25/05/2002
Número - 260

 

 

          

Francisco Simões

 

BRASIL: DE CABRAL À CPMF

Oh meu Brasil brasileiro, do mulato inzoneiro, de Ari Barroso, como tu pudeste, como tu conseguiste? Eu realmente não entendo. É mesmo incrível, meu Brasil, como viveste tantas aquarelas, crescendo, te expandindo, sendo feliz e chorando, cantando e dançando, e chegando até aqui. É inacreditável.

Oh meu Brasil, como tu conseguiste sobreviver por quase 500 anos… sem a CPMF? É fantástico, meu Brasil! O Cabral, ao pisar em nossa terra, então batizada como ilha de Vera Cruz, maravilhou-se com tudo que viu, mas não percebeu a presença, certamente já latente, em outra dimensão, da idéia da CPMF. Ela esperava que alguém a materializasse, mas já devia estar por aí.

Nem Caminha, em verdade, deu-se conta, pois faltou-lhe sensibilidade (ou seria sensitividade?) já que na carta ao Rei de Portugal não fez qualquer referência à presença dela. Com o decorrer do tempo levaram tanto de nossas riquezas, mas a idéia dela, esta ficou cá. Ninguém a notou, ou se notou, não a quis levar. Devem ter percebido do que ela seria capaz, pois.

Dizem as más línguas, que a família real portuguesa ao cá chegar, fugindo da fúria do baixinho Bonaparte, que queria a Europa toda só para ele (isto me lembra alguém, atualmente!), quase voltou a nado para Portugal quando um pajé, em transe, teria anunciado a visão da idéia da CPMF. Nem imaginaram que a poderiam ter utilizado, já que ela nasceu para ser subserviente ao poder. Talvez eles se contentassem com os impostos, que já à época, impunham aos seus súditos.

Mas, o tempo passou rápido, transformações ocorreram e nossa história foi sendo escrita à margem da… CPMF. Lá, bem mais à frente, D. Pedro deu o grito da independência. Ninguém previa o FMI, nem a classe de políticos que adviria em gerações futuras, e sequer houve algum sensitivo para pedir a D. Pedro, que, ao desembainhar a espada, cortasse pela raiz o raio da idéia latente da…CPMF.

E o país foi seguindo sua trajetória. A certa altura, premida pelas pressões que não lhe deixavam outra opção, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, ou seja, aboliu a escravatura no Brasil. Os preconceitos continuaram a existir porque estes, infelizmente, são inerentes à natureza de certo tipo de gente. Mal sabia a princesa que um dia, nós, como negros, brancos, mulatos etc, seríamos novamente escravos, de qualquer maneira e de várias formas, das classes dominantes, dos governos da república que adviria, e… da CPMF.

É, meu Brasil brasileiro, teu mulato inzoneiro até perdeu o rumo e sua dolente manha. Vivemos décadas de uma república de altos e baixos. Não me refiro à estatura de nossos governantes, mas aos climas políticos instalados. Atravessamos duas guerras mundiais, apertamos o cinto, tivemos necessidades e, bem, nisso aí a tal de CPMF não teve qualquer culpa. Continuava no etéreo espaço, em algum berço esplêndido, aguardando que alguém a materializasse.

Saltemos no tempo para encurtar esta história. Um dia, o bravo mineiro, Juscelino, decidiu cumprir uma profecia e meteu mãos à obra. Quero dizer, o bravo mineiro meteu a mão nos cofres do INSS (a tal de Previdência) e construiu mesmo a nova capital, Brasília. Ele também não tivera ao seu lado nenhum sensitivo com poderes para descobrir a idéia latente da dita CPMF. Mas, nem precisou instituí-la para conseguir fundos e concretizar aquela gigantesca obra.

Daí para a frente, entretanto, foi um tal de meterem a mão nos cofres da Previdência que acabaram fazendo história também um bando de respeitáveis lalaus (nenhuma alusão ao juiz que da Previdência não levou nada. Será?!), no transcurso das últimas décadas, principalmente. Não construíram cidade alguma, mas abriram muitas contas por aí afora. É o que dizem as más línguas.

Juscelino passou a faixa para o homem da vassoura, o Jânio Quadros e este, apesar de ter obtido a votação mais expressiva de todos os tempos, de um candidato a presidente, passou tão rápido pelo cargo que nem em alguns de seus momentos, digamos, de “viagens astrais”, chegou a perceber a presença etérea da… CPMF. Acabou por renunciar, inesperadamente. Seguiu-se um período de certa inquietação que acabou finalmente por levar à posse o vice de Jânio, João Goulart.

Era uma brusca mudança de rumo da direita para a esquerda, bem canhota. Jango, ainda que a oferecessem, jamais adotaria a CPMF, porque esta, todos sabemos, é contra o povo, em cujos bolsos, ou contas, o governo atual vem sempre buscar receita a mais. Jango quis foi pôr o povo no poder. Doce ilusão. Embora esteja na Constituição: “O poder emana do povo e em nome dele deve ser exercido.” Bem, há muito mais coisas na carta magna, além de tantos remendos e emendas, que estão lá apenas para constar.

Por exemplo, os juros de 12 a.a. Alguém respeita? Ora, se nem o próprio governo o faz. Não discuto os méritos ou deméritos daquela determinação, mas ela está lá, percebem? Ninguém a retirou. Assim como ela diz também que “todos são iguais perante a lei”… Alguém ainda acredita?! Jango julgou que poderia levar o povo ao poder e acabou por passar, como já se esperava, por um processo de defenestração, e todos pagamos por isso.

Mergulhamos num longo período lúgubre, sinistro, que até me faz mal ficar a lembrar. Permitam-me saltá-lo, já que nem foi preciso descobrirem a CPMF para nos torturarem. Usaram outras formas até bem mais cruéis. Foram mais de 20 anos até o mundo mudar, quer dizer, a política externa americana, e daí iniciar-se o processo de “abertura”. Bem que a idéia da CPMF poderia ter permanecido no exílio voluntário e não ter retornado a estas plagas.

Aconteceu a morte de Tancredo, às vésperas de sua posse. Assumiu Zé Sarney, no tempo em que ele ainda morava em S. Luiz do Maranhão, porque anos depois ele passou a ter “residência fixa” em Macapá, Amapá, por onde veio a se eleger senador. Isto anda me cheirando ao “samba do crioulo doido”, do Sérgio Porto!!

Sem perceber a presença etérea da CPMF, Sarney apelou para a mudança de nossa moeda. Deu-nos um cruzado, de direita, e não satisfeito, deu-nos outro depois: o cruzado novo, que nem chegou à puberdade. De rasteira em rasteira, brincou de hiperinflação, ameaçou dar calote na dívida externa, prorrogou o próprio mandato, (isto também me lembra algo e alguém!!) e os fartos fios de seu bigode continuavam pretos. Os nossos cabelos, porém, embranqueceram.

Depois disso tudo surgiu um furacão carioca, mas que soprou lá do nordeste. Anunciava-se como “o caçador de marajás”. Muita gente acreditou e pulou dentro da canoa furada. Ele ainda inventou a “Margaret Thatcher” brasileira. Meteu a mão na poupança de todo mundo (quer dizer, de todo mundo que não foi prevenido antes, como nós, por exemplo…), e saiu qual impávido colosso, impune, depois daquele gesto e nosso dinheirinho ninguém defendeu.

Ah se Collor tivesse desconfiado da existência etérea da idéia da CPMF! O estrago teria sido ainda maior. Nem o PC, seu anjo-da-guarda das comissões extra campo, com todas as suas fórmulas “mágicas”, descobriu a fórmula da CPMF. Mesmo assim a ganância foi tal que acabou arrebentando a boca do balão, deles, lógico. E tudo devidamente em família, claro. O homem do “não me deixem só” acabou sozinho, porém muito bem acompanhado, e excelentemente domiciliado.

Àquela altura Minas assumiu o poder e não fez feio. Também não nos castigou mais, porque o topete impedia a visão de uma possível presença da etérea idéia da CPMF. O pão de queijo saiu com o prestígio bem alto e ainda preparou a cama para seu sucessor: D. Fernando II (o primeiro fora Collor, pois), depois também chamado, por seu tutor, de “O Ingrato”. Quando ainda sopravam os ventos frescos da primeira alvorada da era FHC, um jovem deputado teve uma brilhante idéia: instituir um imposto único que substituiria todos os existentes.

Mal sabia ele que estava colocando o gancho para nele se pendurar, definitivamente, a CPMF em materialização. Imposto único no Brasil? Acabar com outros impostos, no Brasil? Vá ser ingênuo assim em Santa Maracutaia do eterno Suborno! O correto e íntegro, então ministro da Saúde, Dr. Adib Jatene, no processo de evolução daquela idéia, não mais latente, e sim cada vez mais quente, imbuiu-se do sadio espírito de aliviar o sofrimento do povo brasileiro que vivia (e ainda vive) grande parte do seu tempo nas imensas filas do INSS.

Um dia acordou feliz, eufórico, crente que honradez, dignidade, seriedade, profissionalismo, etc convenceriam nossas autoridades a encampar a idéia do imposto que, se não curaria todas as chagas da saúde pública brasileira, com certeza aliviaria em muito a dívida que nossos governos têm nessa área para com o sofrido povo brasileiro. Sua pregação acendeu as labaredas das mentes diabólicas daqueles que realmente decidem.

Devem ter esfregado as mãos, cochichado entre eles (um velho hábito dessa gente quando está “armando” alguma) e concordaram com o ilustre médico, mas assinaram seus sorrisos com aquela falsidade intelectual que nem jurando pela mãe dá para acreditar. Na surdina tramaram a materialização da CPMF, mas para objetivos bem diferentes dos propostos pelo então ministro. Juntaram a tropa de choque e… pimba, fato consumado.

Logo que ela se materializou, passaram a alimentá-la com 0,0020 de nossas suadas reservas salariais que adormecem no Banco, onde imaginamos haja mais segurança. Ledo engano. Dançamos outra vez. Com o passar do tempo, mesmo sem a CPMF apresentar sintomas de uma eventual anemia, decidiram injetar-lhe uma dosagem bem maior de “vitaminas”. Passaram a usar então 0,0038. Quase o dobro da dosagem inicial.

Afinal eles podem tudo, nós, povo, apenas nos podemos. É verdade. De “p” em “p” ainda travestiram o “P” de provisório em “P” de permanente. Vejam bem, é um “p” que “p” nenhum pode botar defeito! Perceberam a sutileza? Claro, eles mandam a gente obedece. E haja obediência, pois até os que se dizem oposição, que tentaram esquartejar a maldita CPMF ainda em embrião, agora beijam-lhe a mão e dizem que não podem também viver sem ela!!!

A bandida mostra sua face de libertina, devassa, lasciva mas só dá prazeres à corte. Ao povo, brioche. E vamos lambendo os beiços e torcendo, mas para que algum dia não tenham a idéia de criar algo tipo CPAQR, ou, “Comissão Permanente sobre o Ar Que Respiramos”. Vade retro.


(25 de maio/2002)
CooJornal no 260


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm