01/06/2002
Número - 261

 

          

Francisco Simões

 

DA CRÍTICA À CENSURA

Todos que estão acostumados a me ler sabem o quanto estimulo que comentem meus trabalhos, até porque, como digo num convite que distribuo a muita gente, “quem escreve não é dono da verdade”.

Esta mensagem tem recebido boa repercussão, a julgar pelos leitores amigos e amigos leitores que gastam parte de seu precioso tempo para comentar este ou aquele trabalho que lêem neste e/ou outros sites de literatura. De uma maneira geral, quem escreve gosta desta interação com o leitor.

Da minha parte nunca deixei ninguém, que a mim se dirige, sem uma resposta. Tanto faz que o comentário seja favorável ou discordante das idéias por mim expostas. Julgo que todos que escrevem deveriam agir assim, todavia, umas poucas tentativas que fiz de interagir com alguns colunistas da grande mídia, nem sempre receberam retorno.

A crítica é importante, e em certos casos, fundamental. Já tive oportunidade de concordar com quem discordava de mim, numa crítica literária bem feita, bem construída, alicerçada numa argumentação inteligente, não hostil, e reformular meu pensamento sobre determinado assunto.

Por outro lado, quem se põe na posição de crítico terá sempre que trazer em mente que, para ter suas palavras consideradas, jamais deverá usá-las como arma, e sim como fundamento. A crítica que chega ao escritor, “armada”, invariavelmente será desconsiderada porque visa mais a denegrir, já que carrega um agravo, uma afronta, e a ofensa não constrói, não corrige, só agride.

Como disse, certa vez, o bom D. Helder Câmara: “Se você discorda de mim, você não é meu inimigo, você me completa.” Claro que nem todos entendem isso, ainda mais num mundo onde atualmente anda prevalecendo a tese de que “ou você está comigo, ou você está contra mim.” Os que incentivam este lema, no fundo, visam a atropelar a liberdade de pensamento e de expressão, sem tirar a máscara de democratas.

Há pessoas, no entanto, que confundem criticar com censurar, ou se não confundem, é porque o anseio da censura é tão forte que já o fazem sem perceber, visto não saberem conviver com pensamentos diferentes do seu. Estes geralmente usam a linguagem da intimidação, apelam para questionamentos descabidos, numa estreita visão radical, às vezes, passional.

Nestes casos, que felizmente são muito raros, quem se traveste de crítico, procura incluir insinuações depreciativas que objetivam diminuir o valor do autor com a natural intenção de menosprezá-lo, de menoscabá-lo. Alguns amigos e amigas que escrevem em sites de literatura, como eu, já passaram por esta experiência.

Mergulhado emocionalmente no passional desejo de uma crítica, que beira mesmo à censura, a pessoa talvez nem perceba que está tentando cercear a liberdade de expressão do autor ou autora a quem se dirige.

Isto é condenável, claro. A razão jamais poderá se estribar numa defesa autocrática que recusa o diálogo, princípio fundamental num debate democrático. A razão se perde em si mesma quando envereda pelo caminho da impolidez, da falta de urbanidade, de civilidade.

Por exemplo: se alguém escreve dizendo que os textos de um autor são meros “garranchos” por mais que o escritor/escritora queira respeitar o direito à crítica não pode ignorar o tom desrespeitoso de uma linguagem que busca o insulto mais do que uma fidelidade de conceito do crítico sobre seu trabalho.

Quem quer ter a sua crítica respeitada, levada a sério, por quem é criticado, e torná-la digna da atenção deste, deve não se esquecer de pelo menos tratar o autor com o respeito que ele merece. Misturar emoções não só leva alguém a cometer injustiças, como também a se expor de forma nada cortes ou educada, muito pelo contrário.

Quem não conseguir perceber isto, quem não tiver a sutileza necessária para alcançar a importância de sua atitude ao endereçar crítica a quem quer que seja, melhor faria revendo sua própria formação, para não correr o risco de passar uma impressão de acentuado grau de radicalismo em seu critério de julgamento, pelo qual, distorcer a verdade possa ter se tornado um hábito.

Da crítica à censura, a pessoa se divorcia do bom senso se, levianamente, por discordar do que o autor comenta, digamos, por exemplo, sobre a política externa americana, assunto que muitos escritores em vários sites, além de mim, têm abordado, logo o acusa de ser “antiamericano”. Ora, apenas os pontos-de-vista sobre a matéria podem ser divergentes, e isto é normal. A verdade não pertence a ninguém. O agravo é improcedente.

Da crítica à censura, a pessoa parece romper a barreira do seu equilíbrio emocional se, por motivo análogo, chega às raias, por exemplo, de acusar o autor, ou autora, de nutrir algum tipo de ódio a qualquer autoridade, de qualquer país. Um disparate, um despropósito. As diferenças de conceitos devem ser respeitadas.

Fere igualmente as regras da lógica ou as leis da razão, alguém, descontente com a análise de algum escritor, acusá-lo de ser simpático a algum grupo extremista simplesmente porque quem escreve condena veementemente a forma de se lidar com os problemas que afligem o nosso mundo atualmente. Ninguém pode negar que a insanidade anda ameaçando seriamente nossas esperanças de paz.

Mas, da crítica à censura, o tipo de crítico a que me refiro acima talvez não perceba o absurdo de suas assertivas, porque, na verdade, o ódio pode já ter germinado em seu próprio coração e assim o leva a defender, com certo tom de fanatismo, suas idéias, seus ideais, sua opinião.

Da crítica à censura, jamais se justifica o desrespeito na linguagem, o feri-lo com depreciações não apropriadas e mal-educadas. O escritor ou escritora, por seu lado, deve também primar sempre pela sua forma de expressão, aliás uma obrigação, não um favor, em respeito àqueles que o lêem.

Os sites de literatura, por seu lado, creio que também devam ter essa preocupação, não como forma de fazer censura, mas de preservar, cada um, o seu padrão de qualidade literária. Os que eu conheço, e dos quais participo, observam regras próprias sem com isso enveredar pelo execrável cerceamento da temática abordada por cada autor. No meu modesto entender esta é a postura ideal.

Para encerrar, reafirmo que todo aquele que escreve deve estar sempre aberto à crítica, mas jamais aceitar a censura. A primeira é inteligente, sensata, honesta, democrática, mesmo que discordemos dela, e deve sempre respeitar quem é alvo da referida crítica, seja o autor escritor, poeta etc.

A censura, entretanto, carece daquelas qualidades. E, amigos, apesar de vivermos numa democracia, recentemente presenciamos algumas tentativas de cerceamento da liberdade de informação e de expressão. O que nos assusta foi que tiveram um êxito inicial na própria justiça. Sobre este assunto recomendo a leitura do artigo do jornalista Alberto Dines, no JB, edição de 25.05.2002. Tenho-o em meu arquivo.

Eu, que durante o regime militar, (já contei em “Prazer, sou a Censura”) fui vítima desse tipo de opressão, quando produzia filmes de curta-metragem que eram exibidos em Festivais e Mostras, em Universidades e Centros Profissionalizantes, só posso reprovar qualquer tentativa de um eventual ressurgir desse abominável monstro.

Amigo leitor e leitor amigo, interaja com o autor, faça seu comentário. Sua crítica, é muito importante, repito, para quem escreve. Mas, procure sempre fundamentar bem seus argumentos. Você é parte muito importante no trabalho de quem escreve, não só como leitor mas também seja como crítico, não tenha dúvida disso.



(01 de junho/2002)
CooJornal no 261


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm