16/11/2002
Número - 286


 

          

Francisco Simões

 

NO VÔO DOS PASSOS

Eu quero convidá-los, mais uma vez, a se juntarem a mim na visão que lhes passarei deste fim de tarde maravilhoso de domingo, dia 03.11.2002. Ao sol, 30 graus, mas o vento nordeste amenizava a temperatura ambiente. Terceiro domingo de primavera. Eram 17:10 horas, horário de verão, quando iniciamos mais uma caminhada.

Dizer que a praia de Ipanema fervilhava de corpos, de alegria, de poesia, de amores que se haviam encontrado e outros em busca da realização deste sentimento que enleva e dá sentido maior à vida, é repetir o óbvio. A felicidade se irradiava de sorrisos, abraços, beijos, se diluía em gotas de suor, se espargia nos variados sons que dominavam o éter e marcava o ritmo de nossos passos.

De longe nos chegava a música deliciosa de um sax que dividia a composição com um piano e um violão. Aproximamo-nos e percebemos, ao lado de um veículo estacionado, duas caixas de som e um senhor tendo na mão um bonito sax dourado. Ele conversava com 5 pessoas. Decidi deixar para falar com ele no retorno do Arpoador.

Seguimos em frente, nos divertindo com as tentativas de “contato imediato” dos cães. Não importa o tamanho, dificilmente algum deles, ou delas, dispensa aquela cheiradinha amistosa impregnada de muita curiosidade. Hoje, pode-se dizer que, durante as caminhadas, aos domingos especialmente, é forte a concorrência entre os humanos e os caninos. Grandes, pequenos, lindos, bonitos, outros menos, mas feios não os há. Talvez porque gostamos de todos.

Aceleramos um pouco mais e lembrei-me de alguns anos passados. Éramos bem mais novos. Eu tinha o hábito de marcar nossos tempos em pequenos cartões, fosse em 100 metros, numa arrancada, ou 500, numa esticada, ou a cada quilômetro, e também a caminhada inteira. Brincávamos de competir e assim conseguíamos baixar os tempos nos dias subseqüentes. Era uma vitória a seguir a outra. E comemorávamos.

Um dia mostrei ao nosso médico, Dr. Carlos de Faria, homeopata, alguns cartões. Ele olhou e sorriu. Ficou mesmo surpreso com os tempos. Éramos mais novos, porém já tínhamos mais de 50. Hoje trocamos a competição pelo simples prazer de andar. Quando sentimos que dá para ir mais rápido “ligamos o turbo” e aceleramos, porém sem todo o empenho daqueles tempos, claro.

Outro som veio em nossa direção. Música popular brasileira da melhor qualidade. O curioso: tratava-se de um imenso latão de lixo, todo pintado de novo, com 3 possantes caixas de som instaladas no seu interior. Dois rapazes, vestidos como garis, com a roupa da mesma cor do carrinho, conduziam alegremente aquele som ambulante. Logo mais adiante repetiu-se a mesma cena, e a seguir, novamente.

Quando alcançamos o quinto “latão sonoro” não resisti á curiosidade e fui indagar do que se tratava. Afinal as eleições já haviam passado, mas também certos candidatos jamais teriam um gosto musical tão apurado para justificar aquela seleção de MPB como raramente se ouve. Fiquei sabendo, por um dos rapazes, tratar-se da divulgação de um espetáculo teatral que iria se realizar dias depois. Daí serem vários latões.

Realmente na roupa dos jovens estava escrito: “RioCenaContemporânea”, que, em verdade estaria ressurgindo no Rio de Janeiro a partir da semana seguinte trazendo peças teatrais, inicialmente com “Hysteria”, vinda de S. Paulo e “Os Camaradas”, vinda de Blumenau. Extensa reportagem saiu no “Segundo Caderno” de O Globo no dia 09 do corrente.

Aquele fim de tarde prometia muito e parecia caminhar (desculpem o trocadilho) para um festival de cores, alegria, beleza, exercícios e música, muita música.

Quando já ultrapassáramos a “fronteira” do posto 8 e íamos entrar pelos limites do Arpoador outra surpresa. Eis que o ar se encheu de uma batucada afro, daquelas irresistíveis ao mais indiferente dos mortais. Era mesmo de balançar as cadeiras até dos espíritos que por ali certamente também vagueiam, já que o pôr-do-sol que ali ocorre é um devaneio para este e para tantos outros mundos que se achem à volta de nosso plano físico.

Cinco homens e duas mulheres usavam com maestria seus instrumentos. Parecia que nos transportáramos, momentaneamente para Salvador, Praia da Barra ou Farol, ou qualquer recanto daquela linda cidade onde há sempre música no ar, e a brisa volteia acompanhando as notas e os ritmos, escritos no espaço, por poetas da pauta, do amor e da cultura que preservam unindo o passado ao moderno.

Como sempre digo, a rua é mesmo a república do povo, a democracia sem políticos e/ou politicagem, onde tudo é permanente e provisório. Ali estamos nivelados no anseio geral de viver, sem contestações, sem polêmica, sem conceitos pré fabricados, onde a individualidade se impõe democraticamente.

Já no Arpoador reencontramos aquele professor de Shyatisu a aplicar sua técnica em benefício do relaxamento total de uma cliente, sobre uma prancha. Os inúmeros ambulantes a vender seus trabalhos artesanais elaborados sobre variadas matérias primas. Ao contornarmos o final da calçada percebemos que o mar ainda mantinha ali inúmeros surfistas no seu bailado em cumplicidade com as ondas.

À nossa direita, a Praia do Diabo era batida por um mar mais agitado. Um policial ouvia um jogo pelo rádio de pilha. Gritaram goal. Alguém perguntou: Foi do Fluminense? O policial confirmou. Zezé vibrou, pois seu coração tricolor já há algum tempo não consegue uma alegria maior para comemorar. Mas, agora parece que vai.

Fazíamos então a caminhada de volta ao posto 10. O sol ainda se mantinha alto, mas já lançava olhares para o Morro Dois Irmãos por onde logo trataria de se esconder para não o vermos bocejando. Educado e vaidoso, o nosso astro-rei. Na volta nossos passos sempre ficam mais rápidos, é natural. Logo estávamos novamente em frente àquele cidadão do sax dourado que falei acima.

Fomos até ele e soubemos chamar-se Sangar. É gaúcho, funcionário público e, estando de férias por aqui, aproveitava para divulgar seu trabalho. Já tem 2 Cds gravados de forma independente. Ele vive em Sarandi (RS). Confessou ter-se espantado com o interesse das pessoas pelo seu som, já que não imaginava que na terra do samba, e com a vida agitada daqui, tantos comprassem sua música relaxante.

Comprei um dos Cds do Sangar e não me arrependi. Eu o estou escutando neste momento em que escrevo. Foi justamente da faixa de número 6, “No vôo das Luzes”, que acabei me inspirando para o título desta crônica. Sou um fã ardoroso de música instrumental.

Já nos encaminhávamos para o posto 10, nossa “faixa de chegada”, quando não esticamos a caminhada até o Leblon, e ouvimos as sirenes de 3 carros da polícia vindo em nossa direção, pela via liberada somente aos pedestres todos os domingos e feriados. Nossos relógios marcavam ainda 18:10 hs e o sol insistia em manter-se bem aceso. Por que então a pressa em já devolver ao trânsito o espaço a nós destinado?

Bem, naquele domingo começara o horário de verão. Todo ano, enquanto prevalece esse horário, a faixa dos pedestres só é novamente tomada pelos veículos a partir das 19 horas, o que equivale, verdadeiramente, às 18 hs normais. Ora, alguém pisara na bola, e feio. Alguém da Prefeitura, com certeza. Tomou-nos uma hora.

Houve uns poucos protestos, inclusive os nossos, mas que de nada adiantavam, apenas marcamos uma posição para ver se o tal “alguém” acorda de seu letárgico sono da displicência funcional e não repete o equívoco no próximo domingo.

Então o jeito foi mesmo aterrissarmos do nosso “vôo dos passos”. Vôo sim, porque há momentos, durante nossas longas caminhadas, em que nossas sensações mergulham em nossas mentes e carregam nossa atenção, nosso realismo, como que para planos e/ou dimensões extra físicas. São instantes de autênticas viagens.

Alguns poemas, algumas crônicas, tiveram sua fecundação, seu embrião de criação, nesse tempo de “vôo” de nossa imaginação. Quando vamos à praia em Cabo Frio, costumo carregar comigo um mini gravador. Assim não perco eventuais insights, mas os desloco do “vôo dos passos” para a minúscula fita cassete.

No retorno à casa uma parada para comprar uma pizza diferente daquela que habitualmente fazemos. Até a próxima caminhada.


(16 de novembro/2002)
CooJornal no 286


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm