05/10/2002
Número - 280


 

          

Francisco Simões

 

PASSOS NA PRIMAVERA

Era o primeiro final de semana desta nova primavera. Fazia um sol que sustentava, com a brisa bem fresca, uma temperatura amena. O inverno acabara de se despedir tentando provar que ainda existe. Afinal, durante os três meses de sua permanência ele teve uma pálida presença, despersonalizada.

Atirou-nos nos últimos dias tanta chuva e tanto frio como que querendo compensar sua incompetência hibernal durante uma estada preguiçosa, quando cedeu aos arroubos de um verão, fora de época, numa querela que tem virado rotina nos últimos anos. Mas, parece que finalmente o sol alcançou o equinócio para lentamente seguir rumo ao solstício que alcançará lá para 20/dezembro. Enfim, é primavera.

Lá fomos nós naquele sábado, final de tarde, para nossa saudável caminhada habitual. Amamos andar, andamos muito mesmo. Dizem que é um dos melhores exercícios para a saúde de qualquer pessoa. Sem a intenção de bater nenhum recorde, demos a largada em ritmo de uma atividade física apropriada para a idade que carregamos. Já disse antes e repito agora: se caminhar é bom, na orla marítima, é excelente.

Iniciamos sempre no posto 10. Poucos metros adiante o reencontro com um conhecido artista da calçada, que faz lindas esculturas usando apenas a areia da praia e água. Quem desejar contribuir, reconhecendo o mérito de seu trabalho, pode depositar qualquer valor numa pequena caixa onde agora há uma mensagem de agradecimento também em inglês. O moço é bem talentoso.

Desviando dos mais lentos, dos distraídos, dos eventuais desníveis da calçada, aproximamo-nos do posto nove. Este, por tradição, está sempre mais concorrido. Eram 17 horas, mas ali parecia que a “festa praiana” mal começara. Inúmeras barracas, todas iguais, em tecido branco, estavam apinhadas de banhistas. Como dizem os mais jovens, “rolava uma batucada” convidativa entre as barracas.

Ela marcava o ritmo da alegria de um povo, como o carioca, que, apesar de tudo, não perdeu o seu enlevo, o seu encantamento, o seu arroubo por um viver mais solto, mais feliz, mais solidário, aquele carioquismo tão cantado em músicas como de Tom, Vinicius, e outros mestres que sempre souberam retratar em suas letras e músicas o espírito de quem vive neste Rio de Janeiro, aqui nascido, ou aqui adotado, como eu.

Aos poucos nossos passos vão se acelerando como conseqüência natural da continuidade do exercício. Na altura do posto 8, como sempre, a larga faixa de areia se ressentia do calor de corpos humanos, e o sol, baixando, tornava mais fria a brisa que a acariciava. As ondas pareciam, ali, também se sentir meio solitárias. Os poucos banhistas não se atreviam a um mergulho àquela hora.

Prosseguimos até o final do Arpoador. No caminho, um encontro de vários e bonitos cães na calçada. Até parecia uma “convenção canina” ao ar livre. Cada um mais bonito que o outro. Poucos metros adiante, um cidadão mantinha, em uma pequena caixa de papelão, 4 filhotes da raça labrador. Uma breve pausa pois não pudemos resistir a fazer-lhe alguns carinhos. O preço: R$ 250,00 cada um. Todos faziam ali uma parada obrigatória. Era mesmo irresistível.

Ao chegarmos às rochas de onde se faz a volta e retorna, percebemos que o sol já quase se sentava atrás do morro, no Leblon, bem ao lado do “Dois Irmãos”. Espetáculo de uma beleza rara e encantadora, prenunciando um dos crepúsculos mais lindos do mundo, quase um ritual angélico concebido por uma Mente Superior. Uma graça, uma dádiva ofertada permanentemente aos bem-aventurados cariocas.

Não havia surfistas no Arpoador, mas também as ondas estavam em falta. Quando regressávamos percebemos que a tal “convenção canina” se encerrara e os animais se congraçavam nas habituais tentativas de um contato imediato do primeiro grau. Apertamos um pouco mais nosso ritmo nas passadas. A brisa agora nos soprava pelas costas. Pela frente uns poucos e prazerosos quilômetros, para quem ama caminhar.

Na altura do posto oito quase presenciamos um acidente. Alguém que vinha pela faixa de pedestres, com o sinal fechado para os veículos, ao chegar à faixa destinada aos ciclistas quase foi ao chão ao ser literalmente abalroada por uma bicicleta em boa velocidade. Culpa do pedestre? Não, absolutamente.

Ocorre que na estreita faixa de ciclismo também existe sinais de trânsito. Quando o sinal está verde para os transeuntes, um sinal, com o desenho de uma bicicleta, em vermelho, pisca insistentemente pedindo atenção aos usuários da via e os advertindo para reduzirem a velocidade. Naqueles momentos a preferência é dos pedestres. Acontece que a maioria dos ciclistas não liga a mínima para regras de trânsito. Deplorável. Ainda vou falar detalhadamente sobre isso.

Os quiosques estão repletos. Gente conversando, rindo, cantando, bebendo, enfim vivendo uma vida que nesta cidade já foi mais alegre, sem medo, sem terrorismos, sem violência, no nível da que hoje presenciamos e que nos rouba um tanto da espontaneidade e da nossa liberdade antiga. Mas o Rio, a sua beleza natural, isto ninguém pode roubar, apenas invejar.

A parada estratégica para uns goles da deliciosa água de coco geladinha. Mesmo com a temperatura fresca, o esforço nos fez suar. Àquela altura da caminhada ela desce melhor ainda, além do mais é hidratante. Retornamos aos passos, os primeiros nesta primavera. Estamos indo agora rumo ao Jardim de Alah para invadirmos as “fronteiras” do Leblon por uns poucos minutos e voltarmos ao posto 10.

Para quem também ama escrever e tem uma certa sensibilidade é fácil perceber que há poesia no ar. Muitas vezes iniciei uma poesia e/ou uma crônica enquanto caminhava na orla marítima. Mais uns quinze minutos e nossa “maratona” estava encerrada. A volta à casa, o banho refrescante, o jantar, uma noite de sono de pedra, reconfortante, revigorante, um prêmio merecido, uma recompensa, nossa medalha.


(05 de outubro/2002)
CooJornal no 280


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm