01/06/2002
Número - 261

 

          

Francisco Simões

 

TANTOS MUROS

Em 1989 eu estava na Europa quando derrubaram o "Muro de Berlim". Dez anos depois, em 1999, eu escrevi a poesia "Tantos Muros". Ela termina assim: "E tantos comemoraram / A queda de um muro a mais / Mas tantos nem se lembraram / Que dividindo este mundo / Ainda há tantos muros iguais."

A festa, em 1989, apenas serviu para marcar o fim do regime comunista, embora ele ainda resista em alguns poucos rincões. Sobrou o capitalismo. Este ficou com o caminho todo livre, mas não soube perceber a importância de seu papel no cenário internacional como um todo, sem exclusões. Virou as costas a tantos muros mais.

O capitalismo jamais gostou também de se "olhar no espelho". Quem sabe talvez porque em alguns procedimentos, no passado, ele não se diferenciasse muito de seu tradicional antagonista, o comunismo.

Afinal o capitalismo patrocinou igualmente ditaduras, incentivou regimes totalitários de direita que promoveram atos cruéis de torturas, derrubaram governos democraticamente eleitos, mataram milhares de pessoas, descendo ao nível de realizarem atos de puro terrorismo por toda a América do Sul.

Tudo era justificado com o objetivo de evitar que o comunismo, entre os anos 60 e 70, fincassem seus pés, plantassem raízes pelo nosso continente. Contra a ditadura comunista o capitalismo, à época, exibiu sua face mais cruenta. Mostrou o quanto também sabia ser despótico, tirano, autoritário. Nisso os dois bem que se pareciam.

Mas, arrogante e presunçoso, o capitalismo, a partir da queda do comunismo em 1989, preferiu curtir o seu viver faustoso, próspero, feliz. Exibia orgulhoso os seus símbolos de grandeza. Não se importou mesmo com a responsabilidade que lhe caíra sobre os ombros.

Conhecendo os muitos muros ainda existentes que sacrificavam tantas vidas pelo mundo afora, julgou que minimizaria tanto sofrimento com algumas esmolas, de vez em quando. Tratou com menosprezo os muros culturais, os das etnias, além das abismais diferenças sociais, da miséria absoluta, da fome etc.

No fundo, no fundo, o capitalismo tinha um receio sim: o terrorismo. Na sua consciência, ele remoia lembranças de alianças passadas com facções diversas do mesmo terror. Quando seus interesses falaram mais alto, sem nenhum escrúpulo, ele lhes deu a mão, os abraçou, assinou acordos com eles, deu-lhes cama e mesa, providenciou armas e treinamento e assim manipulou o poder ali e acolá.

Teve pesadelos, mas jamais pensou que o terrorismo fosse se atrever, não só a voltar-se contra ele, como a desafiá-lo, chegando tão perto, a ponto de tocar em suas entranhas. Afinal imaginava que o seu imenso poderio militar desestimularia sempre qualquer tentativa mais ousada, por parte de velhos aliados. Ignorou que eles pudessem, um dia, revelar-se o pior dos inimigos. O "Rambo" era imbatível.

Infelizmente este dia chegou e de forma tão trágica e cruel. Milhares de vítimas inocentes, fato que comoveu o mundo inteiro. Nem neste momento de tanta dor o capitalismo parou para refletir: por quê nós? O desejo de vingança, compreensível, gritou mais forte e amordaçou o bom senso. Para isso saiu a fazer alianças com seus sócios mais próximos em poder e interesses.

A este pacto juntaram-se novos aliados nada confiáveis: a tal de "Aliança do Norte", do Afeganistão, a quem a imprensa internacional acusa de produzir e traficar droga em grande escala para o mundo; o governo do Paquistão, que não faz muito tempo, assumiu o poder através de um golpe de estado, derrubando o presidente anterior.

O grupo afegão da "Aliança do Norte" está recebendo apoio do capitalismo nessa sociedade para vencer o regime do talibã. Entretanto o presidente do Paquistão já manifesta preocupação caso aquele grupo tome o poder no Afeganistão. Palavras dele à CNN: "Com eles teremos mais anarquia, desordem, perseguições etc." A História se reprisa: o capitalismo repete os mesmos erros.

Para se vingar, o capitalismo não se importa se vai trocar o mal, por algo igual ou pior. O problema será dos que sobreviverem no Afeganistão, claro. Por outro lado, o povo paquistanês ameaça seu governo com uma guerra civil, já que desaprova o apoio dado por ele à invasão do país vizinho. As imagens o provam diariamente. O capitalismo levanta novos muros pelo mundo.

O povo muçulmano vai às ruas e protesta com veemência por todo lado. Analistas internacionais lembram que naquela região alguns países possuem bombas atômicas, incluindo o Paquistão. Ficamos com a sensação de estarmos sentados sobre um barril de pólvora e que já acenderam o pavio.

Uma nova e ridícula faceta do capitalismo: com uma das mãos lança bombas, com a outra, alimentos! Seria risível se não fosse tão trágica esta incoerência. E a ONU confessa a imensa dificuldade de conseguir pessoal para recolher os pacotes. Isto quando eles, os pacotes, não caem sobre minas terrestres.

Mas, digamos que peguem e/ou matem bin Ladden mais algumas dezenas ou centenas de terroristas? E daí? O terrorismo estará liquidado? O mundo terá paz duradoura? Eles sabem que não.

O covil terrorista se resume ao Afeganistão? Claro que não. Hoje em dia eles estão pelo mundo todo, sempre à espreita. Quanto mais tempo durar essa guerra mais atos terroristas ela ensejará, provavelmente. Todos estaremos ameaçados. Sobrevivendo, o mundo se deparará com novos muros mais.

É tarde para recuar, mas aonde nos levará o avanço das ações bélicas? Com os crescentes levantes, as insurreições das populações árabes, até quando seus governos sustentarão o apoio dado por ora, de uma forma ou de outra, ao capitalismo?

Ocorrendo ataques terroristas nos EEUU e/ou na Europa, conforme ameaças dos talibãs, até quando os governos europeus conseguirão manter também o seu apoio total? Ou julgam que aqueles povos não vão, com o tempo, se mobilizar, e provocar fortes manifestações contrárias à guerra? Quem viver verá.

A verdade é que no momento só estão lucrando os fabricantes de armas do próprio capitalismo. Estes têm traços parecidos com os terroristas, pois lucram com o emprego de seus artefatos, portanto com mortes, muitas mortes. Além de que as vendem sem olhar caras, pátrias, objetivos, regimes, nada, apenas por dinheiro. O terrorismo tem armas do capitalismo, a nossa violência caseira, no Brasil, também.

Recordando: consta que, durante a II Guerra Mundial, quando Picasso pintou o famoso quadro “Guernica”, foi instado pelo nazistas a responder a esta pergunta: “Foi o senhor quem fez isto?” E Picasso disse: “Não, foram os senhores.” Será que os atuais senhores da guerra, de ambos os lados, desejam tornar a justificar a sinistra, lúgubre, medonha inspiração que gerou aquela obra de arte?

Parece-me pouco apropriado chamar esse conflito de "liberdade duradoura". Caso esta guerra marche para um longo prazo evidentemente passará a todos nós uma sensação duradoura, sim, mas será mesmo de liberdade? Haverá vencedores ou somente derrotados?

Que Deus se apiade de nós ao ver as lágrimas no rosto de seus anjos.




(01 de junho/2002)
CooJornal no 261


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm