07/09/2002
Número - 275

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Francisco Simões

 

"OLÉ TOURO"

Nos quatro longos períodos que vivemos em terras européias, desde 1989, conheci todos os países da chamada Europa Ocidental. Sempre tive um respeito e uma admiração muito grandes por aqueles povos, daí a preferência por aquele continente para morar, quando decidimos sair por algum tempo de nosso país.

Vou me referir aqui apenas à Espanha e Portugal. Não vou propriamente falar deles por sua história, seus costumes, ou seus roteiros turísticos, mas sim por um “hábito cultural” que em ambos os países é mantido e alimentado até hoje: as touradas. Nunca as aceitei. Tenho amigos de ambas as nacionalidades que são, uns contra, outros a favor das tradicionais “corridas de touros”.

Mal se aproxima o verão e inúmeros espetáculos são programados. Falar mal, dizer algo contra as touradas, principalmente na Espanha, é, até hoje, criar inimizades, tornar-se alvo de severas críticas. Eles se sentem mesmo ofendidos, dependendo dos argumentos que usarmos para condenar um dos “esportes” mais populares por lá. Jamais assistimos a uma tourada, nem mesmo em Portugal, embora lá não seja, ou não fosse, permitido matar o touro durante as corridas.

Em 1989, em Madri, numa de nossas primeiras estadas na capital espanhola, resolvi assistir pela TV a uma tourada que estavam passando ao vivo, ou em direto. Não entendo como as pessoas podem vibrar tanto, sentir tanto orgulho pelo toureiro, enquanto este se põe a espetar o animal por diversas vezes. O touro sangra em vários lugares e seu dorso fica coalhado daquelas lanças enormes que terminam em ferro pontiagudo.

Esta parte da tourada também acontece nas corridas em Portugal. Depois, o toureiro, com o touro já bem cansado e muito ferido, põe-se de pé a desafiar o animal usando o tradicional tecido vermelho para atraí-lo. O touro investe, não pela cor do pano, como eu imaginava, mas pelo movimento que o toureador faz com ele, afinal os touros são daltônicos. A “habilidade” do homem está em fazer malabarismos vários, sem se deixar atingir, enquanto o animal vai, cada vez mais, tendo suas forças exauridas.

Em pequenos intervalos da ação do toureiro, entram os assistentes, para manter o touro agitado, mas também o cansando cada vez mais. Não esqueçam que as lanças continuam espetadas no dorso do touro e que o sangue vai se esvaindo sem parar. Na parte final do espetáculo, o toureiro retorna à arena com o mesmo tecido, mas agora com uma espada escondida na parte de cima dele. Refiro-me às touradas em Espanha.

Se o animal é muitas vezes mais forte que o homem, este está quase inteiro, fisicamente, e o touro já tem, àquela altura, suas forças e reflexos muito, mas muito reduzidos. Percebe-se que o animal chega a cair de joelhos, algumas vezes, à frente do toureiro, enquanto o povo grita e clama pela morte do touro.

Quando o toureador foi se aproximando lentamente do animal, este praticamente ajoelhado a sua frente, imóvel, imaginei que se daria ali o desfecho que o público esperava e exigia. Confesso que quando o toureiro levantou a espada e a apontou na direção da parte de trás da cabeça do touro, antes que a tocasse eu mudei de canal. Faltou-me coragem para ser cúmplice, como telespectador, daquela cena que eu condeno. Deixei passar um certo tempo e voltei ao canal da tourada. O touro jazia na arena, o toureiro saudava o público e este, delirantemente, o festejava como herói.

Fui dormir indignado, mas lembrando-me que aquilo é uma rotina habitual para eles e que no dia seguinte novamente se repetiria, com certeza, em várias praças de touro. Adoro a Espanha, tenho uma admiração muito grande pelo povo espanhol e por sua história, porém sou visceralmente contra touradas.

Em 1995, em outra estada de vários dias em Madri, quando eu e minha esposa passeávamos pela linda avenida Paseo de Recoletos, cruzamos com um grupo de umas 40 a 50 pessoas fazendo uma pequena passeata de protesto. Levavam cartazes pedindo o fim da matança dos touros. Gritavam palavras de ordem também.

Admirei a coragem deles, pois sendo um grupo minoritário não se intimidavam e estavam ali a tentar plantar a semente de uma idéia, a defesa de um direito, que quase todo um povo se recusa sequer a debater. Dizer mal das touradas, em Espanha, chega a ser um sacrilégio. Confesso minha decepção com este tipo de seres “racionais”.

Neste ano de 2002, assisti pela TV, no dia dos festejos da cidade de Pamplona, quando soltam um touro pelas ruas e milhares de pessoas “se divertem”, uns correndo, outros a fazer caretas ao touro, mas outros a atirar-lhe de tudo, a espetá-lo de várias formas, enfim a submetê-lo a uma humilhação e tortura festejada por todos, vi um outro grupo fazendo protestos, na mesma cidade, contra aquela insanidade, aquela crueldade para com o animal. A semente parece estar germinando por lá.

E está mesmo. No dia 27.08.2002, recebi, de minha boa amiga e excelente poetisa portuguesa, Laura Martins, um documento conclamando as pessoas, em várias cidades de diversos continentes, a participarem das manifestações contra as touradas, que se realizaram no dia 29 de agosto passado. O estopim desta reação, agora, foi a autorização do governo português, pela primeira vez em 74 anos de touradas em Portugal, para que matassem o touro em corrida realizada, naquele mesmo dia, em Barrancos. Uma decisão infeliz e injustificável, até porque oficializaram o que já era feito como fora-da-lei, e a autoridade era cúmplice. Minha opinião.

No dia 30/agosto recebi do meu amigo (amizade de mais de 30 anos) e excelente colaborador, o Manuel Antonio dos Santos, que mora em Cascais, Portugal, um documento divulgado pelo MIDAS – Movimento Internacional de Defesa dos Animais. Nele são relatados procedimentos que deveriam envergonhar as pessoas que apóiam a tortura e a morte de um touro, em cujo “duelo” o toureiro costuma sair como herói, e o outro lado da verdade não é divulgada.

Vou transcrever apenas as primeiras linhas do referido documento: “Um touro pode com mais de 400 kg nos chifres. Mas quando entra na arena, já não pode sequer com os 70kg do toureiro, a fingir de valente.” Li e reli com atenção todo o texto. O por que da afirmação acima fica bem clara nas várias denúncias que são feitas. Meu primeiro impulso foi divulgá-lo na íntegra, mas depois decidi não o fazer.

As crueldades nele descritas poderiam ferir a sensibilidade de algumas pessoas pelo requinte de torturas que o documento do MIDAS afirma serem verdade. Não tenho provas, porém algumas delas eu já ouvira em conversas com pessoas que conheci em Portugal, enquanto outras tratavam de as desmentir, colocando-as no nível de “fantasia dos denunciantes”. Uma coisa eu lhes garanto, os touros não entram enfurecidos na arena simplesmente por estarem ali, claro. Ademais, ele já entram com seu potencial muito reduzido, mesmo.

A certa altura o documento assevera: “: “A valentia dos toureiros é, portanto, uma grande farsa. Muitas vezes os touros, de tão maltratados, entram um a seguir ao outro na arena, ajoelham ou não podem andar e são logo retirados, para que não venha a ser posta em dúvida a “valentia” do toureador.” Se um dia, você, meu caro leitor, assistir ao ato final de uma tourada, verá que o touro, quando é morto pelo toureiro, já nem tem forças para se mexer. É um ato covarde, sim, e que já merece hoje a condenação de muita gente pelo mundo afora.

Alguém me perguntaria: “Se todas essas denúncias fossem verdade, já não teriam vindo à luz? Não acha que o conhecimento delas geraria uma reviravolta na opinião pública?” Pois eu respondo: como achar que as pessoas que apóiam as touradas, a tortura do animal, por elas aplaudida nas corridas, o matar fria e covardemente um animal já sem forças, enquanto o público chega ao êxtase, vibra, delira e aplaude essa insanidade, como achar que elas iriam se sensibilizar com, digamos, “detalhes”?!

A verdade é que quem defende as touradas não aceita qualquer tipo de argumento, seja de que origem for, para mudar de opinião. Vivi esta experiência lá. Defendem as corridas cegamente e nem nos dão atenção se tentarmos convencê-las do contrário. Pelo raciocínio dos defensores das touradas, então deveríamos também aceitar o retorno do canibalismo, dos enforcamentos, das condenações à fogueira, do “olho por olho, dente por dente”. Aliás, este foi recentemente adotado pelo governo americano.

Afinal, evoluímos ou não? Por tudo a que tenho assistido, tudo que tenho visto e ouvido, cada vez fico mais descrente do ser humano, pelo menos de grande parte de nós. E quando esta demência, esta insanidade alcança poder é capaz das maiores atrocidades, das maiores barbaridades, até da auto-destruição de nossa espécie.

Algumas das torturas relacionadas no documento do MIDAS já ouvi dizer que também fazem por aqui para que os bois entrem furiosos no picadeiro, a saltar alucinadamente, nos tais rodeios, tão concorridos. Acontece que, assim como nas touradas, para além da parvoíce dos que se comprazem com aquela barbárie que chamam de “espetáculo”, deve haver muitos outros interesses envolvidos.

Mas, não apenas os touros são torturados covardemente para a satisfação do público. Também aos cavalos, usados pelos picadores (toureiros montados), nas chamadas corridas de touro, são impingidos castigos inadmissíveis, segundo o documento do MIDAS. O touro não tem capacidade para gritar suas dores, mas os cavalos têm. Não acham estranho que algumas vezes, sendo atingidos pelo touro, até mortalmente, eles nem sequer relinchem?! Pensem nisso, reflitam e imaginem o por que!

Em 1992, ao conhecermos a Praça de Touros de Figueira Foz, numa tarde linda de verão, sem corrida, um jovem local contou-nos muitas histórias sobre os bastidores das touradas, e entre elas, algumas coincidem com denúncias daquele documento.

Como já ficamos morando em Lisboa, por quatro vezes, passamos à porta da Praça de Touros da cidade, no bairro do Campo Pequeno, por sinal uma maravilhosa obra arquitetônica, mas jamais assistimos às corridas. Alguns amigos nossos apresentam (ou apresentavam!), em favor das touradas, a justificativa de que, em Portugal não é (ou não era!) permitido ao toureiro matar o touro.

Este argumento nunca me convenceu a ir ver uma corrida de touros, até porque sempre, em contrapartida, eu lhes coloquei a minha visão do assunto: matar não é permitido, mas torturar pode? Tenho outro amigo que é mais anti touradas do que eu. Ele sempre torce pelo touro e contra o toureiro. Enquanto a platéia habitualmente grita para o toureiro: “Olé, Olé”, ele, o meu amigo, não se contém e, pela TV, assistindo em direto a uma tourada, repete constantemente: “Olé touro, Olé Touro.”

Há mais aspectos a abordar sobre o assunto e muito a lastimar deste episódio da autorização para que sejam mortos os touros na cidade de Barrancos. Agora passa a ser uma insanidade reconhecida oficialmente, em Portugal, como... legal. Expresso o meu repúdio contra este e contra qualquer outro ato de violência que permita a tortura e a morte de animais, pelo puro prazer selvagem e pela satisfação de instintos de barbarismo de quem se considera, assim mesmo, humano e racional.



(07 de setembro/2002)
CooJornal no 275


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm