Oh meu Brasil brasileiro, do mulato inzoneiro, de Ari Barroso, como tu
pudeste, como tu conseguiste? Eu realmente não entendo. É mesmo
incrível, meu Brasil, como viveste tantas aquarelas, crescendo, te
expandindo, sendo feliz e chorando, cantando e dançando, e chegando
até aqui. É inacreditável.
Oh meu Brasil, como tu conseguiste sobreviver por quase 500 anos… sem
a CPMF? É fantástico, meu Brasil! O Cabral, ao pisar em nossa terra,
então batizada como ilha de Vera Cruz, maravilhou-se com tudo que viu,
mas não percebeu a presença, certamente já latente, em outra dimensão,
da idéia da CPMF. Ela esperava que alguém a materializasse, mas já
devia estar por aí.
Nem Caminha, em verdade, deu-se conta, pois faltou-lhe sensibilidade
(ou seria sensitividade?) já que na carta ao Rei de Portugal não fez
qualquer referência à presença dela. Com o decorrer do tempo levaram
tanto de nossas riquezas, mas a idéia dela, esta ficou cá. Ninguém a
notou, ou se notou, não a quis levar. Devem ter percebido do que ela
seria capaz, pois.
Dizem as más línguas, que a família real portuguesa ao cá chegar,
fugindo da fúria do baixinho Bonaparte, que queria a Europa toda só
para ele (isto me lembra alguém, atualmente!), quase voltou a nado
para Portugal quando um pajé, em transe, teria anunciado a visão da
idéia da CPMF. Nem imaginaram que a poderiam ter utilizado, já que ela
nasceu para ser subserviente ao poder. Talvez eles se contentassem com
os impostos, que já à época, impunham aos seus súditos.
Mas, o tempo passou rápido, transformações ocorreram e nossa história
foi sendo escrita à margem da… CPMF. Lá, bem mais à frente, D. Pedro
deu o grito da independência. Ninguém previa o FMI, nem a classe de
políticos que adviria em gerações futuras, e sequer houve algum
sensitivo para pedir a D. Pedro, que, ao desembainhar a espada,
cortasse pela raiz o raio da idéia latente da…CPMF.
E o país foi seguindo sua trajetória. A certa altura, premida pelas
pressões que não lhe deixavam outra opção, a princesa Isabel assinou a
Lei Áurea, ou seja, aboliu a escravatura no Brasil. Os preconceitos
continuaram a existir porque estes, infelizmente, são inerentes à
natureza de certo tipo de gente. Mal sabia a princesa que um dia, nós,
como negros, brancos, mulatos etc, seríamos novamente escravos, de
qualquer maneira e de várias formas, das classes dominantes, dos
governos da república que adviria, e… da CPMF.
É, meu Brasil brasileiro, teu mulato inzoneiro até perdeu o rumo e sua
dolente manha. Vivemos décadas de uma república de altos e baixos. Não
me refiro à estatura de nossos governantes, mas aos climas políticos
instalados. Atravessamos duas guerras mundiais, apertamos o cinto,
tivemos necessidades e, bem, nisso aí a tal de CPMF não teve qualquer
culpa. Continuava no etéreo espaço, em algum berço esplêndido,
aguardando que alguém a materializasse.
Saltemos no tempo para encurtar esta história. Um dia, o bravo
mineiro, Juscelino, decidiu cumprir uma profecia e meteu mãos à obra.
Quero dizer, o bravo mineiro meteu a mão nos cofres do INSS (a tal de
Previdência) e construiu mesmo a nova capital, Brasília. Ele também
não tivera ao seu lado nenhum sensitivo com poderes para descobrir a
idéia latente da dita CPMF. Mas, nem precisou instituí-la para
conseguir fundos e concretizar aquela gigantesca obra.
Daí para a frente, entretanto, foi um tal de meterem a mão nos cofres
da Previdência que acabaram fazendo história também um bando de
respeitáveis lalaus (nenhuma alusão ao juiz que da Previdência não
levou nada. Será?!), no transcurso das últimas décadas,
principalmente. Não construíram cidade alguma, mas abriram muitas
contas por aí afora. É o que dizem as más línguas.
Juscelino passou a faixa para o homem da vassoura, o Jânio Quadros e
este, apesar de ter obtido a votação mais expressiva de todos os
tempos, de um candidato a presidente, passou tão rápido pelo cargo que
nem em alguns de seus momentos, digamos, de “viagens astrais”, chegou
a perceber a presença etérea da… CPMF. Acabou por renunciar,
inesperadamente. Seguiu-se um período de certa inquietação que acabou
finalmente por levar à posse o vice de Jânio, João Goulart.
Era uma brusca mudança de rumo da direita para a esquerda, bem
canhota. Jango, ainda que a oferecessem, jamais adotaria a CPMF,
porque esta, todos sabemos, é contra o povo, em cujos bolsos, ou
contas, o governo atual vem sempre buscar receita a mais. Jango quis
foi pôr o povo no poder. Doce ilusão. Embora esteja na Constituição:
“O poder emana do povo e em nome dele deve ser exercido.” Bem, há
muito mais coisas na carta magna, além de tantos remendos e emendas,
que estão lá apenas para constar.
Por exemplo, os juros de 12 a.a. Alguém respeita? Ora, se nem o
próprio governo o faz. Não discuto os méritos ou deméritos daquela
determinação, mas ela está lá, percebem? Ninguém a retirou. Assim como
ela diz também que “todos são iguais perante a lei”… Alguém ainda
acredita?! Jango julgou que poderia levar o povo ao poder e acabou por
passar, como já se esperava, por um processo de defenestração, e todos
pagamos por isso.
Mergulhamos num longo período lúgubre, sinistro, que até me faz mal
ficar a lembrar. Permitam-me saltá-lo, já que nem foi preciso
descobrirem a CPMF para nos torturarem. Usaram outras formas até bem
mais cruéis. Foram mais de 20 anos até o mundo mudar, quer dizer, a
política externa americana, e daí iniciar-se o processo de “abertura”.
Bem que a idéia da CPMF poderia ter permanecido no exílio voluntário e
não ter retornado a estas plagas.
Aconteceu a morte de Tancredo, às vésperas de sua posse. Assumiu Zé
Sarney, no tempo em que ele ainda morava em S. Luiz do Maranhão,
porque anos depois ele passou a ter “residência fixa” em Macapá,
Amapá, por onde veio a se eleger senador. Isto anda me cheirando ao
“samba do crioulo doido”, do Sérgio Porto!!
Sem perceber a presença etérea da CPMF, Sarney apelou para a mudança
de nossa moeda. Deu-nos um cruzado, de direita, e não satisfeito,
deu-nos outro depois: o cruzado novo, que nem chegou à puberdade. De
rasteira em rasteira, brincou de hiperinflação, ameaçou dar calote na
dívida externa, prorrogou o próprio mandato, (isto também me lembra
algo e alguém!!) e os fartos fios de seu bigode continuavam pretos. Os
nossos cabelos, porém, embranqueceram.
Depois disso tudo surgiu um furacão carioca, mas que soprou lá do
nordeste. Anunciava-se como “o caçador de marajás”. Muita gente
acreditou e pulou dentro da canoa furada. Ele ainda inventou a
“Margaret Thatcher” brasileira. Meteu a mão na poupança de todo mundo
(quer dizer, de todo mundo que não foi prevenido antes, como nós, por
exemplo…), e saiu qual impávido colosso, impune, depois daquele gesto
e nosso dinheirinho ninguém defendeu.
Ah se Collor tivesse desconfiado da existência etérea da idéia da
CPMF! O estrago teria sido ainda maior. Nem o PC, seu anjo-da-guarda
das comissões extra campo, com todas as suas fórmulas “mágicas”,
descobriu a fórmula da CPMF. Mesmo assim a ganância foi tal que acabou
arrebentando a boca do balão, deles, lógico. E tudo devidamente em
família, claro. O homem do “não me deixem só” acabou sozinho, porém
muito bem acompanhado, e excelentemente domiciliado.
Àquela altura Minas assumiu o poder e não fez feio. Também não nos
castigou mais, porque o topete impedia a visão de uma possível
presença da etérea idéia da CPMF. O pão de queijo saiu com o prestígio
bem alto e ainda preparou a cama para seu sucessor: D. Fernando II (o
primeiro fora Collor, pois), depois também chamado, por seu tutor, de
“O Ingrato”. Quando ainda sopravam os ventos frescos da primeira
alvorada da era FHC, um jovem deputado teve uma brilhante idéia:
instituir um imposto único que substituiria todos os existentes.
Mal sabia ele que estava colocando o gancho para nele se pendurar,
definitivamente, a CPMF em materialização. Imposto único no Brasil?
Acabar com outros impostos, no Brasil? Vá ser ingênuo assim em Santa
Maracutaia do eterno Suborno! O correto e íntegro, então ministro da
Saúde, Dr. Adib Jatene, no processo de evolução daquela idéia, não
mais latente, e sim cada vez mais quente, imbuiu-se do sadio espírito
de aliviar o sofrimento do povo brasileiro que vivia (e ainda vive)
grande parte do seu tempo nas imensas filas do INSS.
Um dia acordou feliz, eufórico, crente que honradez, dignidade,
seriedade, profissionalismo, etc convenceriam nossas autoridades a
encampar a idéia do imposto que, se não curaria todas as chagas da
saúde pública brasileira, com certeza aliviaria em muito a dívida que
nossos governos têm nessa área para com o sofrido povo brasileiro. Sua
pregação acendeu as labaredas das mentes diabólicas daqueles que
realmente decidem.
Devem ter esfregado as mãos, cochichado entre eles (um velho hábito
dessa gente quando está “armando” alguma) e concordaram com o ilustre
médico, mas assinaram seus sorrisos com aquela falsidade intelectual
que nem jurando pela mãe dá para acreditar. Na surdina tramaram a
materialização da CPMF, mas para objetivos bem diferentes dos
propostos pelo então ministro. Juntaram a tropa de choque e… pimba,
fato consumado.
Logo que ela se materializou, passaram a alimentá-la com 0,0020 de
nossas suadas reservas salariais que adormecem no Banco, onde
imaginamos haja mais segurança. Ledo engano. Dançamos outra vez. Com o
passar do tempo, mesmo sem a CPMF apresentar sintomas de uma eventual
anemia, decidiram injetar-lhe uma dosagem bem maior de “vitaminas”.
Passaram a usar então 0,0038. Quase o dobro da dosagem inicial.
Afinal eles podem tudo, nós, povo, apenas nos podemos. É verdade. De
“p” em “p” ainda travestiram o “P” de provisório em “P” de permanente.
Vejam bem, é um “p” que “p” nenhum pode botar defeito! Perceberam a
sutileza? Claro, eles mandam a gente obedece. E haja obediência, pois
até os que se dizem oposição, que tentaram esquartejar a maldita CPMF
ainda em embrião, agora beijam-lhe a mão e dizem que não podem também
viver sem ela!!!
A bandida mostra sua face de libertina, devassa, lasciva mas só dá
prazeres à corte. Ao povo, brioche. E vamos lambendo os beiços e
torcendo, mas para que algum dia não tenham a idéia de criar algo tipo
CPAQR, ou, “Comissão Permanente sobre o Ar Que Respiramos”. Vade
retro.
(25 de maio/2002)
CooJornal no 260
Francisco
Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm