08/02/2003
Número - 301


 

          

Francisco Simões

 

QUEM DISSE QUE NÃO COMPENSA?

Pois é, depois de tantos políticos terem fugido à responsabilidade de ilícitos aos quais teriam que responder com a perda de mandato e um provável processo na justiça comum, eu julgava que haviam posto uma tranca naquela “porta dos fundos”. Enganei-me. Os mais recentes a usá-la foram os senhores Jader, o ACM e o Arruda. Mas, como prêmio, nosso povo devolveu a eles o poder. Brava gente!

Digo que me enganei porque acabo de ver outro deputado escapar pelo indecoroso espaço daquela porta, mais conhecida como “renúncia”. Na vez o Sr. Pinheiro Landim. Mas a família dele está tranqüila, afinal o dito já está de volta outra vez, pois foi também reeleito por nossa brava gente brasileira. Ficou ausente do poder apenas por duas semanas. Maravilha!! Quem disse que não compensa?!

Fiquei emocionado ao ver um deputado, em defesa da Instituição, dizer que eles, os senhores deputados, haviam cumprido com sua missão. Afinal, disse ele: “...fomos até onde pudemos, agora que o Sr. Landim renunciou não há mais mandato, então não temos o que cassar. Assunto encerrado.” Quase fui às lágrimas... de raiva, pois. Um gesto nada nobre mas que encobre os pecados do pecador.

Aliás, nem pecador ele é mais, desde que renunciou. Seus pecados foram então todos perdoados, ou apagados de qualquer pauta, de qualquer lembrança, de qualquer cassação ou processo. Saudemos o ilustre de volta à mesma Casa. Só nós, pobre seres mortais, sem privilégios tantos, é que temos o mau hábito de não esquecer essas coisas e ficamos a nos martirizar. Cala-te consciência!

Querem mais? E o aumento de salário dos congressistas, hein? Que beleza, não deixaram por menos: 50%... Claro, podia ter sido pior, ou maior, mas acabaram aceitando menos. Que atitude nobre, não?! R$ 12.000,00 fora as ajudas indiretas. Houve político dizendo na Tv que não conseguia viver condignamente com os R$ 8.000,00 que recebia mensalmente. Talvez ele até esteja certo.

Por outro lado, se senadores e deputados, para terem uma vida mais digna, reconhecem que precisam de mais de R$ 8.000,00 de salário, o que eles pensam que são os funcionários públicos e a esmagadora maioria do povo brasileiro? Que juízo eles fazem dessa gente, hein? Sim, porque para esses eles nem se coçam, e falar em aumento salarial é querer criar “indexação”, e isso acaba logo com o plano real!! È o que alegam. Então, que se dane o funcionalismo.

Para reforçar a dignidade parlamentar, que ninguém é de ferro, alguns políticos, pelo Brasil afora, conseguiram incrementar o tal de “auxílio paletó”. Também com os seguidos aumentos de preço imaginem quanto não está custando um bom... paletó!! Vige Nossa Senhora!! Não sei como ainda não pensaram em instituir um “auxílio cueca”? Falando sério. Por que discriminar peça tão íntima e tão necessária?

Ah, você me diz que hoje em dia nem todos usam cuecas? Ora, mas também essa verba nem deve passar perto dos paletós, mesmo, tanto faz que alguns sejam “descuecados”, não? Digo mais, poderiam também criar o “auxílio camisinha”, falo sério de novo. Como não? Por acaso você acha que político não pode? A gente, como povo, que o diga, ora, ora. E como pode! E nós pagamos.

E aqui na nossa Cidade Maravilhosa, que beleza! No ping-pong do jogo das responsabilidades, tem dedo duro acusando para todo lado. D. Benedita, agora ministra, apontava o Sr. Garotinho, que se virava e apontava D. Benedita, que quis evitar D. Rosinha, que já entrou apontando D. Benedita, que insiste em apontar o Sr. Garotinho. Mas este acabou bem desapontado... com o Dr. Silveirinha. “Fui traído”, bradou outro dia o Sr. Garotinho, e apontou , agora para ele... Dr. Silveirinha.

Para onde ninguém apontava era para a Suíça, e no entanto veio de lá o apontamento, palavra que o dicionário define como “ato de apontar”. Dedos duros europeus entregaram o ouro, quer dizer, o ouro, mesmo, ainda não, só apontaram o Dr. Silveirinha e mais um time de volley (6), cujo esporte revelou-se ser o “turismo verde”: saca, levanta, faz que corta e passa, de bandeja para os cofres suíços.

E eu pensei que só o Governo Federal é que estivesse bloqueando verbas do nosso Estado. Aquela turma já fazia isso, pelo visto, nas caladas, há tempos, aqui mesmo. Só que para maior “garantia” do dinheiro público, nada melhor do que alojá-lo bem longe dos olhos e das mãos de alguns fariseus, não é verdade? Vai ver eles estavam bem intencionados, e os suíços entenderam errado. Oh gente maldosa!!

Pulando de um pólo a outro, mas chafurdado em ilícitos assemelhados, que tal antes de iniciarem a reforma da Previdência, algo complexo, difícil, pleno de tantas “especificidades”, como já andam dizendo, por que primeiro não se aprofundam nos meandros dos desvios de verbas como prioridade? Se, falida como sempre dizem estar, alguns conseguiram extrair tanto dela, será que a reforma não passa por ali?

Só D. Jorgina, parece que com a ajuda de dois advogados, conseguiu enviar para o exterior a cifra olímpica de US$ 500 milhões. É o que noticiaram e ainda informam hoje na mídia. E este caso já faz uns que 12 anos. Qual empresa falida teria tanto dinheiro em caixa aguardando alguém para provar o contrário? Devo ser um grande parvo, metendo-me a falar do que não entendo. Cala-te boca.

Se somarmos a isso o que imputaram ao juiz Nicolau, além de outros menos votados, e os não apanhados no desvio, e também os que ainda tentarão desviar, claro, imagino que chegaremos a uma soma respeitabilíssima que dará um excelente reforço de caixa para a Previdência. Depois começariam a discutir outros ângulos da reforma, certo?

Alguém dirá: “Ora, mas o juiz Nicolau e D. Jorgina, entre outros, estão presos. As coisas estão mudando.” Além de achar que é um conformismo muito barato, permita-me perguntar: “Estão mesmo?!” Por bom comportamento, a senhora, acima referida, agora só vai dormir na prisão. É a lei, cumpra-se. E quem disse que não compensa?!

Uma coisa que não entendo: como é difícil, complicado, confuso, obter o retorno do dinheiro que fraudadores e assemelhados depositam em paraísos fiscais, não? Mesmo depois dos processos formados e até com pessoas condenadas e encarceradas. Será que falta empenho do lado brasileiro? Não deve ser isso não. Mas é difícil de entender.

Na hora de os paraísos fiscais receberem esse montão de dinheiro, sem investigar sua origem, tudo é desburocratizado. Entra fácil, fácil. Mas, quando se solicita o retorno do mesmo, após tantas provas de que o mesmo é fruto de desfalques, fraudes e outras artimanhas criativas da turma do colarinho branco, aí.... bom, aí calma, para que pressa? Existe todo um rosário de dificuldades.

E vi gente comemorando os cerca de 70 ou 80 milhões de dólares já recuperados, na “exportação de dólares” promovida no caso envolvendo aquela senhora e seus sócios. Bolas, afirmaram que o rombo chegou a US$ 500 milhões, e já decorreram cerca de 12 anos!! Comemoraram o que? Pior é que ouvi uma autoridade dizer que a maior parte desse dinheiro já deve ter sido gasto antes pelo referido grupo e portanto deve ser contabilizado como “prejuízo”... Prejuízo?! Que prejuízo, hein?

Amanhã quem sabe arrumam uma doença e, por razões humanitárias (?!), acabam se livrando definitivamente da prisão? Aliás, é curioso como a turma do colarinho branco, sempre que é apanhada cometendo algum ilícito grave, logo entra em depressão, tem imediata perda de memória, mas consegue defensores da melhor qualidade, competentes e... caríssimos?! Oh, quem disse que não compensa?!

Lembro também que há uma denúncia no ar, recentemente comentada, nesta net, pelo jornalista Rui Martins, que mora na Suíça, em matéria com o título: “E se o Brasil pedisse de volta seu dinheiro para a Suíça?” A referida mensagem teve ampla divulgação e tem recebido muitos apoios. Transcrevo alguns trechos daquele texto:
“Além disso, existem os equivalentes a cem bilhões, (de dólares) segundo denúncia de Jean Ziegler, depositado desde a época da ditadura por militares e políticos que recebiam comissões. E nesse total estão também milhões desviados para escapar ao fisco.”

Mais adiante segue o jornalista em seu comentário:

“Minha argumentação é a de que se poderia denunciar o segredo bancário como sistema delituoso de captação de fortunas. O fato da Suíça não considerar delito a evasão fiscal poderia ser denunciado como incitação ao delito. Com base na ação delituosa dos bancos no passado, se poderia arguir da má fé dos bancos, mesmo quando denunciam lavadores de dinheiro porque sabem que ficarão com o dinheiro para eles.”

“No caso do Brasil, ocorrem duas coisas graves – enquanto o dinheiro desviado pelos funcionários do Estado do Rio fica bloqueado na Suíça, o Estado não tem com o que pagar suas dívidas; os cem bilhões de dólares escondidos nos cofres suíços poderiam sustentar o programa Fome Zero e o novo programa de Educação.” (Quem desejar conhecer a íntegra deste texto, é só me solicitar. Tenho-o à disposição.)

E se fôssemos mergulhar em outros tipos de crimes, ihhhhhh... Tem gente que matou e antes torturou cruelmente a vítima, e já está livre! Mal ficaram pouco tempo na prisão. E aí? Ah, sim, por bom comportamento e outros artifícios? Tá bom, é lei, então cumpra-se. Mas que não dá para entender nem aceitar, lá isso não dá mesmo.

Só gostaria que me convencessem de que realmente não mais compensa. Só quero acreditar, fazer fé, entende? Tenho me esforçado, mas está muito difícil.



(08 de fevereiro/2002)
CooJornal no 301


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm