20/07/2002
Número - 268


 

          

Francisco Simões

 

NESTA ELEIÇÃO TODOS OS GATOS SÃO PARDOS

Há alguns meses quando escrevi e divulguei a crônica “Apagão da Estrela Vermelha?” fiz críticas e cobrei coerência tanto do Sr. Lula, como do PT, por posições e discursos que vinham assumindo então. Eu o fiz não como um eleitor de oposição ao PT, ao contrário, até porque já declarei, sem medo de ser feliz, que votei em Lula tanto na eleição de Collor, quanto nas duas de FHC. Só não tenho “rabo preso” com ninguém, nem carteirinha de qualquer partido.

Depois outros fatos foram acontecendo, como a já efetivada aliança com o PL e a preocupação de Lula em, ao agradar a parte do eleitorado que sempre o repudiou, passar a fazer declarações, assumir posições, que têm gerado divergências bem sérias dentro do próprio partido dele. Certas coisas não se justificam usando a palavra “amadurecimento”, eu acredito mais em “acomodamento” às condições que poderão levá-lo ao poder. Isto, na minha visão, não é bom, mas respeito opiniões contrárias.

Mas, deixemos o Lula sossegado, por ora. Afinal quem seriam os demais candidatos de “oposição” ao atual governo, à atual política econômica? Aparentemente seriam o Ciro Gomes e o Garotinho. Seriam mesmo? Vejamos.

Ciro é candidato pelo PPS, em outros tempos, o “Partidão”, ou ex Partido Comunista Brasileiro. Mais oposição que isto é impossível, ou seria. Aí começaram as alianças. Com o PDT, de Leonel Brizola, tudo bem, há coerência, mas com o atual PTB, que já teve como presidente um banqueiro e ex ministro, a coisa já começa a debandar para semelhanças com as alianças do PT.

De repente Ciro arranca nas pesquisas de opinião pública, alcança o candidato Serra e, quando esta crônica for ao site, pode até já tê-lo ultrapassado. Aqueles que amam o poder a ponto de não se permitirem ficar longe dele sequer por algumas semanas, independente de quem seja o candidato com potencial para vencer, logo lhe batem às portas, logo o acariciam, logo lhe oferecem apoio “incondicional”.

Aí começo a ver nos jornais manchetes como esta: “Bornhausen assume o comando da marcha do PFL rumo a Ciro Gomes.” E, para acreditar mesmo, vejo na TV o líder do PFL fazendo tal anúncio. Este partido que chegou a ter candidata por um pequeno período, que se dividiu depois com parte dele namorando uma reaproximação com o PSDB, outra parte hesitante, e uns poucos até dizendo que no segundo turno poderiam apoiar a Lula, recolheram as armas e ficaram na espreita.

Agora, com o inegável crescimento de Ciro, que de esquerda só deve ter um braço e uma perna, aquele “comichão”, que, no sentido figurado, significa desejo ardente, deve estar ditando esta nova posição do PFL. “Ufa, que bom”, devem estar eles pensando, “quem sabe podemos voltar ao poder sem o constrangimento de ter que apoiar o Lula...” Faz sentido, considerando-se o histórico de seus políticos.

Peito erguido, sorriso largo, começaram as manifestações de apreço: "Vamos começar a agir", disse Bornhausen. "A base do PFL vai toda para Ciro Gomes", admitiu logo o Sr. Brant. "Quase a totalidade do partido em Goiás ficará com a gente", disse o Sr. Althoff.

Aí eu leio na Tribuna, no dia 11.07.2002: “O racha do PFL de Goiás e a decisão dos pefelistas de Minas Gerais de apoiar Ciro Gomes surpreenderam o comando da campanha de Serra e ocorreram dez dias depois de ele festejar o apoio de 14 dos 27 diretórios regionais do partido à candidatura, em reunião solene no comitê eleitoral.” Prestaram atenção? Dez dias após 14 diretórios regionais terem oferecido apoio a Serra! Êta fidelidade, êta coerência, êta ética. “Arre égua”, diz o nordestino.

E leio sobre o aparente desespero do candidato tucano: “José Serra está com dificuldades na terra da candidata a vice-presidente Rita Camata (PMDB-PSDB), e a tendência dos pefelistas é apoiar também Ciro Gomes, uma vez que o PSDB os deixou sem alternativa no Estado. Muitos políticos do PFL acham que foram desprestigiados e alijados pelos aliados de Serra", afirmou Fonseca. E vai seguindo a “procissão” nesta enxurrada de traições, aleivosias, perfídias, etc.

Mais um pouco de incoerência na mesma matéria acima referida: “O partido no Maranhão ainda está dividido, embora a ex-governadora Roseana Sarney (PFL) trabalhe para fechar o apoio a Ciro Gomes, principalmente agora que o PSDB lançou o candidato a governador Roberto Rocha (no Ceará) para disputar com o governador José Reinaldo Tavares (PFL), simpático a Serra.”

Brrrrrrrr... é mesmo uma pena que Sérgio Porto não esteja mais entre nós. Saudades muitas também do antigo programa radiofônico que só tratava de crítica política e que tinha uma audiência fantástica, o famoso “Hotel da Sucessão”. Hoje, a própria lei eleitoral botou uma mordaça na mídia daqui até as eleições. Êta democracia.

Sigo lendo o noticiário e descubro que o PPS, partido do candidato Ciro Gomes, mas também do honrado senador Roberto Freire, ex comunista, que no começo bradou forte contra a candidatura de Ciro por seu partido (lembram-se disso?), agora até encontra palavras para justificar o apoio, que acaba de ser fechado, do mesmo PPS, ao Sr. Fernando Collor, candidato ao governo de Alagoas.

Em “O Globo”, de 13.07.2002, o mesmo senador chegou a afirmar que: “Nessas eleições todos os partidos tiveram que aceitar “alianças esdrúxulas”. É verdade, sem dúvida alguma. Alianças mesmo excêntricas, extravagantes, no mínimo, esquisitas.

Não obstante os jornais dizerem que o PDT não gostou nada desse apoio a Collor, já que o PDT integra a aliança que sustenta a candidatura de Ciro, não custa lembrar que o Sr. Brizola, ao tempo de Collor na presidência, teve um bom período de lua-de-mel política com ele (lembram-se também?).

Digo isto apenas como um lembrete, sem qualquer sentido de crítica ao Sr. Leonel, pessoa que respeito e contra quem, a bem da verdade, jamais foi assacado qualquer tipo de denúncia de corrupção, ou qualquer outro, que maculasse sua honra e seu caráter. Pode-se discordar dele politicamente, mas passar imune àquele teste, na política brasileira, tem-se que reconhecer que é para poucos, poucos mesmo.

Outra surpresa grande tive ao ler, também em “O Globo”, de 12.07.2002, que o presidente da Câmara Federal, o Sr. Aécio Neves, teria comentado que admitiria subir no palanque de Ciro Gomes. Mas o candidato do PSDB, o José Serra, ainda nem cogitou de renunciar! Imagino que alguém passou esta informação sem a confirmar, não é possível, deve ser engano.

Enquanto isso, Garotinho critica Lula e consegue algum apoio no PL, que já apóia Lula, que gostaria que Garotinho renunciasse e o apoiasse... e isso vai caminhando, com todo o respeito ao poeta, para os versos de um conhecido poema do mestre Carlos Drummond de Andrade.

Um amigo, bem informado, disse-me que a candidatura de Serra tem data marcada para sair do cenário. Será? Bem, como a imprensa afirma já haver alguns tucanos voando baixo sobre os telhados de Ciro Gomes, de repente isto até se confirma. Mas ainda deve demorar.

E a imprensa insiste que Serra não gosta de Ciro, que aceita apoio do PSDB (se vier), que é governo, e que apóia Serra, que, por sua vez, critica política econômica do governo, que ele representa... olha o Drummond aí de novo, gente!

É, acho que escolhi bem o título desta crônica. O que vocês acham?




(20 de julho/2002)
CooJornal no 268


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm