25/10/2002
Número - 283

 

 

          

Francisco Simões

 

COISAS QUE INCOMODAM, E MUITO

Hoje eu pretendo me referir a fatos que presenciei e dos quais até participei que, em verdade, nos deixam pasmos, estarrecidos e, algumas vezes, indignados. Começarei pelos tais “pardais eletrônicos”. No trecho de apenas 10 quilômetros, entre S. Pedro da Aldeia e Cabo Frio há agora 4 deles. Antes havia só um.

Três estão em locais onde nem se pode desenvolver velocidade já que o piso está em mal estado, com vários buracos, lombadas irregulares, detalhes com os quais as autoridades deveriam se preocupar, visando à segurança dos cidadãos motoristas, mas preferem voltar sua atenção para a punição, toda que puderem obter, para aumentar suas arrecadações.

Sabemos que muitos brasileiros, ao volante, não são bons exemplos de cortesia, civilidade ou de respeito às leis de trânsito. Era de se esperar, portanto, que criassem e ativassem campanhas educacionais, permanentemente, pela TV, rádios e jornais. Isto é feito com muita freqüência em países da União Européia, inclusive em Portugal. Nossas autoridades priorizam o multar, o punir, em detrimento de orientar, de educar. Isto sim, é andar na contra-mão do seu papel principal.

O quarto “pardal eletrônico” está colocado na comprida e larga avenida de entrada em Cabo Frio, com pistas separadas, onde só há 2 sinais de trânsito, e é mesmo impossível se tentar atravessá-la a pé na maioria de sua extensão. Em vez de construírem passarelas ou instalarem mais sinaleiras preferiram a armadilha que possibilita à prefeitura aumentar sua renda. Lamentável.

Há cerca de 2 anos nós fomos multados ali por estarmos, segundo o DER, em “velocidade excessiva”, estando também assinalado no documento, em letras grandes, que cometêramos “FALTA GRAVE”, perdendo 5 pontos na carteira. Estávamos, segundo o registro da multa, a 47 km/hora... O limite imposto no pequeno trecho, da larga e imensa avenida, sem nenhuma razão que o justificasse, era de 40 km/hora. Pouco tempo depois alteraram o limite para 50 km/hora. E nós pagáramos a multa...
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Outro dia eu li, no jornal O GLOBO, a queixa de um leitor contra a Telemar. Isto não é novidade nenhuma, pois esta empresa é a recordista de reclamações no Procon, segundo tanto tem sido divulgado na imprensa. Mas, o leitor colocava sua fúria contra uma nova “estratégia” da Telemar, que, tentando valer-se de seus utentes, buscava neles uma espécie de “usuário-agente”. Achei quase inacreditável.

Ocorre que no dia 03/outubro, quando almoçávamos, tocou o nosso telefone. Do outro lado da linha uma jovem me disse: “Aqui é da Telemar. Por favor, o senhor conhece o seu vizinho Sr Fulano de Tal?” Na hora me lembrei do que lera uma semana antes. Então indaguei: “A senhora não vai me pedir para eu ir falar com meu vizinho que provavelmente esqueceu de pagar alguma conta, ou coisa parecida, vai?”

E ela: “Senhor, é que nós precisamos falar com ele, mas o número de telefone que ele nos deu está bloqueado.” Contive a irritação e até respondi com bom humor à jovem, que cumpria ordens superiores, claro, dizendo-lhe que eu jamais invadiria a privacidade de qualquer vizinho para fazer aquele papel.

Afinal a Telemar, quando percebe alguma irregularidade, como atraso de pagamento, escreve para os usuários. Este ou qualquer outro meio legal pode e deve ser usado, nesses casos, mas, pela Empresa. Querer se valer dos vizinhos, das pessoas, como seus agentes, é, no mínimo, ridículo. Como dizia Ibrahim Sued: “bola preta, Telemar.”
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Há uns dias atrás eu passeava com minha esposa, à tarde, pela Av. Visconde de Pirajá, aqui em Ipanema, como fazemos quando não estamos caminhando na orla marítima. Vínhamos nos aproximando da rua Aníbal de Mendonça. O tempo estava ameno e a tarde se encaminhava para um crepúsculo mesmo primaveril.

No meio da multidão de pernas, braços, celulares, cachorrinhos de todo tipo, carrinhos de bebê, vendedores ambulantes, pés apressados, íamos nós seguindo nosso caminho. Logo a nossa frente uma senhora comprara um picolé. De chocolate. Virou-se na nossa direção, retirou o papel que cobria o picolé e, sem nenhuma cerimônia, ou educação, simplesmente o largou ao chão, que estava bem limpo, por sinal.

Nem pensei duas vezes, cheguei bem perto dela e pedi-lhe licença. Ela parou, me olhou meio espantada e me viu abaixar, bem ao seu pé, pegar o papel, ainda úmido, com sobra do chocolate, e calmamente depositar o dito cujo numa caixa coletora que estava a menos de 2 metros da senhora em questão. Virei-me para ela sem nada dizer. Ela virou-me as costas, levando consigo sua silenciosa e má educação.

Três senhoras se aproximaram de mim e vieram dizer que assistiram ao meu gesto, e me cumprimentaram. Condenaram a deseducada cidadã. Como compensação, dois dias depois, em nossa caminhada na Vieira Souto, vimos dois garotos, entre 9 e 10 anos de idade, sozinhos, preocuparem-se em procurar uma caixa coletora de lixo, para nela depositar duas latas de refrigerantes. Nem tudo está perdido.
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De algum tempo para cá surgiram uns sujeitos, aqui em Ipanema, que usam a seguinte tática. Eles se aproximam de você, surgindo do nada, já com sorriso no rosto, esticando a mão e falando, com tanta convicção, que você pára e escuta: “E aí amigo, há quanto tempo, hein? Como vai a família? ... Não está se lembrando de mim? Não diga isso? Puxa, também faz mesmo muito tempo que eu não o via.”

Pegaram-me nesta uma vez. Parei, ouvi o sujeito falar e perguntei educadamente se ele não me estava confundindo com outra pessoa, afinal eu não lembrava dele, mesmo. Com a maior cara de pau, o simpático e envolvente sujeito disse-me:” Não leve a mal, sorria. Olhe, eu quero mesmo é pedir-lhe uma colaboração. Qualquer valor. Sou estudante universitário e as coisas andam mesmo difíceis, sabe? Sei que o senhor compreende.”

Com toda a “educação e simpatia” dele falei-lhe baixinho que saísse da frente e me deixasse seguir, por favor. Ele ainda tentou me envolver, mas agi com firmeza e fui em frente. Bolas, então é assim agora? Alguém, bem vestido, bem falante, nos aborda com qualquer argumento, não exibe nada que comprove a veracidade do que afirma, tenta nos levar na conversa para ganhar algum dinheiro, e fica por isso mesmo?

Eu encontro freqüentemente os mesmos dois indivíduos a “atacar” na Visconde de Pirajá, outros incautos. Praticamente todos os dias. Devem “estudar” à noite, certamente. Cerca de uma semana depois da minha abordagem, o mesmo sujeito veio a mim com a mesma conversa, pois não se lembrara da minha cara. Fui rápido: “Amigo, nem prossiga, já conheço o seu truque. Com licença”. Ele mudou o rumo e zarpou em outra direção, até com certa pressa.

A que pontos chegamos, amigos. Ajudar eu ajudo sempre, mas aqueles infortunados, marginalizados pela vida, que eu conheço por aqui. Tenho alguns que auxilio sempre que posso, mas são pessoas que, para além da miséria em que tentam sobreviver, ainda apresentam defeitos físicos. Principalmente os idosos. Mas, há sempre uns espertinhos a querer abusar da boa fé das pessoas. Ainda ante ontem os vi por aqui.
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Lembranças das eleições, primeiro turno. Enquanto a esmagadora maioria do nosso povo cumpriu com o seu dever de cidadania, buscou no voto o que julgava melhor para o seu Estado e para o País, alguns brasileiros e brasileiras me decepcionaram. Talvez tivessem até sido, como alguns dizem, “a voz de Deus”, quando repudiaram aquela fuga pela porta dos fundos, no Senado, dos senhores ACM, Jader e Arruda.

Aqueles três senadores deveriam responder por denúncias contra eles assacadas e que certamente os levaria à perda do mandato e ao impedimento de se candidatarem nas próximas eleições. “Dura lex, sed lex”, mas... Um absurdo terem ao seu alcance um meio que os fazia eximir-se de qualquer culpa e fugirem, com o rabo entre as pernas, pelo “direito de renúncia”. Um recurso legal, mas amplamente imoral.

Aí, boa parcela do nosso povo, votando na contra-mão da ética, da moralização da política brasileira, desta nossa ainda frágil democracia, decidiu devolver àqueles três senhores o assento no Congresso. Eles vão recolocar seus traseiros de volta em Brasília, no poder, e readquirir a inconveniente e indecorosa imunidade parlamentar, quando foram, no mínimo, suspeitos de algumas irregularidades. Ah, meu povo, me fizeste triste.

E a minha brava gente paraense, a quem eu apelei e disse acreditar que não tomaria tão impatriótica deliberação quando escrevi a crônica O ORGULHO DE SER PARAENSE, em outubro do ano passado, só me resta cumprimentar, pelo menos, aqueles que não pactuaram deste desonroso conluio. Aos demais, os meus pêsames.


(25 de outubro/2002)
CooJornal no 283


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm