30/11/2002
Número - 288


 

          

Francisco Simões

 

PÉROLA DO ATLÂNTICO

Já contei que no ano de 1947, tinha eu 10 anos de idade, quando viajei para Portugal junto com meus pais e os irmãos até então nascidos. Outros chegaram depois, para completar um total de 10. Nosso destino final era o porto de Leixões, na cidade do Porto. Antes, o navio inglês “Hilary” fez uma parada em frente à Ilha da Madeira. Digo “em frente” porque naquele tempo os navios ancoravam ao largo da Ilha.

Recordo-me que vinham de terra inúmeros barcos trazendo rendeiras. Elas obtinham autorização para subir e estendiam seus belos trabalhos pelo convés. E faziam boas vendas. Vinham também uns jovens que subiam ao ponto mais alto do navio e propunham o seguinte: as pessoas deveriam atirar moedas ao mar e eles, após belos e corajosos saltos, mergulhariam fundo nas límpidas águas do atlântico e procurariam recuperá-las. Não falhavam nunca.

Todos aplaudiam e os jovens acabavam ganhando sempre um pouco mais do que o valor das referidas moedas. Barcos nos levaram até a Ilha. Na minha memória guardo parte dos incríveis passeios que fizemos de automóvel, sempre a subir, até o topo da Ilha. Eu, fascinado com tudo aquilo, empanturrei-me com cerejas, deliciosas cerejas, na subida e também na descida. Estávamos todos felizes, saíamos do Brasil pela primeira vez para viver um ano em terras portuguesas.

Sei que minha memória de criança não poderá lhes transmitir toda a beleza dos cenários da Ilha da Madeira, como eu gostaria, nem oferecer-lhes detalhes com a riqueza necessária para pintar-lhes, com palavras, um quadro, o mais autêntico possível, da “Pérola do Atlântico”. A partir daqui a narrativa correrá a 4 mãos, com a parceria da querida amiga e excelente poetisa portuguesa, Laura Martins. Eu me valerei de mensagem que ela me enviou, na qual oferece uma descrição pormenorizada da Ilha, com uma visão, inclusive, bem atual.

Ela esteve lá recentemente. Enquanto eu visitei a Madeira aos 10 anos de idade, a boa amiga Laura lá foi, pela primeira vez, neste ano de 2002, com uns poucos aninhos a mais do que eu tinha há época, pois. Acompanhemos as palavras de quem tem muita sensibilidade e uma intimidade maravilhosa com a poesia.

“A beleza dos dois parques naturais e dos jardins Botânico e Tropical. O silêncio sempre cortado pelo ruído da água que corre em toda a ilha. Jorra água de tudo quanto é sítio. As levadas (são canais de água feitos pelo homem, para canalizar a água pelos locais que precisam, é uma rede que cobre toda a ilha, embora ela brote natural por todo o lado). As cascatas e cachoeiras, também estão por toda parte. Tem estradas onde o carro fica lavado porque a água cai em cascatas sobre elas.”

“Estradas abertas na rocha, uma rede de túneis e pontes como eu nunca vi, tantas são. É a única forma de ligar toda a ilha, porque a serra é feita de inúmeros precipícios, montes e vales, pelo que seria muito difícil circular sem essas pontes e túneis. Tem um único planalto, digno desse nome, o Pico do Areeiro. Nesse dia estava encoberto, ventoso e com uma temperatura de 4 graus. E nós de t-shirt porque cá em baixo, de onde saíramos, estava 25 graus.”

“A temperatura da ilha, durante o ano varia entre os 18 e os 25 graus. Lá, quando neva, de seguida vem um pouco de sol e a neve derrete. Fizemos as 4 estações do ano num só dia, em 2 das excursões. O jardim Tropical tem um palacete esplendoroso. Há igrejas espalhadas por toda parte e nos lugares mais incríveis.”

“Toda a ilha é atravessada por estradas e uma bem organizada rede de transportes. Ficamos boquiabertos quando vemos estradas tão íngremes e estreitas onde não cabem 2 autocarros (ônibus) lado a lado (quando se encontram, um deles recua para o outro poder passar). Na ilha, autocarros e automóveis, quando não cabem no mesmo caminho, recuam até encontrar um mirante (lugar para ver a paisagem e onde a estrada alarga para fora, sobre precipícios imensos).”

“Mas os mirantes são aos milhares. Você nem sabe o que é recuar um autocarro nessas estradas. Eu até tremia!!!! E pensar que aquilo é o dia a dia deles. Sabe que ainda arranjam espaço para estacionar nessas mesmas estradas? Sair de casa e/ou entrar nela, já dá direito a um seguro de vida, porque quando eles abrem a porta ou portão passa-lhes um autocarro bem rente.”

“Tudo quanto é parede com esquina e curva está riscado e esfolado. Eles dizem que não é difícil porque quando não cabe, bem, aí o carro encolhe... Em toda a ilha encontram-se centenas de transportes urbanos, carrinhas de 9 lugares, táxis e automóveis. Tudo a funcionar em pleno durante todo o ano e a cobrir a ilha por inteiro, dia e noite. As estradas são a pique com inclinações nunca vistas e curvas em cotovelo. A gente tira fotos do lado de cá, depois de fazer a curva, porque fica mais fácil. Reparamos no que queremos fotografar aqui e... depois da curva... zás! É só disparar e fica bom.”

“Eles fazem as casas fora da estrada, assentes na rocha e começam de baixo para cima. Quer dizer que o telhado da casa ficaria ao nível da estrada, se houvesse telhado, mas não há. Há uma placa reforçada porque é aí que eles guardam o carro e serve de garagem. Quer dizer: eles vêm na estrada e arrumam o carro direitinho, saindo dela para um quadrado de 3x3, mais ou menos, onde cabe só um carro. (os mais finórios colocam um toldo e um varandim em ferro). Dá para acreditar? Tudo pendurado num precipício?”

“Desse terraço desce uma escada estreita, que vai para baixo, para o interior da casa. Quando se chega a uma janela, temos um ataque de coração porque está, a pique, a uma altura que pode variar entra os 10 e os 1.000 metros, sobre um precipício. Sinceramente, só vendo. Quando inquiridos sobre isso, os Madeirenses respondem que tinham que morar nalgum sítio e era onde havia espaço. (Eles consideram que aquilo é espaço!...........)”

A colaboração da amiga Laura Martins foi ainda mais além dessa beleza de narrativa, e de versos que os amigos conhecerão mais à frente. Mandou-me um bonito documento oficial com fotos maravilhosas e dados, dos quais agora eu lhes passo alguns. A Ilha da Madeira, tem sido muitas vezes designada de "Pérola do Atlântico", "Ilha dos Amores", Éden ou Paraíso.

Toda ela constitui um Parque Natural com os seus 728 Km2 de superfície (57 Km de comprimento E-O e 22 Km de largura NS) ao conservar mais de 700 espécies de plantas superiores, sendo 100 delas, endêmicas, (não se vêem em mais nenhuma parte do mundo). A sua maior altitude é o Pico Ruivo (1862 m). A população total da Ilha é, aproximadamente, de 260.000 habitantes. Destes, 120.000 vivem na capital, Funchal.

O Arquipélago da Madeira está situado no Oceano Atlântico distando apenas 500 Km do continente Africano e 1000 Km de Portugal Continental (1h30m de avião de Lisboa). Para além da ilha com o mesmo nome, o Arquipélago é composto pela Ilha do Porto Santo (Ilha Dourada) a 90 Km NE do Funchal); pelas Ilhas Desertas (apenas 3 ilhotas inabitáveis - Deserta Grande, Bugio e Ilhéu Chão, a 20 Km SE do Funchal) e pelas Ilhas Selvagens, que constituem uma reserva natural, a 280 Km do Funchal.

Considerado um dos climas mais suaves de todo o mundo (17, 5ºC de temperatura média anual) bem como a moderada temperatura das águas do mar (influência da corrente quente do Golfo), a Ilha da Madeira é sem dúvida o lugar perfeito para relaxar. Uma das especialidades gastronômicas é a "espetada" - são utilizados espetos de madeira de loureiro onde pedaços de carne são grelhados na brasa acompanhados de vinho tinto e pão caseiro ou de bolo do caco com manteiga de alho. Os tão mundialmente famosos vinhos da Madeira são o ideal para tomar como aperitivo.

Bem, ficasse eu a lhes fornecer mais informações do documento oficial sobre a Ilha e esta crônica acabaria por se estender demais. Quem desejar conhecê-lo está à disposição. Mas, prefiro agora voltar à amiga Laura Martins. Deliciem-se com esses versos que descrevem parte de suas aventuras na Madeira:

“Andei pelas veredas e caminhos / de entrelaçados troncos, tão fininhos, / das urzes que imitavam vedações. / Subi, desci de serra, Encumeada; /  de mochila, a máquina assestada, /  em cada dia passavam 4 estações.
Desci em lindos cestos lá do Monte, / visitei os jardins que são defronte, / depois... onde os seus mortos enterravam: /  havia cruzes, flores, da minha altura, /  quase a 300 metros, com ternura, /  na Quinta dos Calados lá ficavam.
As flores, trouxe tantas nos meus olhos... / que ainda hoje os fecho e aqueles /  molhos / recordam arco-íris que vivi. / O teleférico, bati palmas ao vê-lo; /  quiseram lá levar-me, com desvelo, /  mas tive tanto medo... e não subi.
Subi a pé, à Eira do Serrado, /  mais de 1.000 metros abaixo, encastoado, / foi o Curral das Freiras que avistei. /  Os guias contam histórias caricatas /  da fuga de mulheres, freiras, piratas, /  e a Ilha da Madeira mais amei. “

Os cestos a que se refere Laura, são imensos, e neles cabem até 3 pessoas. Dois homens acompanham a descida do cesto com turistas dentro, para não permitir que o mesmo se desgoverne. É uma sensação diferente, não resta dúvida, a descer tantos metros, em estrada estreita, a deslizar dentro do cesto e a ver o mar lá abaixo como se fosse o cesto lá mergulhar. Realmente só passando por esta experiência.

Vou encerrar com uma natural homenagem à amiga Laura Martins, usando mais uns versos de outro poema com que me presenteou:

“Com estradas, pontes e túneis, / eles rasgaram a terra; / os madeirenses, mudaram / toda a paisagem da serra. /  É o viver desta gente / que, com imaginação, / conseguiu cultivar onde / era só inclinação.”

Francisco Simões (A quatro mãos, com a poetisa portuguesa Laura Martins)


(30 de novembro/2002)
CooJornal no 288


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm