22/06/2002
Número - 264

 

 

          

Francisco Simões

 

ORA BOLAS

Pois é, estamos em tempo de Copa do Mundo de futebol e logo na abertura o Brasil, desculpem, digo, o Senegal nos deu a primeira grande alegria. Está certo, rimos, vibramos, cantamos, dançamos, mas foi com… o gol dos outros. E daí? Além do mais eles têm verde e amarelo na camisa também. Os franceses fizeram beicinho? Olha, pois que “se danem”… Ah, não resisto: bem feito.

O técnico francês dissera, na véspera daquele jogo, que a França não era apenas o Zidane. Palavras dele, traduzidas para o português: “A França é muito mais.” E não é que o tal “muito mais”, francês, perdeu para os de muito mais humildade do Senegal? Essa gente não aprende que o futebol nem sempre respeita a lógica? Os que fazem previsões, então, coitados.

O Pelé dera uma entrevista para a TVE, espanhola, onde colocou a França como favorita para campeã, e nem citou o Brasil entre os cinco primeiros. Ela foi ao ar na véspera da abertura da Copa. Eu assisti e não queria acreditar. Depois da derrocada dos franceses, na estréia, ele também disse que “agora o grupo da França não tem mais favorito”. Ora bolas, assim até eu faço “previsões”.

E os matemáticos de plantão? Estes adoram falar em percentuais de possibilidades. Pegaram retrospecto, misturaram com o fajuto “ranking” elaborado pela FIFA, temperaram com um pouco da sua preferência, e sem levar ao forno, do alto de sua cátedra, vaticinaram: “Nesse grupo a França tem uns 70% de possibilidades de se classificar em primeiro lugar.”

Ora, os outros 30% ficaram distribuídos entre Uruguai, Dinamarca e…. o Senegal, que, por ser “matematicamente” uma zebra, de saída recebeu bem menos de 5%. Conforme os resultados foram acontecendo, bom, aí eles foram refazendo os cálculos: despencou o percentual dos franceses e o Senegal passou a ser “matematicamente” uma possibilidade de classificação. E assim foram conduzindo seus cálculos de “previsibilidade”.

Esses percentuais acabam sendo mais manipulados do que os de certas pesquisas de opinião pública, a caminho de eleições. Quer dizer, vão dançando de acordo com a música, ou com os resultados. Engraçado que ao final os matemáticos nunca erram, já perceberam? Claro, vão seguindo o curso das águas e chegam onde têm mesmo que chegar: ao óbvio, muitas vezes, da falta de lógica, do próprio futebol.

Na sua coluna em “O Globo”, de 02.06.2002, Luis Fernando Veríssimo escreveu: “Os dias que precedem a Copa pertencem aos profetas do óbvio e aos analistas do que ainda não houve. São os que nos dizem o que esperar da competição, com lógica irrespondível.” A seguir afirmou: “Um resultado como Senegal 1 e França, incrivelmente, zero, acaba com esse domínio do óbvio, da análise inteligente do nada e da lógica logo no primeiro jogo.”

Aconteceu, no grupo do Senegal, claro, não mais da França, o que todos já sabem. A ex-favorita de tantos, inclusive cronistas e comentaristas da mídia brasileira, alguns como analistas do nada, segundo o Veríssimo, conseguiu ficar 3 jogos, 270 minutos, nesta Copa, sem marcar um só gol.

Os aficionados da bolsa de apostas de Londres, logo após a primeira rodada, fizeram o mesmo que fazem muitos políticos quando uma autoridade entra em desgraça: abandonaram os franceses ao desabrigo da primazia. Tiraram suas fichas da França, a empurraram para o ostracismo da preferência, e se bandearam para outras cores. Êta infidelidade!

E logo vimos outros favoritos naufragarem: Itália, Argentina e Portugal. E o “domínio do óbvio”, assim como a “análise inteligente do nada” foram falindo diante da “obviedade” do ilógico, do absurdo, que faz do futebol essa paixão de multidões. Mas, os insistentes prescientes, com a cara de pau habitual, “atualizavam” seus cálculos, sem perder a pose, claro. Até passaram a se lembrar da seleção brasileira!

Ser primeiro num grupo daqueles, realmente não foi grande vantagem, mas pelo menos respeitamos os adversários, jamais pusemos salto alto. O problema é que uma seleção que depende de Lúcio e Roque Jr., não tem uma defesa, tem é um “susto permanente”, ou um “perigo sempre iminente”, contra nós, claro. Como diz o nordestino: “arre égua…”

Ganhamos da Turquia? Ganhamos sim. Irrita-me profundamente ver boa parte de nossa mídia a falar e escrever bobagens. Quem os tem até dispensa a imprensa estrangeira, para depreciar nosso país e nosso futebol. A TV-Globo, os jornais “O Globo” e o “Extra”, também pertencente às organizações Globo, junto com mais uns poucos, não cansaram de repetir que “ganhamos com a ajuda do árbitro.”

Amigos, ele não “ajudou” em nada, as arbitragens é que são muito ruins, mesmo. Por que a TV-Globo não repetiu também o lance em que o árbitro anulou um gol legítimo, feito por Rivaldo, de cabeça, minutos antes do pênalti? Por quê? Ele estava na mesma linha do último jogador turco e assim sendo não estava impedido. A imagem foi bem clara na TV. Ah, esses “brasileiros” ativos do contra.

Durante o jogo ficou provado como, não só o árbitro, mas também os seus 2 auxiliares eram ruins demais. Erraram também contra os turcos, claro. E apitam numa Copa do Mundo!! O Paraguai vencia por 2x1 sobre a África do Sul e o árbitro também marcou um pênalti inexistente. Pronto, lá se foi para o espaço a vitória do Paraguai.

A Espanha vencia a Eslovênia por 2x1. Esta crescia e ameaçava empatar. O árbitro igualmente assinalou uma penalidade máxima, que não houve, a favor dos espanhóis. Tranqüilizou-se a Espanha: 3x1. Má fé? Não, é ruindade mesmo de arbitragens que deveriam apitar, mas bem longe de uma Copa do Mundo. Ou os amigos já esqueceram da presepada feita pelo árbitro brasileiro, que também está lá, no jogo Corinthians x Brasiliense, em S. Paulo, pela final da Copa do Brasil deste ano? Ele, antes, já se envolvera em outras trapalhadas parecidas. E está lá!

Mas os tais “prescientes” previam uma catástrofe diante da Bélgica. Vencemos, então alegaram que o grande teste seria contra a “poderosa” Inglaterra. Houve jornalista, do qual até gosto e com o qual às vezes mantenho contato, que, na TV, garantiu e apostou como o Brasil jamais passaria pelos ingleses. Nome dele? Juca Kfouri. O bom Juca, profissional da melhor qualidade, também se deixara contagiar pela “análise inteligente do nada”! Oh Juca... “que furi”, hein?!

E que dizer da arbitragem de Brasil x Inglaterra? Os súditos da Rainha fartaram-se de fazer faltas por trás, no tornozelo, sem bola, claro. Sua Senhoria parecia ter esquecido os cartões no vestiário. E o simpático galã, o tal de Beckham, ídolo da troupe feminina, atirou-se duas vezes na área brasileira, sem sequer ser tocado, tentando iludir o árbitro para ver se marcava um pênalti. A regra manda aplicar o cartão amarelo. Mas, qual nada, o árbitro fazia vista grossa, sempre.

Três impedimentos mal assinalados travaram boas jogadas do ataque brasileiro. Reclamar com quem? Mas, aos 11 minutos do segundo tempo o juiz provou que não esquecera os cartões: expulsou o Ronaldinho Gaúcho, de primeira. Numa bola dividida, diz o ex-craque Gerson, o “papagaio”, que não se pode entrar com pé de moça. O Ronaldinho entrou mais foi se defendendo do choque inevitável e quando muito merecia o cartão amarelo. Pois é.

Até que foi bom, afinal a “poderosíssima” esquadra britânica foi abatida, com todo o nosso mérito, tendo eles o handicap de um jogador a mais. Só que tinham talentos a menos, pois. Jogaram muito, porém nas manchetes dos jornais londrinos, na véspera. Eles diziam em letras garrafais que iriam “triturar o Brasil”...Oh!! Será que agora aprenderam que estão fadados a nunca vencer o Brasil em Copa do Mundo?! Único mérito da Inglaterra: eliminou a Argentina.

Mas, entre os “brasileiros” que vivem a inventar o tal de “risco Brasil”, até no futebol, está um amigo meu que me falou com ar de superioridade de quem tem a informação não acessível a pobres mortais, como eu: “As arbitragens vão favorecer o Brasil. Isto tem a a ver com Sr. Blatter e a eterna influência de Havelange, na Fifa.

Fitei-o sério e saquei contra ele: “Pois como me explicas termos ficado 24 anos, de 1970 a 1994, sem vencer uma só Copa do Mundo, estando na FIFA o próprio Havelange?” Dois pigarros e o silêncio foram a resposta. Ora bolas, não me torrem a paciência. Em certos momentos, durante esta Copa, tenho estado mais para o tal de “gato-mestre”, da TV-Globo, do que para Dalai Lama. Haja... e mais haja.

Não simpatizo com o Sr. Felipão, não aprecio seus métodos e/ou estratégias(?!), mas acredito que, por alguns jogadores que possuímos, e por não ver nenhum bicho-papão nesta Copa, poderemos sim chegar ao penta, desta vez. Atrevo-me a dizer isto, não por causa dele, mas ressalvando que será, “apesar dele”.

Agora faltam só 2 jogos. Continuemos a respeitar os adversários e poderemos surpreender. Agora, se o Pelé disser que sempre acreditou neste título, depois do que eu vi e ouvi ele dizer à TV da Espanha, nunca mais lerei nada ou ouvirei nada que vier dele. Por favor, Rei, não perca a sua majestade. Seja coerente, mesmo comemorando o título, se ele vier, claro.


(22 de junho/2002)
CooJornal no 264


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm