como povo, a ter que pôr as tetas para fora para que algumas “privatizadas” mamem e se saciem. E não temos escolha. 

O governo, que se livrou das tais empresas, sem nenhuma cerimônia, ou descaradamente, nos impinge cobranças extraordinárias para que elas não corram o risco de quebrar. Mas, como “privatizadas”, não lhes competia ser eficientes? Não era isso que se argumentava em favor da privatização?!

A nova taxa chama-se “encargo de capacidade emergencial”. Isto é, já meteram a mão no nosso bolso para as “socorrer” porque teriam arrecadado menos do que esperavam com o racionamento, agora, usando uma bola de cristal, querem prever um futuro que, se for igual ou pior a este passado recente, será o governo o maior responsável, de novo. Todavia, nós é que pagaremos, outra vez, claro. 

Mas, essas empresas tiveram prejuízo? Pelo que se sabe elas tiveram, no ano passado, mesmo com o racionamento, um lucro imenso e, em percentual, superior a 33%. Ainda assim o governo, que as vendeu, decidiu romper a lógica acima e continuou como um “paizão” generoso, porém, com o nosso dinheiro. Como escreveu o jornalista Élio Gáspari, em sua coluna no “O Globo”, de 14.04.2002: “A conta da privataria foi para o andar de baixo.” É isso aí.

Perceberam a sutileza? E o governo se gaba das privatizações que fez. Claro, assim é muito fácil. Refiro-me evidentemente às empresas de energia elétrica. As autoridades pisaram na bola, não fizeram o dever de casa quando deviam, criaram uma situação de caos e… pimba, transferiram para nós o pagamento de “compensações” às referidas empresas. Elas usam agora as nossas “tetas”. 

Somos patriotas, amamos nosso país, e estamos sempre prontos ao sacrifício, à imolação. Haja energia e paciência, embora as reservas de nossas economias estejam mais baixas do que antes estavam os tais reservatórios de água. Mas, quem sabe os reelegeremos em outubro para nos proporcionarem novas emoções e novas oportunidades de “servirmos à pátria” com fervor?! Ora, pois.

No que concerne às companhias de telefonia o quadro não muda muito. Vejamos a Telemar, aqui no Rio de Janeiro, e em particular, aqui em Ipanema. No mês de março, num intervalo de uns 15 dias, por duas vezes, todos os telefones de nosso bairro ficaram mudos, por horas. Num deles, os aparelhos calaram-se por volta das 17 horas e só retornaram ao mundo das telecomunicações às 22 horas. Mesmo assim com a linha muito fraca e derrubando as ligações constantemente. 

Êta eficiência! Segundo um amigo meu, fã das privatizações, eu teria que considerar os imensos avanços havidos após as privatizações. Alegou que hoje há muito mais telefones e facilidades para os obter. É verdade, mas para ficarem mudos? E os tais avisos gravados, inventados nesta época pós privatização? E ainda pagamos pela maioria deles, os quais nem solicitamos! Isto não é abuso?

Mais, aqui em Ipanema, já faz uns dois meses que a partir das 18, ou então, das 19 horas eu não consigo mais conectar-me com a internet. Isto vale para a noite inteira, e toda noite. Pedi um técnico da companhia para verificar minhas linhas telefônicas. Palavras do profissional: “Sabe, vou ter que anotar e comunicar que suas linhas estão perfeitas. Para a companhia importa que o senhor possa falar ao telefone. Quanto ao computador é outro assunto.”

Será que ele tem razão? Então como eu sempre consegui conectar-me, sem problema algum, desde outubro/2000, quando mergulhei neste mundo virtual? Por que agora não consigo? E não apenas eu. 

Estou sabendo que a queixa é muito grande quanto à dificuldade de nos conectarmos, porque a linha não é reconhecida pelo modem dos computadores, segundo outro técnico me explicou. Ou seja, no horário que caminha para a noite, o sinal da linha enfraquece. Agora, antes não acontecia isto.

A única alternativa que me deram foi pedir um plano do tipo, por exemplo, “Velox”. Conexão garantida por 24 horas, pagando um pouco a mais, e não tendo mais queixas a registrar. 

Tudo bem, telefonei para a Telemar, pedi o tal serviço e mandaram-me comprar uma placa de vídeo. Comprei e instalei no dia seguinte. Fiquei aguardando o contato do técnico para, em seguida, ele vir colocar um modem mais forte que o normal, no computador, para atender ao “Velox”.

Dezenove, repito, dezenove dias depois ligaram da Telemar avisando-me que o serviço não poderia ser completado por “impossibilidades técnicas”, deles, claro. Como estamos vivendo a era dos “BamBans”, tudo se explica, tudo vale, dizem o que quiserem e nós ficamos com aquela cara habitual de bobo, para não dizer de palhaço. E a tal de “impossibilidade técnica” ficou no ar sem maiores definições.

É, tenho que reconhecer que o atendimento “melhorou muito” com a privatização da telefonia. Talvez eu é que não alcancei o espírito dessa mudança. Se eu ficar aqui a lembrar que são comuns as ligações que não fizemos virem nas contas que nos apresentam, aquele amigo vai dizer que é apenas um… detalhe. É só acompanhar as queixas que são registradas no Procon quanto ao atendimento das empresas de telefonia. Lê-se nos jornais, vê-se na TV, ouve-se nas rádios. 

Já li e ouvi até que a Telemar estaria à beira da falência. Li na grande imprensa. Será verdade? Não acredito. Elas foram privatizadas para serem eficientes, vivem a nos impor correções de tarifas e… não, recuso-me a crer. Devem estar todos de má vontade com a tal de privatização deste governo. Deve ser isso. Ou então estão transformando a nossa inteligência, a nossa paciência, em latrinas.

Desculpem, ia esquecendo de puxar a cordinha, como nos velhos tempos. 



(04 de maio/ 2002)
CooJornal no 257


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm