14/12/2002
Número - 290


 

          

Francisco Simões

 

A FOME SEM NATAL

Já estamos nos avizinhando do Natal, quando mais uma vez comemoraremos o nascimento de Cristo. Alguns terão, com certeza, a felicidade de ver reunida toda a família numa noite festiva de celebrações, presentes, não faltando a mesa farta, bem à moda natalina, e o natural presépio ao lado da árvore de Natal.

Outros só poderão se dedicar a uma comemoração mais singela, menos faustosa, menos pomposa, mas certamente imbuídos do mesmo espírito de fé, da mesma alegria que celebriza a vinda ao mundo do nosso Salvador, Jesus. E outros, bem, esses apenas sabem que é Natal.

Alguns desses personagens eu descrevi na minha poesia “É Natal”, escrita em dezembro/1998. Referi-me a Maria, José e Jesus como três pessoas que vivem à margem da sociedade não por uma opção individual, mas pelos desígnios do destino ou como vítimas de uma sociedade injusta e doente que muitas das vezes prefere ignorar suas chagas, fazendo de conta que não as vê, que também não é responsável, que a si nada daquilo diz respeito.

Recordo que ao descrever Maria, a certa altura uso esses versos: “Ela ouviu a história / Dos bondosos Reis Magos, / Eles passam pra lá, / Eles passam pra cá, / Sem mirra, incenso ou ouro. / Para ela são Reis Magos / Que não lhe dão afagos, / Que não lhe dão presentes. / Nada ouvem por mais que peça, / Pois toda aquela gente / Leva nos pés muita pressa.”

Quando falei sobre José, ou o Zé, lá da Praça, lembro-me que usei também, entre outros, esses versos: “Ninguém conhece o José, / José não conhece Belém. / A árvore de Natal na praça / Para José não passa / De uma alegria iluminada / Que pisca e pisca pra ele, / Que pisca e pisca, mais nada.” José andava a esmo, sem fazer mal a ninguém, e também sem nada pedir. Ele falava só com os pássaros, que nem São Francisco.

O terceiro personagem por mim descrito foi Jesus. Os três eram figuras permanentes na Praça N. Sra. Da Paz e na porta da Igreja, da mesma santa, em Ipanema. Jesus tinha apenas 10 anos. Dele escrevi no correr de outros versos: “Ele não tem segredos / Apenas certezas miúdas / E muitas mágoas graúdas / Que esmagam a criança / E constroem sua cruz. / A boca gelada de silêncio, / Silêncio que grita mais alto / Que a voz das passeatas, / Que esconde o seu medo. / Escolaridade: mendicância.”

Relendo hoje o artigo do jornalista Mauro Santayana, de 01.11.2002, a mim enviado pelo amigo Cláudio Tollendal, também de Cabo Frio, quero aqui registrar 2 trechos daquele documento. O primeiro parágrafo, segundo o autor, refere-se a sua colaboração ao falecido presidente Tancredo Neves, seu amigo, na redação da menção aos excluídos do processo econômico, à época. Nele o autor diz:

"Nas grandes cidades, são esmagados pela recessão econômica e assistem, sem poder reagir, à desagregação da família que é o único bem dos pobres. Onde não há trabalho, não há pão, e as migalhas, acaso obtidas Deus sabe como, são sempre molhadas com as lágrimas da vergonha.”

Mais adiante, no corpo do mesmo artigo, Santayana afirma: “A fome é a suprema humilhação a que os seres podem ser submetidos, porque é a negação da vida, e dá aos que a sofrem, a dolorosa constatação de impotência.” ( ... ) “Há duas formas sociais de combater a fome. Uma delas é a da esmola, que, ao oferecer a comida, retira a dignidade. A outra é a de conferir, ao mesmo tempo, a comida e a dignidade – essa é a do trabalho.”

Diante da realidade brasileira atual que não pode ser sofismada, considerando as dezenas de milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da miséria, outros em penúria total, entende-se que há muito que fazer pelo novo governo, o que não conseguirá sozinho, mas com a participação de toda a sociedade. Felizmente está havendo uma grande conscientização de que o problema é afeto a todos nós, brasileiros e brasileiras, independente de cor partidária, mas que amamos este país.

Fora dessa linha de pensamento e ação será trabalhar contra, será mesmo falta de sentimento cristão. Se juntos teremos uma tarefa muito grande para tentar minimizar ao máximo o problema da fome no Brasil, se agirmos com indiferença, insensíveis a esta situação que por anos os governos permitiram chegasse ao vulto atual, com certeza, como eu já disse outro dia, afundaremos e naufragaremos todos devidamente separados.

Aproximando-se o Natal, a festa máxima da cristandade, que cada um estenda sua mão, ponha o seu coração no amor ao próximo (e como os há, tão próximos de nós), e doe um pouco de si para minorar mais um Natal com fome dos excluídos de Papai Noel. Refiro-me não apenas a crianças carentes, mas a famílias inteiras.

Nós vivenciamos esta experiência, com muita força, ano passado em Cabo Frio ao participarmos ativamente da realização, junto com o nosso “bom velhinho”, o Márcio, nosso sobrinho quase filho, do Natal para crianças pobres. Ele já realiza este trabalho há alguns anos no subúrbio aqui do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que levamos o evento à Cabo Frio. Uma tarefa meio solitária e solidária de poucas pessoas.

Imaginávamos algumas dezenas de crianças carentes e acabamos por receber algumas famílias inteiras, especialmente mães. Os pezinhos descalços, as roupas que sequer conseguiam cobrir todo o corpo da maioria dos meninos e meninas, os olhares de ansiedade e expectativa de todos aqueles seres que ordeiramente aguardavam para receber apenas brinquedos, convenceram-nos a mudar este ano o nosso planejamento.

Além dos brinquedos, que as crianças sempre esperam receber, e de uma palavra de carinho, de atenção, decidimos que será importante o nosso Papai Noel, o Márcio, distribuir também alimentos. Ano passado foi fácil perceber a presença da fome, de muita fome, e de uma carência quase total nos que lá compareceram. Foi difícil conter a emoção durante e mesmo depois do encontro.

Reestruturamos o nosso esquema, aumentamos as doações, e convidamos mais alguns amigos a participar. Jamais deixamos de contar com a solidariedade de várias pessoas. Poucas que sejam, têm ajudado muito, mas muito mesmo. Que Deus as abençoe e proteja sempre as suas famílias.

A casa de nossa amiga, D. Geralda, um espírito elevado que veio ao mundo apenas para ajudar as pessoas, está sempre aberta para essas realizações. Ela participa também ativamente junto conosco. É um local apropriado porque está mesmo no centro de uma grande população carente da cidade.

No domingo, dia 22 de dezembro, o nosso Papai Noel, sem renas nem trenó, estará pousando novamente em terras cabofrienses. Relembro aqui alguns versos da poesia que escrevi, ano passado, após o evento acima referido:

"Lá vai ele outra vez / Levando nas costas a alegria / Doando a todos o seu dia / Sem renas, sem trenó / Cumprindo um destino só / Um D. Quixote natalino / Sem cavalo, sem Sancho Pança / Sua lança é a esperança / Seu amor são as crianças / Pois ele sente em cada menino / Quem sabe, um Jesus pequenino / Que não quer ver crucificado."

"No peito ele carrega um cofre / E nele um tesouro: bondade / Que transmite num sorriso de luz / Que enxuga lágrimas, limpa o pus / Que adota tanta orfandade / Que mente para a verdade do mundo / Plantando em minutos, em segundos / O que a vida nem sempre dá: felicidade."

Já que não podemos fazer milagres, fazemos pelo menos a nossa parte, ou seja, um pouco, muito pouco mesmo, para uma carência imensa que povoa este país. Aquelas famílias não deverão ter um Natal com fome, assim esperamos, e as crianças, quem sabe, poderão continuar acreditando em Papai Noel, porque ele se lembrou delas, porque ele as visitou, abraçou e beijou, novamente, numa cumplicidade de sorrisos de quem doa para com quem recebe.

Nossos antecipados votos de Feliz Natal para todos, já que estarei entrando em um período de “férias” de mês e meio, pois 2002 foi, para nós, um ano atípico e desgastante, e há que refazer energias e reacender a fé para o Ano Novo de 2003.


(14 de dezembro/2002)
CooJornal no 289


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm