08/02/2003
Número - 301

 

 

          

Francisco Simões

 

ERA UMA VEZ...

Vamos começar essa história assim: era uma vez..... Era um garoto, não como eu, pois ele não devia amar os Beatles e os Rolling Stones. Certamente que não.

Quando criança, sua brincadeira favorita era viver a fazer: ra-ta-ta-ta, ta-ta..... ra-ta-ta-ta-, ta-ta.... nos intervalos: bummmmm..... e tome bummmmm..... grande garoto!!

Nasceu em berço de ouro, mas ouro de pelo menos três cores diferentes. Alguns crêem que, muito tempo depois, a cegonha que o pôs no mundo acabou por suicidar-se. Talvez a cegonha fosse visionária.

Seus pais sempre lhe dedicaram extrema atenção e carinho, exagerando, porém, na dose do mimo. Acostumado a ter tudo do bom e do melhor, cresceu também tendo sempre razão. Ninguém em casa ousava lhe dizer “não”. Mal sabiam que estavam a criar alguém, que mais tarde, poderia ser classificado como um ser “aborrescente”. Isso em sua juventude, porque como adulto, ele seria muito pior.

Contam alguns que aquele garoto nunca se sentiu confortável quando teve que sentar nos bancos escolares. Talvez já desenvolvesse algum processo alérgico ou seu intelecto não tivesse uma relação satisfatória com a intelecção necessária para o aprendizado. Era, digamos, um arbusto que não deveria crescer muito.

Uma coisa era irretocável no correr de sua trajetória estudantil: a sua performance coerente, a sua harmonia conceitual, no que tangia às notas obtidas em classe. Havia um constante e inarredável nivelamento, segundo historiadores, na letra “c”. E olhem que o escolágio desembolsado por seus pais o garantia nos melhores estabelecimentos.

O desânimo familiar era evidente, pois nutriam grandes vôos para o seu rebento. Sonhavam que seguisse os passos do genitor, mas aquele arbusto não se desenvolvia a contento. Com muito esforço e pouco entusiasmo o nosso garoto foi superando obstáculos. Só Deus sabe como, e como! Naquele reino acreditavam em Deus. Para alguns, porém, havia outro Deu$, e este operava inúmeros milagres!

Quando jovem, o nosso ex-garoto ria, com certo tom de desprezo e desdém, da preocupação de outros jovens para com o futuro. Esses não haviam nascido em berço de ouro, como ele, ainda mais ouro de três cores diferentes. Mas seu futuro estava garantido, visto que seu genitor era homem de grandes recursos e influências tantas.

O nosso ex-garoto ultrapassava as fronteiras da puberdade e seu pai, preocupado com os afazeres nos meandros da estrutura gerencial do reino, decidiu estimular no filho o gosto pela labuta. Este não mostrava grande predisposição para tanto esforço, mas teve que assumir a responsabilidade de comandar alguns interesses de família, de onde se originava uma das cores do ouro de seu berço natal.

Nosso ex-garoto, com tanta salvaguarda paterna, jamais correria o risco de ser um borra-botas, um beldroegas, um mequetrefe, ou, com licença da palavra, um berdamerda. Não se assustem, é apenas uma forma de retratar a expressão joão-ninguém. Isso ele não corria mesmo o risco de ser um dia.

À frente dos negócios familiares, ali plantado por seu genitor, logo mostrou não possuir habilidades nem qualificações para os conduzir com inteligência e perícia. Até aí a sorte bafejou o nosso ex-garoto. Desde os tempos de seu avô, seus parentes já mantinham fortes laços de família com seres de outra linhagem que tinham sua origem em terras bem distantes, do outro lado daquele planeta.

Por coincidência, também essa gente possuía os mesmos interesses, digamos, de comércio, além de igualmente terem nascido em berços de ouro, também de três cores. Logo a velha amizade teve um impulso ainda mais forte e um dos integrantes desse outro clã, alto, magro, meio calado e esquisito, mas inteligente e muito esperto, estendeu a mão ao nosso ex-garoto que assim não naufragou as esperanças de seu pai.

Pessoas de origens não coincidentes, de religiões totalmente diferentes, porém cujos interesses se assemelhavam até na visão de cada um em obter vantagens do outro, numa troca de favores que acabou indo muito para além de meros negócios do mercado. À altura, o genitor de nosso ex-garoto se viu envolvido em conflitos com outros reinos, alguns dos quais vizinhos das terras originárias daquele clã.

O novo amigo foi muito útil. Em certo caso, foi decisivo mesmo. Diz o ditado que “uma mão lava a outra”, embora naqueles fatos e acontecimentos a mão estivesse muito mais em apenas uma direção, tipo mão única. Amaso, o novo amigo, aceitou a tarefa de ajudar o pai de nosso ex-garoto, em difícil missão contra o maior rival do reino que comandava. Mostrou-se um grande líder e bravo guerreiro. Reuniu tropas, lutou e venceu o conflito. Acabou por se instalar como rei naquela terra, também distante, com o apoio do genitor de nosso ex-garoto.

Nesse tempo, o menino das notas “c”, do mau gerenciamento de interesses familiares, era então guindado também a funções da máquina política do reino. Galgou postos, destacou-se junto com amigos egressos da fase em que geria, ou mal digeria, interesses familiares, mergulhou nos meandros da politicalha, alargou seus horizontes à sombra paterna. Logo mostrou ser adepto do lema: “o fim justifica os meios”.

E o nosso ex-garoto, não como eu, pois não devia mesmo amar os Beatles e os Rolling Stones, acabou por ser alçado ao posto maior do reino, fato até hoje muito contestado pelos escritos da época. Seguia os passos de seu genitor, mas nem Deus quis saber como! Afinal, nem Ele conseguia conter a ambição do nosso ex-garoto, ambição que passou a tropeçar na antiga e bem enraizada incompetência. A situação das finanças do reino naufragava sob seu comando. Mas, ele nascera mesmo virado para a lua...

Certo dia sua honra foi ultrajada, seu poder desafiado. Arrasaram audaciosamente um dos grandes símbolos do seu fastuoso reino. O fato comoveu a todo o planeta, não obstante perdurarem nebulosas incertezas de como aquilo acontecera no reino mais poderoso e que possuía as mais poderosas tropas de combate e de investigação. Deus também ficou fora dessa. Nosso ex-garoto, porém, não hesitou em culpar seu antigo e servil amigo do passado.

Entusiasmou-se com a idéia de realizar sonhos de sua infância, dos seus “ra-ta-ta-ta...ta-ta... etc, e bummmmm e tal. Com tropas muito bem preparadas, e uma armaria invejável, promoveu o conflito do “eu atiro sozinho”. Arrasou com os homens que seu genitor ajudara, tempos antes, a pôr no poder naquelas terras distantes, embora a custo de muitas vidas inocentes. Mas, não sendo do seu sangue, não passavam de meras estatísticas. Nosso ex-garoto venceu. Enfim uma nota “a”! Oh!

Seu antigo amigo, sequaz e cúmplice, antes fiel e útil, então colocado na incômoda posição de inimigo maior do reino, escapou ileso. Jamais foi encontrado. Empolgado com o sucesso de sua primeira decisão maiúscula, nosso ex-garoto elaborou logo uma lista de compras, digo, de inimigos. Novos combates à vista. Enquanto isso o reino afundava em escândalos, cujo mal cheiro chegava as suas narinas.

Nosso ex-garoto, entretanto, preferia manter seu elevado moral como um guerreiro voraz, incansável e imbatível. No fundo sentia imensa irritação por não ter capturado seu ex-amigo fiel, agora considerado nocivo às causas defendidas por seu reino. Fechava seus ouvidos a tantos que o aconselhavam a ser mais prudente, menos arrogante. Ele preferiu desenhar logo outro teatro de combate. Não podia mais parar.

Escolheu, como vítima, novamente, alguém que já fora amigo, leal e servil aos interesses de seu reino. Ainda que tantas vozes pelo planeta afora bradassem bem alto NÃO, inclusive muitos dos seus súditos, ele decidiu ir em frente. Sua incompetência interna ficaria minimizada com seus feitos nos campos de batalha, assim pensava. Por outro lado, ninguém ignorava as verdadeiras intenções em querer apossar-se desse outro reino: a cor de um dos ouros do seu berço.

Se perdia alguns aliados, outros ele obtinha com o peso de suas moedas e transas tantas. Já fizera o mesmo antes, apenas a história se repetiria. Escrúpulo, senso moral, isso era coisa de tolos pacifistas, pelo menos para o caráter moldado em uma filosofia de vida pontilhada de arrogância, soberba, insolência, que modela a visão onde prevalece a lei do mais forte, em detrimento da verdadeira lei escrita pelos direitos dos homens. Pelo menos para o seu ego, ele era, então, a Lei. Azar de quem discordasse.

Nosso ex-garoto, cada vez mais provando jamais ter amado os Beatles e os Rolling Stones, preparava-se para comandar à distância mais uma de suas brincadeiras de infância, com muitos ra-ta-ta-ta...ta-ta... e milhares de bummsss... Calculavam grande perda de vidas humanas e um acirramento da violência naquele planeta. Fechei o livro e deixei para ler o resto da história proximamente. Depois volto e conto.


(08 de fevereiro/2002)
CooJornal no 301


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm