10/08/2002
Número - 271


 

          

Francisco Simões

 

A VOZ DE DEUS?

É comum ouvir-se dizer que: “a voz do povo é a voz de Deus.” Fala-se isto costumeiramente em várias ocasiões e nas mais variadas situações. Fazem uso desta expressão não só a gente do povo, como políticos, artistas, jogadores de futebol, enfim, talvez somente os que se dizem ateus não a tenham jamais empregado. Entende-se.

Eu, que confesso também a ter usado muitas vezes, de uns tempos para cá, fazendo umas reflexões mais profundas, esbarrei a convicção com que a dizia antes em sérias dúvidas, em complexos questionamentos que quero agora pôr para meus amigos leitores. Aviso que não quero polemizar nem convencer ninguém sobre nada.

Vamos começar com exemplos caseiros, quero dizer, com acontecimentos ocorridos e/ou por ocorrer em nosso próprio país. A opinião pública, em sua grande maioria, acompanhou recentemente aquelas CPIs, no Congresso, que visavam a apurar comportamentos, condutas de alguns políticos, que aconselhavam aplicar-se, aos eventualmente culpados, a letra do regulamento de ambas as casas legislativas.

É evidente, pela reação que se percebia nas ruas, que a esmagadora maioria de nosso povo deplorou o procedimento de vários de nossos representantes, congressistas, os quais acabaram por ter seus mandatos cassados. Bem, nem todos, lógico, pois os mais espertos preferiram a desonra maior de fugir pela indecorosa porta da renúncia.

Esta, em verdade, sempre foi uma artimanha, um ardil criado pelos próprios políticos em causa própria. Lembram-se de que, renunciando ao mandato, eles tinham (ou será que ainda têm?) o “direito” de se candidatar na eleição seguinte e voltar ao mesmo Congresso como se nada tivesse acontecido antes. Tolerância mil, ética zero.

Bem, naqueles episódios, pelo menos no condenar os faltosos, vá lá que se considerasse que “a voz do povo era a voz de Deus.” Sendo cristão não vou admitir que Deus estivesse do lado de tanta corrupção, de tantos desmandos, de tanta apropriação indébita do dinheiro público e outras vilezas e bandalhices mais. Então: “a voz do povo foi a voz de Deus.” Tudo bem.

Quando nos referimos a povo não fazemos, nem devemos, fazer distinção alguma, pois seria, no mínimo, preconceituoso e portanto intolerável. O povo, no caso, era o brasileiro, fosse ele do norte, do sul, do centro-sul etc. Era o nosso bravo povo brasileiro dando sua sentença condenatória a maus políticos.

Ora muito bem. Ocorre que agora a simpática gente baiana parece inclinada a devolver o Sr. ACM ao Senado. As pesquisas indicam isso. E aí? O que eu vou dizer aos meus leitores sobre a temática que resolvi abordar hoje? Vejam que é o povo a tomar uma decisão que contradiz o anseio anterior, da maioria do povo brasileiro, mas nem por isso deixa de ser povo também, claro. Com todo o respeito.

Por outro lado, meus bons amigos e conterrâneos do Estado do Pará, parece que se preparam também para devolver o Sr. Jader Barbalho ao Congresso, ou, se ele preferir, a elegê-lo outra vez governador. Gente da minha terra, do meu berço natal, a quem eu fiz um apelo quando escrevi “Orgulho de ser paraense”, justo no dia do Círio de Nazaré, no ano passado, e que coincidiu com a escapada daquele político, pela mesma porta que o Sr. ACM usou.

Eu pedi, eu apelei, disse que confiava que os paraenses não iriam desafinar do tom nacional de repúdio a mais este político, contra o qual tantas denúncias foram apresentadas e parece ainda estão em trânsito na polícia federal e/ou na justiça. Ainda há tempo de não efetivarem tal absurdo que as pesquisas nos traduzem quase como irreversível.

Mas, se meu povo paraense, soberano em sua vontade e em suas decisões, optar por reconduzir ao poder e, pior, à indecente imunidade parlamentar, o Sr. Barbalho, terei que me vestir de vergonha e mitigar minha decepção com os votos daqueles que não pactuarão dessa insensatez. Aí pergunto aos leitores: poderemos considerar esse povo que o eleger, na atual circunstância, como sendo “a voz de Deus”?

Em Alagoas, um dos mais lindos Estados do nordeste brasileiro, tudo indica que os eleitores estão decididos a colocar de volta ao poder, na governança do Estado ou no Senado, o ex-presidente Collor de Melo. À época, contra ele sacaram tantas denúncias, inúmeras, escândalos mil, a mídia brasileira fez a primeira e maior pressão de toda a sua história sobre um presidente, legitimamente eleito.

Culminou com um julgamento no Congresso Nacional e com um “impeachement” que o condenou a ficar com seus direitos políticos cassados por 8 anos. Este tempo está vencido, mas a memória do povo jogou tudo no ostracismo? Ele tem o sagrado direito de se candidatar, mas a boa gente alagoana não tem nenhuma obrigação de atender aos seus anseios de retornar ao cenário político brasileiro. Vão ignorar o passado?

As pesquisas, entretanto, indicam que o povo de lá também pretende seguir na contramão da opinião pública nacional. Volto a repetir a pergunta: devo considerar, se esta for a soberana decisão da gente alagoana, que ela estará se articulando legitimamente como “a voz de Deus”?

Subindo mais um pouco chegamos ao Maranhão. Recentemente D. Roseana Sarney acabou por ter que desistir de sua pretensão a ser candidata à Presidência da República, pelo PFL. Todos devem se lembrar do que ocorreu. Mais denúncias, dossiês secretos, parece que comprovavam apropriação indébita de dinheiro público.

A Polícia Federal trabalhou incansavelmente no caso, houve acusações de que o PSDB estaria por trás daquilo a tentar fazer uso do episódio em favor de seu candidato, etc e tal. O fato é que, embora D. Roseana jurasse inocência e chamasse aquilo tudo de armação, ela se rendeu aos fatos e renunciou à candidatura.

Se não ouvimos mais falar no caso, o fato é que tudo que foi dito e mostrado ficou em nossas lembranças e a acusada sequer conseguiu provar inocência, tentou sim foi impedir que o processo tivesse seqüência. Ficaram as denúncias, não contestadas. Agora, o bravo povo maranhense, segundo as pesquisas de opinião pública, parece decidido a apoiar D. Roseana em sua pretensão de ocupar uma cadeira no Congresso Nacional. Pergunto outra vez: E aí, este povo estará agindo como “a voz de Deus”?

Em S. Paulo, o maior colégio eleitoral do país, volta a ocorrer o mesmo fenômeno de outras vezes. Transcrevo o que li em matéria de Mauro Braga, na Tribuna, no dia 08.07.2002: “Como alguém acusado tantas vezes de corrupção pode ainda revelar um vigor eleitoral impressionante? Esta é a pergunta que a maioria dos analistas políticos estão se fazendo hoje, depois que mais uma pesquisa mostrou a possibilidade concreta do ex-prefeito Paulo Maluf ganhar o governo de São Paulo, ainda no primeiro turno.”

“A única resposta possível é que o ex-prefeito transmite uma imagem de dureza, autoridade, na luta contra o crime, hoje sem dúvida uma das maiores preocupações da sociedade.” Vejamos se entendi: então se o político demonstrar autoridade, dureza, combater corajosamente a violência que tanto nos preocupa atualmente, em verdade, todas as denúncias de corrupção, partidas do Ministério Público, as insinuações de contas em paraísos fiscais, etc, não devem ser levadas em conta?

Embora o Sr. Maluf tenha conseguido se manter intocável, até agora, pelas autoridades que o acusam, tenha sempre jurado inocência, não seria o caso de o povo usar de um pouco mais de prudência na hora de votar? Não há nenhum outro candidato que mereça sua confiança? E agindo assim posso também considerá-lo como “a voz de Deus?”

Muitos outros exemplos poderiam aqui ser alinhados. Quando Hitler subiu ao poder, com suas idéias fascistas, anti-semitas, teve do seu lado a esmagadora maioria do povo alemão. Filmes da época comprovam. Também em outros países europeus, boa parte de seus povos, inclusive na França, onde operou uma heróica resistência ao nazismo, muitos apoiaram o expansionismo de Hitler e suas idéias. Nos EUA e aqui pelo nosso lado, ele também teve muitos admiradores. Seriam eles, como povo, “a voz de Deus”?

Os regimes ditatoriais que aconteceram, e ainda acontecem, pelo mundo, costumam ter o apoio de grande parte do povo dominado e oprimido. Como explicar? Não sei, e quem seria “a voz de Deus”, estes ou todos os que, correndo risco de vida, se empenham em lutar contra as tiranias, ora de direita, ora de esquerda, ora até com fundamentos religiosos?

Bem, não esqueçamos que há 2002 anos passados, foi o próprio povo que mandou soltarem o ladrão vulgar, o Barrabás, e condenou à morte, na cruz, Aquele que viera para salvá-lo, Jesus Cristo. Pilatos lavou as mãos, pois não queria ter em sua consciência aquela decisão. Foi o primeiro e maior exemplo, na história da humanidade, de que o povo, muito ao contrário do que dizem, nem sempre é mesmo “a voz de Deus”.


(10 de agosto/2002)
CooJornal no 271


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm