03/08/2002
Número - 270

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Francisco Simões

 

ANDAR É VIVER

Sempre gostei de andar, andar muito. Por sorte minha esposa também. Estamos habituados a fazer longas caminhadas, de muitos quilômetros, e isto nos dá muito prazer. Dizem alguns que é o melhor dos exercícios, e eu acredito mesmo. Aqui no Rio temos o hábito de caminhar na calçada da Vieira Souto, em Cabo Frio, porém, o fazemos na areia da praia, tendo os pés beijados pelo mar constantemente.

No domingo em que o Brasil se sagrou pentacampeão mundial de futebol, fomos exercitar-nos novamente, à tardinha, perto da praia. Sabíamos que encontraríamos um ambiente festivo, o que era muito natural naquele dia. Caminhar aqui nos oferece prazeres, tais como desfrutar da linda paisagem da praia de Ipanema, distrair-nos com os inúmeros e lindos cães que acompanham seus donos, ver gente bonita, ou gente feia, que se igualam na felicidade daqueles momentos, etc.

Mas, naquele dia, o sol já se escondia por trás dos prédios exibindo aquele sorriso redondo e “penta-alaranjado”. Muitos caminhantes vestiam camisas da seleção brasileira. Os cachorrinhos desfilavam envaidecidos, uns com pequenos bonés verde e amarelo, outros quase inteiramente vestidos com uniforme da seleção canarinho, vendedores ambulantes procuravam exibir seus artigos, todos com motivos ligados ao grande feito de nossa seleção.

Havia no ar um “penta-oxigênio” a tornar todos mais orgulhosos de ser brasileiros. Até nós. Apenas o sinal de trânsito insistia em não ficar verde e amarelo, o vermelho interrompia a seqüência. Os relógios digitais, talvez por causa das comemorações que começaram ainda de manhã, se desentendiam: um marcava 25 graus, logo a seguir o outro acusava 23 graus, e um pouco mais adiante o terceiro insistia em que o certo era 22 graus. Tudo bem, tudo era festa.

Na esquina da Vieira Souto com a Joana Angélica, estava parado um animado bloco carnavalesco. A batucada e o rebolar de bonitas morenas e mulatas, mexia com o sangue da rapaziada. Muitos não se continham e arriscavam um saracoteado, um meneio, outros escreviam o samba com os pés, cada um cantava a letra a seu jeito e maneira, o tom era o do penta, o resto era o resto.

Paramos e ficamos assistindo àquele festival de alegria. Afinal nosso povo tem conseguido poucas oportunidades de comemorar alguma coisa, e mesmo assim, alguns “brasileiros”, ainda queriam negar a essa gente sofrida, massacrada, vilipendiada, aviltada por governos vários, durante tantos anos, o direito de estarem felizes. São os contra, como eu, porém radicais e extremados para o meu gosto. Deploro-os.

Mas, de repente me veio à mente o carnaval, sim, o carnaval deste ano. Lembrei-me do bloco “Simpatia é quase amor”. Recordei-me de estar ali, ali mesmo, em pleno carnaval, carregando uma dor e uma angústia imensas, tentando extrair um pouco de felicidade de um muito de tristeza que era só minha. Quem me lê sempre deve se lembrar a que me refiro. Naquele dia de carnaval, ao voltar à casa, escrevi em pouco tempo a crônica: “Simpatia é quase amor. E a dor? Que se cale.”

Ela ainda pode ser lida. Minhas emoções haviam entrado em conflito, lembram-se? Os foliões, indiferentes, desfilavam, embaçados, à minha frente. Mas, agora eu também podia sorrir. A dor ainda não sumiu de todo, porém há mais espaço para a alegria, e ninguém tinha o direito de nos dizer se devíamos ou não comemorar. Estávamos felizes, irmanamo-nos àquela gente e também cantamos um pouco.

Já um tanto suados, ultrapassamos o bloco por entre a muralha humana que se acotovelava para estar mais perto daquela “penta-folia”. Prosseguimos na caminhada e logo encontramos 3 pessoas a fazer números de circo, utilizando também 4 pequenos cães, igualmente vestidos com as cores verde e amarela. Sem lona, era o autêntico circo da praia, num esforço para transmitir mais alegria e espetáculo aos viandantes que acabavam por interromper um pouco a caminhada para aplaudi-los.

Alargamos nossos passos ainda em direção ao Arpoador, a primeira parte da caminhada. A temperatura estava muito agradável. Ninguém parecia triste. Claro que todos temos problemas, esta vida nunca foi um mar de rosas, como alguns afirmam, quando muito temos bons momentos de “lago azul” intercalados com ressacas e tempestades que exigem de nós garra e coragem para continuar a nadar e viver.

Naquela tarde, entretanto, as agruras, as dificuldades, estavam sendo sufocadas pela alegria esfuziante de um povo muito acostumado a dar a volta por cima. Que bom chegar ao Arpoador e ver de novo a faixa larga de areia da praia compondo um visual magnífico com as rochas, o mar que se apresentava com uma serenidade que contrastava com a agitação dos corações e mentes a passar pelas calçadas.

Lembram-se que há algum tempo atrás, após uma ressaca violentíssima, o mar viera buscar o que dele fora “roubado” há décadas. Tal a sua fúria que acabou por deixar exposto, por muito tempo, uma espécie de “esqueleto” de um lugar como o Arpoador, de onde se pode assistir a um dos mais belos pôr-do-sol durante parte do ano. À época eu ficava triste ao ver aquilo e talvez por isso a mim parecesse que o Arpoador estava, digamos, com “fratura exposta”.

Mas, nas calçadas presenciava-se também a nova moda: massagem e relaxamento oriental. Instrumentos apropriados, pequenas camas, e professores de yoga, shiatsu, entre outros, atendiam a vários clientes ali mesmo. Uma luta contra o stress efetivada ao ar livre, com a visão da praia, do mar calmo e de um céu todo azul. O local ideal.

O pequeno mirante no alto das pedras do Arpoador estava quase lotado. A vista de lá é realmente mais privilegiada ainda do que da calçada. Alguns poucos, porém, não tinham ido lá por causa do cenário belíssimo, mas para fazer juras de amor à namorada. Acreditem, apesar de tudo o romantismo ainda não morreu, graças a Deus. Que o amor resista sempre, sempre. Sem amor de que vale a vida?

Iniciamos, de mãos dadas, como habitualmente, a segunda parte de nossa caminhada: o retorno. Pode parecer um repeteco da ida, mas nem tanto. Os nossos passos é que acabam nos trazendo de volta mais rápido e isto é normal. Vamos aquecendo e, até sem querer, aumentando um pouco o ritmo no andar.

A batucada continuava na esquina com a Joana Angélica, o bloco agora estava maior, mais foliões, mais “penta-foliões”. Viver o presente era a ordem, embora o futuro sempre se apresente a cada respirar nosso, a cada palavra cantada, a cada pensamento. Até parece que o presente não existe, e sim uma seqüência de futuro que logo mergulha no passado. Prestem bem atenção nisso.

Alguém mais ansioso e parece que insaciável já gritava pelo... hexa! Brasileiro não é fácil, sempre querendo mais, e depressa. Mas está certo, nunca devemos nos acomodar, ou nos sentir satisfeitos totalmente se podemos sonhar, se temos fé e esperança, se acreditamos em nós, como pessoa, como povo, como país.

O brasileiro é às vezes criticado por parecer ter perdido a referência da verdadeira, da mais autêntica cidadania, do seu orgulho pátrio, mas o futebol tem este condão de nos resgatar isto. Ainda bem. Não liguem aos que nos subestimam, nos depreciam, nos desdenham, esses costumam se vestir de uma altivez nem sempre condizente com sua dignidade pessoal. Pois que falem, desde que não nos desrespeitem.

Enquanto eu já começava a imaginar a construção desta crônica, caminhando meio rápido, nem percebi que se aproximava a nossa “fita de chegada”. Estava se encerrando a caminhada daquele domingo que começara com tanta alegria, com tanta vibração por uma felicidade que antes nos parecia quase impossível de alcançar naquele mundial.

Imaginei que mesmo os mais azedos, os que escreveram certas bobagens na Internet, insuflando o povo a não torcer, a não comemorar, como se, não torcendo, estivéssemos dando uma “colaboração imensa” para acabar com a corrupção, ou evitar as fraudes muitas, ou até pudéssemos, fugindo daquela justa e merecida alegria, impedir que FHC assinasse mais alguma medida provisória contra os interesses dos trabalhadores. Mas até eles, os azedos, os mau-humorados, talvez bem escondidos, estivessem também comemorando, claro.

Voltamos para casa suados, cansados, mas bem felizes, pois o amor, acima de tudo, era nossa bandeira de vitória.



(03 de agosto/2002)
CooJornal no 270


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm