09/11/2002
Número - 285


 

          

Francisco Simões

 

AOS PESSIMISTAS TUPINIQUINS

Estou me sentindo com um excelente bom humor, não obstante o que a vida anda me aprontando. Mas não tenho medo de cara feia, nem sou de ir a nocaute tão fácil. Tenho colocado, acima de qualquer medo, a minha esperança, a minha fé. Não fujo da luta, e tenho ao meu lado a maior força moral e espiritual que um homem pode ter.

Começo por aí para direcionar este assunto àquelas pessoas que estão frustradas, injuriadas, derrotadas, algumas até encolerizadas etc e tal. Não sabem perder, não querem respeitar regras, nem conceitos, nem a opinião de uma imensa massa humana que, democraticamente, decidiu mudar alguma coisa nesse país, mesmo sabendo que não espera milagres. Afinal, não elegeram um santo para Presidente da República.

Antes das eleições e mesmo agora, após o resultado indiscutível, indesmentível, das urnas, as mesmas pessoas repetem de forma cansativa, exaustiva, entediante, enfadonha, mensagens impregnadas de despeito, por sentirem, sei lá, seu amor-próprio ferido. Ferido, mas pela vontade popular que eles não conseguem respeitar.

Reprisam os mesmos assuntos, as mesmas “acusações”, algumas levianas agressões, enfim, sem nenhuma imaginação, ficam a girar em torno do mesmo tema, sem parar, sem se aperceberem que o tempo passou, que a eleição já terminou, que “Inês já é morta”, mas que o povo, soberano, está muito vivo, desperto e atento a tudo.

Certamente se consideram patriotas e, acima de tudo, até da lei, devem se considerar “democratas”. Repito, democratas, porém que odeiam a derrota num dos processos mais limpos e sérios de que já se teve notícia neste país. Processo que o próprio Fernando Henrique não se cansa de elogiar e de se vangloriar, com toda razão, de ter proporcionado. Foi uma magnífica festa da Democracia, com “D” maiúsculo, sim senhor, sim senhora. Até os mais pessimistas do exterior agora nos aplaudem.

Mas, os “eternos pessimistas” tupiniquins, esses estão soltando fumaça pelos ouvidos, sangue pelos olhos, e ódio por seus corações, num processo de hipertensão política. Gastam boa parte do tempo que têm de vida a digitar mensagens sem nenhuma novidade, sem nenhum criatividade, sempre visando atacar a pessoa que teve os votos de quase 53 milhões de brasileiros, eleitores.

Respeito senhores. Criticar é uma coisa, mas ofender é feio, vergonhoso, mal educado, indigno. Ademais, como exercer a crítica contra quem nem sequer ainda é governo? Nem lhe dão o direito de errar, como outros fizeram, e já o culpam, quem sabe, até pelo descobrimento do Brasil... Por favor, senhores, menos. Vamos baixar essa bola.

Já não emplaca mais essa história de misturarem as idéias do Presidente Luis Inácio Lula da Silva com os fios das barbas do Fidel. E a pecha de “comunista”!! Quanta bobagem. Desculpem, mas que outra palavra eu poderia usar para definir essa descabida e irresponsável assertiva? Ah, eu poderia usar ignorância? Claro, mas não me apraz descer ao mesmo nível daquelas mensagens.

Os governos da União Européia, de centro direita e de centro esquerda, foram unânimes em saudar, não apenas a vitória do Presidente Lula, mas o processo eleitoral brasileiro e a coragem e destemor de nosso povo. Até o Sr. Tony Blair, é, ele mesmo, que quando veio ao Brasil se recusou a ter encontro amistoso com Luiz Inácio Lula da Silva, não obstante o convite que lhe fora feito. Agora mudou de idéia. Pois é.

Percebe-se o desejo de todos em participar, em ajudar de alguma forma em vários dos projetos do novo governo brasileiro. Até o Sr. Bush fez manifestação calorosa, para além dos homens do BIRD e do BID, também se oferecendo para participar dos projetos sociais a serem implantados e aqueles que terão continuidade. Convites vários para o Sr. Lula visitar este e aquele país, inclusive os EUA. Dirão: “Mas ele não fala inglês!” Pergunto eu: “E o Sr. Bush, que outro idioma fala além do inglês?”

Todavia, os “eternos pessimistas” tupiniquins, que adoram uma eleição, desde que vença o candidato que melhor atenda aos seus interesses, lógico, passam a adotar uma estratégia bem clara de “quanto pior melhor”, ou, como outros chamam, “terra arrasada”. Logo eles que sempre acusaram o PT de ter este tipo de anseio!! Nada como uma eleição após a outra. “Oh vida, oh céus”, como diz o bichinho do desenho.

Houve quem me escrevesse tecendo preocupações, medos, e críticas, entre elas a de que o Sr. Lula deveria se preocupar em ter mais “postura de Presidente”. Quer dizer, reprovaram ele saltar do carro e abraçar pessoas. Sabe o que penso disso? Puro preconceito, puro elitismo. Me fazem lembrar daquele presidente que dizia ter “nojo do cheiro de povo.” Preferem afetação do que naturalidade, ou fingimento do que sinceridade. E desta vida não vão levar nada, nem a pose.

Imagino que muitos dos que hoje se dizem “preocupados” com a vitória do PT, já votaram, em 1989, no Sr. Collor, o falso caçador de marajás, que afinal cassou foi a nossa suada poupança, matando muitos do coração. Onde se esconderam depois? Cumprir todas as promessas feitas em campanha, nem o senhor FHC, com todo o apoio político que teve, conseguiu.

Ainda outro dia ele admitiu isto, honestamente, em entrevista na TV Globo. Só discordo quando ele joga a culpa na oposição. Ora, ele tinha maioria folgada no Congresso, com todas as alianças que costurou. Alguns aliados dele é que dificultaram a aprovação de importantes reformas, as quais o Lula vai ter que se empenhar a fundo para conseguir aprová-las agora. A oposição era minoria e não tinha força para derrubar absolutamente nada, ainda que votasse contra, em bloco.

Sabemos que a herança deixada agora para o PT é muito pesada, daí a necessidade, se realmente formos todos patriotas, de nos unirmos neste pacto nacional posto na mesa pelo Presidente eleito. Caso contrário, se ficarmos a puxar para trás ou para o fundo, com certeza poderemos nos afogar todos, devidamente separados. Nota-se boa vontade de todos os setores de nossa sociedade, até da FEBRABAN e da FIESP.

Portanto, senhores “pessimistas tupiniquins”, por favor, juízo, respeito e coerência, sim? Procurem fazer algo de útil pelo seu país em momento tão complicado e difícil. Não querem somar? Tudo bem, mas poderão se arrepender amargamente ao longo do tempo. Pelo menos aguardem, para depois, se for o caso, expelir o seu veneno. Mas, procurem ao menos ser justos, e não radicais e parciais ao extremo.

Vou encerrar citando palavras do jornalista Eduardo Rocha Azevedo, na revista Carta Capital, de 30.10.2002, à página 19: “Não se deve subestimar, com prepotência, a virtude humana de rever conceitos, aprender com os próprios erros e evoluir no campo das idéias e das propostas. Assim – ao contrário do que alguns propagam e do que muitos temem -, não há qualquer contradição no discurso da campanha eleitoral do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva”.

“O fato de ter, como Lincoln, origem humilde e currículo de operário não lhe tira a oportunidade de vir a ser um verdadeiro estadista. (...) Não é lícito e sequer inteligente disseminar o pânico e prejulgamentos sobre o novo governo.”

Sem mais comentários.



(09 de novembro/2002)
CooJornal no 285


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm