12/10/2002
Número - 281


 

          

Francisco Simões

 

LUZES, CÂMERA E (MUITA) AÇÃO

Muitos que hoje estão com idade em torno dos 20 anos, ou pouco mais, certamente nunca ouviram falar em Cinema Super-8. Estão acostumados a manusear bonitas câmeras de vídeo, sofisticadas, computadorizadas, com imensos recursos que para serem usados basta apertar um botão aqui, outro ali e pronto. A tarefa é bem mais fácil. Muita coisa elas fazem quase sozinhas.

Mas, na década de 70, principalmente, a bitola estreita, de apenas 8 mm, esteve no auge. Tanto era usada pelas pessoas para filmes de férias, momentos festivos etc, como também para realizar filmes sérios, quase profissionais.

Muitos trabalhos escolares, geralmente feitos por grupos de alunos e especialmente em universidades, eram realizados em super-8. Um desses filmes, o FAVELANDO, feito por alunos da PUC-Rio, era excelente e venceu um concurso no Cefet de Curitiba. Naquele ano eu consegui lá o 1º lugar em ficção, com LONA SUJA.

As pessoas tinham a oportunidade de testarem o seu dom, o seu pendor para a chamada sétima arte. Eu testemunhei o surgimento de alguns talentosos realizadores que, na maioria dos casos, tinham que ser roteiristas, passando por diretores, produtores etc. Alguns, como eu, faziam quase tudo sozinhos. Usei sempre uma temática de crítica social e política. Lembrem-se de que vivíamos anos de ditadura militar.

Hoje, com as modernas câmeras de vídeo, fazer uma edição, isto é, emendar imagens na ordem que melhor nos aprouver, não exige tanto trabalho. Com o equipamento que usávamos, filmando em super-8, editar um filme era uma tarefa árdua que exigia muita paciência, além de conhecimento técnico, sensibilidade e a sempre indispensável criatividade, claro. Mesmo as melhores câmeras apresentavam poucos recursos, e a edição era feita em equipamento apropriado, mas de forma bastante artesanal.

Há algum tempo atrás fiquei surpreso e muito feliz ao ler num Boletim CULT uma reportagem sobre "a nova geração do super 8." Isto é muito bom. Julguei que esse tipo de cinema já fazia parte apenas do passado. Não conheço nenhuma produção atual, mas li que há gente trabalhando muito bem. O super- 8 é uma escola que pode revelar novos cineastas.

Os filmes dessa bitola estreita costumavam, nos anos 70/80, ser usados com larga imaginação por muitos realizadores tidos como amadores. Surgiram então os famosos festivais de cinema super-8. Havia muitos por este Brasil imenso. A grande maioria dos cineastas dos 8mm era constituída de jovens. Eu chegava aos 40 anos.

Produzi vários filmes. Quer dizer, tinha a idéia, planejava tudo, escolhia personagens e locais, músicas e efeitos sonoros, redigia os textos, ensaiava os "atores e atrizes", sempre amadores sem experiência, amigos, colegas do Banco, pessoas que eu convidava, inclusive crianças etc. Vinha a fase dos ensaios, quando havia tempo. Sim, eu tinha que ser também o "diretor". Bem, eu mesmo filmava todas as cenas, dirigindo tudo simultaneamente.

Rodávamos muitos rolos, que por sinal eram curtos e duravam apenas uns 3 minutos na velocidade profissional de 24 quadros por segundo. As filmagens poderiam demorar dias ou mesmo semanas. Tinha que ser respeitado o tempo disponível de cada participante e a colaboração ou não de S. Pedro, é óbvio.

Em algumas realizações só terminei as filmagens após 2 a 3 meses de trabalho. Caso de "João Carnaval", "Lona Suja", "Gran Circo do Natal", "A Última Essência", "O Papa na Terra dos Irmãos João e Paulo" etc.

Na etapa seguinte eu assistia aos rolos filmados usando um bom projetor e os numerava. Era uma tarefa solitária. Daí partia para a etapa de edição. Manualmente, em outro equipamento, assistia a tudo de novo, rolo por rolo, cena por cena, e ia cortando os filmes em pedaços.

Bem, não se pode filmar sempre na seqüência exata do roteiro traçado, por vários fatores. Os verdadeiros cineastas conhecem isto. Esta etapa costumava durar alguns dias, até porque só me sobravam poucas horas à noite. De dia eu trabalhava na Direção Geral do Banco do Brasil.

Quando o original estava pronto, todo emendado com muito zelo, com muita técnica, mas artesanalmente, mandava aplicar a banda magnética em toda a extensão do filme. Firmas profissionais faziam este serviço. Seguia-se a tarefa, também árdua, de inserir o som, ou, os sons. Outro trabalho solitário. Ao projetor, que devia ser sonoro, juntava-se um equipamento de som, de onde viriam as músicas e alguns efeitos, quando era o caso, para fazer a mixagem.

Conforme o filme eu incluía narrativas (adivinhem quem era o locutor?!), ou mesmo diálogos, caso de "Lona Suja". Somava-se a tudo também um microfone, ou dois. Sim, porque os diálogos daquele filme, por exemplo, foram dublados apenas por mim, criei as várias vozes dos atores.

Eu punha as vozes em gravadores diferentes para depois juntá-las, tendo às vezes que acrescentar uma terceira que eu fazia no ato em que juntava as duas primeiras. Precisava dizer as mesmas palavras que os personagens haviam falado na filmagem, sem som. Uma dublagem complicada.

Quem chegasse e me visse desenvolvendo este trabalho, pensaria que estava ali um louco. Era mesmo uma maluquice, mas que eu fazia com muito amor. Aliás, nunca fiz nada em que o amor não fosse a mola mestra da motivação, além da temática que me fascinasse. Assim foi no super-8, na arte fotográfica, no rádio, nas aulas, no Banco do Brasil, na poesia e na prosa. Só escrevo poesia, por exemplo, quando ela brota da minha emoção. Não produzo por peso, quantidade ou encomenda.

Uma vez concluído o filme, mandava fazer cópias em laboratório profissional, como todos os realizadores. Cópias sonoras, claro. Depois era escolher os festivais para os quais enviar este ou aquele filme. O original ficava sempre comigo e ainda os tenho todos.

Comecei a conhecer bem de perto as garras da censura do autoritarismo. Já contei uma dessas aventuras em PRAZER, SOU A CENSURA. Alguns organizadores de festivais, porém, nem esperavam a ação do censor, eles mesmos já exerciam antecipadamente essa reprovação sobre alguns filmes.

Eu os odiava mais do que à própria censura oficial. Esta fazia o seu papel e a gente tentava driblá-la. Aqueles eram mais covardes, adeptos do capachismo, me provocavam asco. Conheci alguns. Geralmente visavam retirar filmes que apresentassem alguma crítica ou denúncia, que mostrasse desaprovação com aquele estado de coisas.

Muitos realizadores tinham o mesmo objetivo que eu, através de seus filmes. Quando vencíamos o crivo da censura conseguíamos alguns prêmios. Os melhores eu obtive no circuito universitário e em Centros Profissionalizantes.

Num desses, de grande prestígio, no sul, obtive o 1º lugar com "Lona Suja" no primeiro ano que lá compareci. No segundo ano deram-me o prêmio "Solidariedade Humana", pela mensagem do filme "Gran-Circo do Natal".

No terceiro ano… bem, aí surgiu uma professora, coordenadora, que era a negação dos princípios do magistério. Um exemplo "dignificante" do autoritarismo nacional então vigente. Vários filmes foram retirados, inclusive os meus 3. Eu só tomei conhecimento quando lá me encontrava e no dia da exibição das películas.

Repito que é muito bom saber que o cinema super-8 não morreu. Fazer cinema é muito diferente de fazer um vídeo. Há poucas semelhanças e muitas diferenças, com certeza.

Passei meus filmes para o vídeo, mas essa cópia perde bastante em qualidade. Tenho filmes guardados há 25 anos e a película está perfeita. As fitas de vídeos, que produzi muito depois, não têm durado mais que uns 5 anos sem ficarem cheias de fungo. Pois é.


(12 de outubro/2002)
CooJornal no 281


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm