11/05/2002
Número - 258


 

          

Francisco Simões

 

CRÍTICA DE BANQUEIRO É ELOGIO

Desculpem, mas não consigo levar a sério o que disseram, tanto as duas agências americanas, Merrill Lynch e Morgan Stanley, como um tal senhor Arturo Porzecanski, do ABN Amro Bank, controlador do Banco Real. Mentalidade de banqueiro é assim, só pensam em lucros, lucros cada vez maiores, não importa por cima de quem, ou do que, eles passem. Não tenho nenhuma simpatia por eles.

Banqueiros não têm pátria, a cor da bandeira para eles é a cor do dinheiro. Ainda bem que o Ministro Malan veio de público, e de imediato, e repudiou a pregação negativista que eles fizeram contra o Brasil. Aliás, outras pessoas que respeito, como a economista e comentarista do jornal da Record, liderado pelo Sr. Boris Casoy, a D. Salete Lemos, também a repeliu com veemência e argumentos.

Todos os candidatos à Presidência da República, sem nenhuma exceção, uniram suas vozes e refutaram a análise absurda que aqueles banqueiros estrangeiros fizeram da economia brasileira atual. Ainda bem. Temos problemas, sabemos, mas não estamos à beira de uma catástrofe econômica, isso não. Por sinal, eles devem saber, mas queriam fazer também uma "marola" de olho em nossas eleições.

E se dizem democratas, mas têm o descaramento de tentar influir na decisão que cabe, única e exclusivamente, ao povo brasileiro, a mais ninguém. Uma atitude indigna e revoltante, mas que merece mesmo é tomar uma bela gargalhada de desprezo. Hoje em dia eles não podem mais acusar a certos políticos brasileiros, como o Lula, por exemplo, de "comer criancinhas", ou ser "comunista", coisas que no passado fizeram. Mas, estão mal acostumados, e não querem perder regalias.

Vejam que eu não me referi a direitos. Sim, porque os banqueiros, em nosso país, principalmente, nem precisam ser eficientes. Se a coisa não vai tão bem quanto esperam sabem que podem sempre lançar um SOS que nosso governo logo lhes envia, não uma bóia, mas um transatlântico para os salvar. Nem precisa ser um naufrágio, basta um resultado "menos favorável" ao por eles esperado. O governo atual, do Sr. FHC, por exemplo, criou-lhes o PROER, com tetas imensas.

Claro que para as críticas do povo, que em vez de socorro, quando reclama, toma é borrachadas ou coisa pior, o governo tem sempre um discurso bem elaborado. Da última vez chegaram a afirmar que com o PROER estavam salvando a nós, correntistas, é, a nós, pasmem, amigos. A gente fica com aquela cara de bobo e ainda lhes deve agradecer!! Governo é tão bonzinho com o povo…

Por outra ótica, esta postura absurda e condenável de banqueiros estrangeiros, que acabou por derrubar os títulos do Brasil lá fora, e mesmo as bolsas de valores, podem trazer embutida uma outra intenção, muito própria dessa turma. Refiro-me a provocar propositadamente, com esses falsos alarmes, uma queda de títulos e bolsas, para, na baixa, claro, eles efetuarem suas compras e depois, obterem mais excelentes lucros. O vampirismo, nesta área, está sempre sedento de ganhos.

Oh, meu brasil brasileiro, onde o mulato inzoneiro é escapelado pelo banqueiro. Se poupas, no Banco, te pagam 0,7% ao mês, mas, se pedes um empréstimo, vais ter que vender até a alma para o pagar. Salário de bancário também ajuda a fazer a felicidade e a fortuna de banqueiro, porque este não tem coração. Bancário trabalha feito escravo, e o feitor, quero dizer, o banqueiro, exige-lhe cada vez mais suor, muito suor. Salário de bancário, no Brasil, chega a ser pornográfico, já que é indecente.

Não me causou estranheza, aliás, o fato de a nossa grande imprensa não ter saído em defesa do Brasil, como deveria, na questão dessas críticas. Claro que lá um ou outro articulista o fez, mas eu gostaria de ter lido, em matéria de primeira página, algum ou alguns editoriais respondendo à altura aos nossos detratores. Mas, acho que eu estou querendo demais. Nossa grande imprensa é assim mesmo, subserviente a outros interesses para além das cores da nossa bandeira.

Mais "brasileira" que nossa mídia foi a inglesa. O respeitável mundialmente, "The Finantial Time", fez uma análise correta dos fatos e deu um belo puxão de orelhas em nossos críticos, estes, mais interesseiros do que preocupados com o destino do Brasil.

A incoerência das críticas feitas por banqueiros estrangeiros se solidifica nas palavras do próprio presidente do ABN Amro Bank no Brasil, Sr. Fábio Barbosa. Este senhor afirmou que não compactua com a tal avaliação de Arturo Porzecansky, do mesmo Banco.

Disse ele: "Nós acreditamos que a economia (brasileira) tem fundamentos sólidos e defendemos o pluralismo de idéias como sendo fundamental para o processo de uma democracia em evolução." Ele garantiu ainda que: "O ABN Amro continuará a investir no país. O Brasil é o terceiro pilar de nossas operações globais, ao lado da Holanda e dos EUA."

Gostei também da reação do economista do PT, Sr. Guido Mantega, colaborador do programa econômico de Lula. Disse ele: "É chantagem do sistema financeiro internacional. Isto é uma estratégia de Wall Street para forçar o próximo presidente da República a manter as altas taxas de juros da economia brasileira e os grandes lucros da ciranda financeira."

Ele lembrou ainda que este tipo de "terrorismo" já aconteceu antes, mas agora não funciona e nem há um consenso entre as agências. Citou o caso de duas delas, Moody's e Standard & Poor's, as quais, entre outras, mantiveram avaliações isentas sobre a economia do Brasil. Asseverou ainda que, se pretendiam dar uma ajuda à candidatura do Sr. Serra, o tiro pode sair pela culatra.

Afinal, amigos, esses senhores, que não tiveram competência para prever as crises do México, da Argentina e da Ásia, por exemplo, não podem ter sua palavra levada tão a sério por nós, brasileiros, no momento em que voltam, desrespeitosamente, suas baterias contra nosso país. Repito que acredito muito mais em interesse de ganhos maiores, ao derrubarem os mercados, pois eles estão acostumados a agir desta forma, não seria a primeira vez.

Como já falei acima, deve ter sido mais uma atitude de vampirizar no terreno alheio, ou nas jugulares nossas. Diz o dicionário, neste sentido, que vampiro "é aquele que enriquece à custa alheia e/ou por meios ilícitos." (vide Aurélio 2000)

Claro que também não se pode descartar totalmente a outra hipótese, a de tentar interferir no processo eleitoral brasileiro. Aliás, hoje, os próprios americanos não escondem seu incontrolável anseio de hegemonia, escudados na atual e lamentável política externa do Sr. Bush. Eles, se puderem colocar aqui, no poder, quem melhor atenda aos seus interessses, não vão abrir mão disso, provavelmente.

Acredito, porém, que nosso povo está bastante amadurecido, por experiências e erros recentes, e não se deixará influenciar por essas interferências externas na hora de escolherem o candidato que julguem seja melhor para conduzir os destinos de nosso país. Ainda que a intenção seja uma real alternância do poder. O povo é que dirá, não uns poucos banqueiros internacionais com suas ameaças.

Indo por este raciocínio devemos raciocinar, no que concerne ao candidato do PT, que ser olhado como uma "ameaça" aos interesses de banqueiros internacionais, especialmente americanos, para além de uma grande baboseira, é realmente um tipo de consagração, percebem?

Complicado para Lula seria receber um apoio integral daqueles senhores. Isto colocaria em seus eleitores uma pulga atrás da orelha e o candidato não teria como explicar-lhes o fato. Quero dizer que, para Lula, a crítica desses banqueiros deve soar como um elogio, posto que quem está precisando demais da atenção e de providências várias do próximo presidente é mesmo o nosso povo.

Há muito que fazer, muito trabalho pela frente, e os banqueiros que tratem de entrar nesta corrente e paguem um pouco da dívida imensa que têm com este país, tradicionalmente generoso em excesso, zeloso demais, com os interesses e lucros deles, em detrimento da saúde, da escola, da segurança, da previdência, do emprego dos brasileiros, e do nosso crescimento organizado.

Se precisamos deles, lembrem-se eles, que também precisam de nós, que acreditamos neste país, em seu futuro, que já está demorando demais a chegar. Pois que se juntem a nós, arregacem as mangas e pensem menos nos lucros, visto que já ganharam mais do que proporcionalmente investiram no Brasil. Que passem de sanguessuga a autênticos e leais investidores no crescimento de nossa pátria.


Só por curiosidade, você sabe, amigo, como andam os lucros dos nossos Bancos, sabe? Imagina certamente que com o aperto que passa nossa gente também eles, os banqueiros, não devem estar tendo boa vida nos seus lucros, certo? Errado, amigo, muito errado.




(11 de maio/2002)
CooJornal no 258


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm