18/05/2002
Número - 259

 

          

Francisco Simões

 

AMÉM

“Em um País tão rico como o nosso, é escandaloso que milhões de pessoas ainda passem fome. A fome continua sendo o maior flagelo e mata mais que todas as guerras. Não se trata de falta de alimentos. O trágico está em que em um País onde, ano após ano, as safras de grãos são cada vez maiores, não se possa assegurar o acesso de todos à alimentação necessária".

Quem lê essas palavras, pode imaginar que seja um discurso de algum candidato de oposição ao governo atual. Mas não é. Essas severas críticas constam de uma carta aberta da Comissão da Pastoral do Trabalhador, aprovada pelo arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eusébio Oscar Scheid.

O documento foi divulgado na missa pelo Dia do Trabalho. Àquela cerimônia religiosa, realizada na Catedral do Rio, compareceram cerca de 10.000 pessoas.

Permito-me apresentar alguns trechos aos meus amigos leitores pois creio que nem todos devem ter tomado conhecimento dele e também pela importância, pela seriedade da análise feita sobre a realidade brasileira atual.

Mais adiante, denuncia o referido documento: "O Brasil sofre de uma das mais perversas distribuições, tanto da riqueza como da cultura. O desemprego é outra fonte de sofrimento, que está constantemente ameaçando a todos".

Prosseguindo, a carta aberta da Comissão Pastoral do Trabalhador salienta: "Mais um ano se passou e a situação de violência, sofrimento e miséria se fazem presentes na vida de multidões de trabalhadores: homens, mulheres e crianças".

Não sendo um mero discurso de campanha de qualquer candidato, este documento merece o melhor de nossa atenção e uma reflexão. Ele mostra um lado importante da igreja, participando ativamente das preocupações de toda a nossa sociedade.

Há críticas bem severas à política econômica do governo, à miséria, à corrupção, ao desemprego, entre outros pontos, o que nós também temos feito. Visto a camisa do time daqueles que acreditam que a igreja deva sim preocupar-se e muito com a realidade em que ela também está inserida. Não tem o direito de se alhear.

Em verdade esse documento segue a linha de conduta que a CNBB vem mantendo há já muitos anos, se não me engano, desde os tempos de D. Helder Câmara. É uma reafirmação do pensamento cristão voltado para a nossa sociedade como um todo, a qual clama há muito por justiça social entre tantas outras dívidas que têm ficado apenas nas promessas eleitorais de nossos seguidos governantes.

Evangelizar e conscientizar as pessoas da importância do seu papel como criaturas de Deus e como cidadãos. Num país como o nosso, onde algumas dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras, sobrevivem à míngua de quase tudo, sem teto, com um salário indigno, quando o têm, sem direito à terra, muitos deles prostrados abaixo da linha da miséria, louvo esta postura de boa parte da igreja católica.

Pouco ou quase nada adianta tentar salvar almas, ignorando que seus respectivos corpos vão, cada dia mais, engrossando a multidão de miseráveis, desamparados, que morrem de fome ou doenças várias, ou que apelam à caridade pública sem poder se considerar cidadãos no gozo de seus direitos civis e nem políticos. Não me parece bem de acordo com os ensinamentos e exemplos que Cristo nos deixou quando a igreja se volta exclusivamente para a salvação de almas. Minha opinião.

Justifica-se plenamente esta consciência da realidade onde se vê a sociedade, de uma maneira geral, adoecer, padecendo de males cada dia mais graves, aí incluída a violência, que a arrastam provavelmente para dias piores. A igreja tem também esta responsabilidade muito bem traduzida no documento divulgado pela Comissão Pastoral do Trabalhador.

Minha assertiva tem amparo nessas lúcidas palavras de D. Eusébio, proferidas após a cerimônia religiosa a que me refiro acima e durante a qual ele comemorou seus 21 anos de sagração episcopal. Ele aludia ao teor da carta aberta: “Isso não é um alerta, mas um exame de consciência. É uma proposta de trabalho também. É uma proposta de ação da nossa parte, em ajudar enquanto somos inspiradores de princípios éticos, morais e humanos”.

Voltando ao texto do documento, reproduzo mais uma passagem: “Toda esta realidade continua a nos apresentar um quadro que revela a perpetuação de estruturas injustas e desumanas. A impunidade ainda prevalece e favorece a cultura da corrupção. Assim, o desvio de recursos públicos, o tráfico de drogas e outras formas de crime organizado aumentam a violência e a insegurança da população”.

Alcançando um cenário maior, ultrapassando nossas fronteiras, e com uma visão mais global da situação do ser humano, o documento alia a crítica às suas preocupações e se permite sugerir atitudes que mudem para melhor o quadro atual, o qual sabemos ser altamente inquietante.

Sobre isso diz a carta-aberta: "É preciso que se coloque o ser humano e a sua dignidade acima do lucro, do capital. É preciso que, a partir da força da fraternidade e da solidariedade, que exige a acolhida do outro, mesmo quando diferente, criemos uma civilização marcada pelo amor, pelo serviço a favor da vida, da justiça e da paz".

Vejam bem, “colocar o ser humano e a sua dignidade acima do lucro, do capital” é justamente o que não têm feito os dirigentes, não apenas deste país chamado Brasil. Todos os programas “de ajuda” que são impostos de fora para dentro, aos países em desenvolvimento, especialmente àqueles que atravessam crises internas, submetem seus povos a verdadeiro massacre de exigências.

Parece que para se consertar a economia há sempre que se aumentar a miséria, o desemprego, a fome, isto é, salve-se o país, ainda que para uns poucos. Os muitos, bom, estes são um “acidente de percurso”.

Alguns irão me chamar de idealista. Não me importo em sê-lo, o que não admito é aplaudir essa visão desumana que têm certos governos para os quais o mais importante é pagar os elevadíssimos juros das dívidas externa e interna, na verdade impagáveis, ou socorrer o capital sempre que este se ponha em risco, ainda que por incompetência, má gestão, ou mesmo desonestidade de uns poucos.

Os seres humanos que eles protegem são os que estão a sua volta, seja no ambiente familiar, seja no grupo político, seja no conjunto de interesses comerciais, etc. Para os demais basta uma palavra de atenção nas proximidades de novas eleições. Governar para o povo, na visão deles, não passa de uma retórica ilusória ou uma utopia. Como povo somos úteis só para votar e assim ajudarmos a manter o jogo democrático.

“É preciso que, a partir da força da fraternidade e da solidariedade, que exige a acolhida do outro, mesmo quando diferente, criemos uma civilização marcada pelo amor, pelo serviço a favor da vida, da justiça e da paz". Neste trecho vê-se o repúdio ao preconceito, seja de raça, de credo, etc. Hoje assistimos a humanidade ser empurrada justamente no sentido contrário ao dessa sugestão.

Em cima de um fato que não foi totalmente explicitado, do qual nada se soube sobre outros eventuais envolvimentos para além de uns poucos terroristas, nossa civilização, em pleno século XXI, está a ser marcada pelo ódio, pelas guerras, por desejos ardentes de vingança, portanto um serviço, mas a favor da morte.

A justiça está a ser feita e incentivada pelas próprias mãos e a paz está aprisionada em um sonho de passado recente, censurada, acoimada, amordaçada por pessoas que nem sequer têm legitimidade absoluta para decidir sobre o destino de seus povos, quanto mais o da humanidade. A mediocridade, quando se alça ao poder, usa a força das armas, da truculência, da intimidação, porque a dos argumentos a desmascararia.

À exceção dos agnósticos, que só admitem os conhecimentos adquiridos pela razão e evitam qualquer conclusão não demonstrada, conforme o naturalista inglês, Thomas Henry Huxley (1825-1895), dizemo-nos todos crentes e seguimos os ensinamentos da religião que professamos.

Entretanto, mesmo em nome de algum deus, não hesitamos em cometer atrocidades tamanhas. Cito aqui Wiliam Shakespere: "Mas o homem, investido de breve e vã autoridade, sem saber sequer do que tem por certo, sua vítrea essência, faz, ante os céus, esgares tão incríveis que arranca lágrimas aos anjos."

Não obstante a realidade nacional e/ou internacional que aí estão contrariarem tudo pelo que sonhamos, pelo que até lutamos, jamais deveremos esmorecer e baixar nossos anseios de um país e um mundo melhor, mais justo, mais humano e fraterno.

Aproveito para lembrar que em outubro próximo teremos importantes eleições, inclusive para Presidente da República. O voto é a nossa única arma, nossa única defesa contra tudo de que discordamos. Portanto devemos usá-lo com muito critério, deixando de lado radicalismos, interesses subalternos, sopesando muito bem os prós e os contra as idéias e programas dos vários partidos que lançaram candidatos.

Votemos conscientemente, procurando sempre acertar no que seja melhor para o nosso país. Depois é só torcer para que o nosso escolhido, seja ele quem for, não desmereça da confiança que nele depositamos. É verdade que mais do que isso não podemos fazer. Mas, o que podemos, que façamos, pelo menos, conscientes de que ajudaremos a eleger alguém que entendemos possa mudar, para melhor, a realidade que aí está.

Encerro dizendo que pouco importam as vozes da intolerância, devemos sempre tentar falar mais alto, bradar nossa indignação, registrar nossas denúncias, como é feito na carta-aberta da Comissão Pastoral do Trabalhador, com o apoio de D. Eusébio Oscar Scheid, arcebispo do Rio de Janeiro. Amém.


(18 de maio/2002)
CooJornal no 259


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm