06/07/2002
Número - 266


 

          

Francisco Simões

 

UM ÍDOLO, AGORA DE BARRO

Talvez eu devesse ignorá-lo, talvez, mas este meu temperamento não me permite fazê-lo. Como ler e ouvir tanto despeito, tanta ofensa, tanta injúria, tanto ultraje e ficar calado? Não faz o meu feitio. Aí, pensei, refleti bem e decidi escrever isto. Não vou pisar nos seus ressentimentos, não, mas não vou deixar que seja dele a última palavra.

Claro que me refiro a Maradona. Um craque da bola, um gênio do futebol, um verdadeiro artista dos gramados que, nos estádios, pintou quadros maravilhosos com seu esplendoroso talento. Quem não o aplaudiu, mesmo torcendo contra a Argentina!! Negar-lhe essas qualidades e tantos feitos heróicos é nivelar-se às palavras dele, agora pronunciadas numa explosão de um despeitar nada digno de seu passado.

Li nos jornais, ouvi nas televisões, e, ao mesmo tempo que me enchia de indignação, de revolta, meus sentimentos cristãos também me impeliam a condoer-me, a apiedar-me, daquela figura grotesca, uma sombra mal desenhada de um ser humano que o mundo inteiro já reverenciou durante algum tempo.

Não se pode hoje nem considerá-lo um “ídolo de pés de barro”, não mesmo. Explico: o dicionário define esta expressão como sendo “Aquilo que, embora aparentemente forte e indestrutível, pode ser destruído ou derrotado com facilidade.” Ora, nem aparentemente ele é, hoje, forte e indestrutível.

Ele declarou que esta Copa foi horrorosa, o futebol exibido nela teria sido medíocre etc. Este foi o primeiro passo para minimizar, para subestimar, para macular mais um título inédito ganho por uma seleção brasileira. É verdade que algumas seleções estiveram bem abaixo do que delas se esperava, mas isso é normal. Surpresas acontecem sempre. É só consultar a história de todas as Copas.

Uma dessas seleções foi a própria Argentina. Brilhante durante a fase das eliminatórias, estando em primeiro lugar desde a rodada inicial, sofreu apenas uma derrota. E aí é que machuca também os brios do Maradona, se é que ele ainda os tem. Esta derrota foi para o Brasil, no Maracanã, por 3x1. Deve doer muito mesmo.

Ele se disse decepcionado com o futebol dos alemães, e também com o brasileiro. Não nos considerou merecedor de tantos méritos. Oh Maradona, por que não ficaste calado? Temos nós culpa se a seleção Argentina, cotada até para ser campeã mundial, errou o passo do tango logo na primeira fase? Foi mesmo frustrante, não?

Jogar só 3 partidas numa Copa em que, para se chegar à final, tem-se que realizar 7 jogos, é coisa para seleção de pequeno porte, o que a brava Argentina não é, claro. Mas infelizmente ela foi. Teve só uma vitória, sobre a Nigéria, 1x0, e fez somente 2 gols, mas também sofreu outros 2, o que lhe deixou um ridículo saldo de zero gols.

E não é que perdeu para a seleção da Inglaterra por 1x0? Ora, logo para os ingleses que os bravos rapazes brasileiros venceram nas quartas-de-final por 2x1, mesmo estando com apenas 10 jogadores desde os 10 minutos do segundo tempo? E nós é que somos medíocres? Oh Diego, desabafa, vai, desabafa, mas não sendo injusto conosco.

Aliás, por que você se deu ao trabalho de tomar um avião e encarar uma viagem tão longa e cansativa? Voar até o Japão, para assistir a uma final entre duas seleções... “medíocres”? Ah, sei, lá no fundo, bem no fundo, você devia nutrir uma esperança de ver a Alemanha campeã. Não é isso? Se assim tivesse sido, suas palavras à imprensa teriam um sentido e conotações bem diferentes. Agora eu entendo, Maradona.

Olhe, no solo japonês, que você fora proibido de pisar, pelas autoridades de lá, foi semeado um futebol que até fez bom papel nesta Copa. Sabe quem é o responsável por isso? Não, não é nenhum argentino, não, é um brasileiro com nome de ZICO. Você conhece o Zico, pois não? É, nós temos grandes craques com nomes pequenos e bem simples: Pelé, Zico, Vavá, Cafu, etc que muito nos orgulham. Já você tem letras demais no nome, porém compostura de menos. Que pena!

Imagino que você se esforçou muito para, de cara limpa (acredito que estava) lançar a pecha da mediocridade sobre uma seleção, a brasileira que, cumprindo as 7 partidas, venceu todas. É, todas, nem um empatezinho para lhe dar o gosto de dizer: “Mira, mira, una verguenza!” Brasileiros malvados, cruéis, e... competentes, não?

Ainda por cima os nossos “medíocres” jogadores marcaram 18 gols e tomaram apenas 4. Que exagero! E o Ronaldo, o carioca, fazer você presenciar, estando lá, ele ser o artilheiro desta Copa, com 8 gols. Que crueldade do nosso dentuço Ronaldo. Desculpe-o. Ele é humilde, não tem a banca, a arrogância, a petulância própria de pessoas pobres de espírito, mas ele é Penta Campeão Mundial.

Quantos gols você, Diego, fez, por Copas, das que participou? Vá lá, aceito que compute aquele gol onde a “mão de Deus”, segundo você, é que foi a autora, lembra? O árbitro daquele jogo, que, por sinal, decidiu o mundial, como era muito “religioso”, não anulou o gol e a Argentina sagrou-se campeã. Mas, com um gol de mão, Maradona? Um craque como você, de tantas jogadas eletrizantes, precisava apelar?

Ah, lembrei-me de outra coisa. Recorda-se do jogo Argentina x Peru, no mesmo mundial realizado na casa de vocês? Recorda-se do placar? Foi 7x0, para o seu time, lógico. Seria brilhante se os jogadores peruanos não tivessem aceito, digamos, “aconselhamentos” para facilitar aquela goleada e assim retirar o Brasil do caminho da Argentina. Não leve a mal, mas isso é ser pior do que “medíocre”, não é?

Seria também uma leviandade tal afirmação se os próprios jogadores do Peru, anos depois, não tivessem assumido publicamente o que fizeram, até em entrevistas à imprensa brasileira. Lembra disso? Talvez não, creio que sua memória já não é a mesma. Mas, tem muita gente por aqui que não esqueceu, não.

Não quero ficar espezinhando com a sua dor, com a sua decepção, frente ao fracasso da seleção Argentina, mas também você provocou demais. Custava ficar calado? Era só dizer: “Nada a declarar”. Com aquelas insinuações você, de certa forma, cuspiu na gloriosa e histórica conquista brasileira. Isso não se faz, Diego. Você ao menos podia ter feito como alguns políticos, ou seja, dizia depois que tinha sido mal interpretado.

Quero lembrá-lo de que o Brasil é o único país que participou de todas as Copas do Mundo, ademais conseguimos agora chegar a 3 finais consecutivas, vencendo duas. Fantástico, não? Você não acha? Ah, sei, dói saber que do seu lado só podem contar com 2 títulos mundiais e, mesmo assim, um em casa e com aqueles “acidentes de percurso” todos. É pouco demais para tanta empáfia, não?

Sabe que o Brasil era o único a ser campeão fora do seu continente? Era, mas agora é o único país do mundo a ser campeão 2 vezes fora de seu continente (1958 – Suécia e 2002 – Ásia). Mais, você sabe que o Ronaldo, o carioca, com os 8 gols desta Copa mais os 4 de 1998, alcançou o Pelé? E faltam só mais 2 gols para ele igualar o recorde do jogador alemão Gerd Müller, que fez 14 em duas Copas. Que inveja, não, Diego?

Até do nosso Pelé você já falou mal. Por quê faz isso? Olhe que o Pelé, falando, nem sempre é lá um primor, inclusive fazendo “previsões”, sei disso. Ele também não acreditava no Brasil, desta vez, mas isso não era nenhuma vantagem, com o retrospecto que tínhamos em amistosos, nas eliminatórias, e saindo da Copa América após uma vergonhosa derrota para Honduras, só uns poucos muito otimistas, exageradamente otimistas, acreditavam.

Mas o importante é que na hora da onça beber água... pimba, não teve para ninguém. Brasileiro é mesmo assim, está acostumado a viver fazendo “mágicas” para sobreviver a tantos desmandos políticos, a tanta injustiça social, com um salário que só dá para comprar a fome, porque comida é luxo para muita gente. Mas forças não nos faltaram na hora de torcer, e aos atletas, na hora de jogar.

Desculpe, discorri sobre fome, desmandos políticos, injustiça social etc, você sabe o que é isso? Ah, está começando a aprender agora? Olha, quanto a isso receba a minha solidariedade, do fundo do coração. Com essas coisas eu não brinco. Talvez, entretanto, você aprenda um pouco de humildade agora e perceba que estamos cada vez mais parecidos. Coisas da vida, Diego, coisas da vida. Você se considerava do primeiro mundo, hoje também está mais para ... “macaquito”, não acha?

Mas, para não se sentir tão solitário no seu despeitar, dê o braço ao Cruyff, o ex-craque holandês. Ele também andou destilando inveja por todos os poros, afinal a Holanda nem se classificou para disputar este Mundial! Só acho que ele não precisava, como você, enveredar pela descompostura. Vocês estiveram na contra-mão da imprensa do mundo inteiro. Você leu ? E então?

Olhe, vou encerrar com as manchetes de 2 jornais, justamente argentinos. O “Clarin” estampou: “Brasil, outra vez rey del fútbol.” E o “La Nacion”, que disse: “El quinto título del más grande – Brasil.” Sem mais comentários.


(06 de julho/2002)
CooJornal no 266


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm