17/08/2002
Número - 272


 

          

Francisco Simões

 

HOJE, 17 DE AGOSTO

Nunca antes eu usara uma data como título para algum dos meus trabalhos. Hoje decidi fazer diferente. Certamente uns irão se perguntar o motivo que me leva a salientar este dia intitulando esta crônica com ele. Calma, chegaremos lá.

É verdade que o Dia dos Pais já passou, o Dia das Mães já ficou na poeira do tempo, Natal ainda está bem distante, as eleições estão no meio do caminho. Hoje é um dia comum, igual a tantos outros. Talvez não para todos.

Há datas que marcam a vida das pessoas por fatos e/ou acontecimentos, felizes ou não, mas que elas têm que carregar pela vida inteira. Creio que isto acontece com toda a gente. Alguns encaram o fato normalmente, outros relutam em aceitar essa realidade.

No ano passado, por essa mesma época, em outra crônica, escrevi o que agora vou me permitir repetir em alguns trechos. Faço-o porque, neste período de um ano, muitos outros leitores amigos me descobriram como um esforçado aprendiz de escritor e poeta, e passaram a me ler, dando-me a alegria maior de comentarem alguns dos meus trabalhos. Estes, porém, ainda não me liam quando da crônica de 17.08.2001.

“Se olhamos para a vida como uma dádiva devemos encarar o viver como um desafio e fazer por merecê-lo. Todas as fases da vida, seja a infância, a juventude, a maturidade, oferecem-nos imensas oportunidades para o nosso aprimoramento geral, aí incluído o entender e o aceitar a velhice. Precisamos estar sempre atentos às lições que o viver nos oferta, dia após dia, ano após ano.”

“Este aprendizado passará à margem de nossa existência se nos mantivermos desatentos, ou se também valorizarmos o mundo apenas como nosso, subestimando, menosprezando ou ignorando os semelhantes. Com esta postura jamais aprenderemos, por exemplo, sobre solidariedade, e nela está intrínseco o sentido moral que vincula cada um de nós não só à vida, mas também aos interesses e às responsabilidades de um grupo social, de um país, ou mesmo da própria humanidade como um todo.”

Eu falava então em solidariedade. Falava e ao mesmo tempo aprendia ainda mais, com a própria vida, no decorrer desses 12 meses. Uma das aulas que mais me ensinaram sobre solidarismo foi a oportunidade de participar ativa e diretamente no Natal para famílias carentes, realizado em Cabo Frio, em dezembro do ano passado.

Junto com minha esposa, uns poucos amigos de lá, e nosso sobrinho Márcio, o Papai Noel que mais amamos, passei por uma experiência marcante, inesquecível. Levar amor, carinho, um pouco de alegria, a tantos olhares ávidos por receber um sorriso, um beijo fraterno, um presente, qualquer que fosse, já que seus endereços jamais constaram da agenda do “verdadeiro” Noel. A carência ali presente era absoluta.

A partir daí outras “aulas” aconteceram. Parece que de repente a vida achou por bem de me submeter a um “curso superior” onde se percebe que ser solidário tem um sentido e uma amplitude muito maior do que qualquer definição que os dicionários possam nos apresentar. O meu “vestibular” foi difícil, muito árduo, mas creio ter sido aprovado. Solidariedade também é uma profissão de fé, uma troca de amor.

Enquanto isto o tempo foi me empurrando para o futuro. Afinal ele não pára, e se parasse, o tudo viraria nada. O tempo apenas passa, apenas segue sua trajetória infinita. Finito, transitório, somos nós, o espaço de nossas vidas, que não nos promete a imortalidade. Mas, retorno ao texto da crônica do ano passado:

“O ser mais velho, ou mais antigo, pode, como seqüência de um existir inteligente, de um aprendizado de vida com tirocínio, significar um somatório de experiências, de conhecimentos, sedimentados ao longo de décadas. Evidentemente que nesse processo devemos envelhecer observando e estudando as modificações nos hábitos e costumes, nos usos e necessidades do moderno, formando porém o nosso próprio juízo, sem nos deixarmos massificar no que se refere a reformular conceitos.”

“Saber envelhecer até que tem algumas vantagens, pelo menos eu penso assim. No meu caso, por exemplo, voltei a escrever poesias aos 58 anos e retornei às crônicas, a me expressar publicamente falando da vida, de fatos que me cercam, de personagens que cruzam no meu caminho, aos 64 anos. Sempre gostei de escrever, e tive o incentivo e a crítica atenta e severa de meu pai, português, entre os 17 e os 21 anos, quando o fiz, profissionalmente, no rádio paraense.”

“Hoje sinto-me realmente mais capaz, mais experiente, com mais percepção da vida para senti-la melhor e falar sobre ela. Costumo dizer que sou um aprendiz de escritor porque este recomeçar, experiências à parte, tem exigido de mim muita dedicação, muita releitura, às vezes, um comportar-me como aluno atento e aplicado num universo de tantos e excelentes autores que admiro e com os quais tenho aprendido muito.”

Em agosto do ano passado, quando escrevi a crônica, da qual extraio esses trechos agora, eu estava ainda por completar apenas 8 (oito) meses do meu retorno a escrever em prosa, publicamente, por essa internet. Atendera a dois “convites-desafios” dos sites Rio Total e Blocos. Não parei mais, e o computador, do qual eu sempre quis distância, antes, hoje é o elo de tantas e boas amizades que me ajudam a viver.

Numa poesia que escrevi há quase dois anos, eu digo: “Meu mundo está encolhendo / O horizonte já não está / Tão distante quanto antes. / Meu telhado de nuvens está / Baixo e continua descendo.” Eu retrato nesse poema o passar do tempo, o consumir da vida, enfim, a realidade que vale para todos nós. Mas, sigamos com mais dois trechos da crônica de agosto do ano passado:

“Aos 65 a gente só ganha é em experiência, mas mesmo ela pode ser meio ilusória, às vezes farsante, enganadora. Lembremos o que disse, a propósito, Oscar Wilde: “Experiência é o nome que todos dão aos seus erros.” Ainda que todos possa parecer exagerado, é bom não retirarmos totalmente essa carapuça.”

“Não esqueçamos também de jamais deixar morrer em nós a criança. Como é extremamente maçante, muito chato mesmo, ser apenas adulto, ter só pose de adulto, aquele ar austero, o parecer sempre sério, o só querer dar conselhos (muitos dos quais nunca seguimos), o exercitar a rabugice, a ranhetice, a necessidade da autoridade irrepreensível etc. Há um pensamento que atribuem a Schiller que diz: “O homem só é completo quando brinca.”

Se eu já dava um imenso valor ao que alguns possam chamar de “apenas um sorriso”, hoje, amigos, eu sei da importância vital dele para mim. O sorriso me injeta ânimo, me reafirma a vida, me planta esperança, robustece em meu coração a fé que nunca abandonei, sedimenta em mim a felicidade.

Mas, afinal, por que usei o título acima nesta crônica? Lendo o último trecho do texto do ano passado, vocês entenderão. Dizia eu:

“Vocês, queridos amigos-leitores e leitores-amigos, também poderão me auxiliar nesta tarefa, claro. Ela é muito difícil para ser executada por uma só pessoa. Unamo-nos todos e, por favor, me ajudem a apagar essas 65 velhinhas do meu….. Bolo de Aniversário.” Este era o título da crônica de 17.08.2001. Hoje, a ajuda de vocês torna-se imprescindível, pois tenho uma velhinha a mais para apagar.



(17 de agosto/2002)
CooJornal no 272


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm