22/02/2003
Número - 303


 

          

Francisco Simões

 

UM OUTRO MUNDO

Nós nascemos, crescemos, nos desenvolvemos no seio de uma família. Nela vai se configurando o que definirei como parte do “nosso mundo”. Com o passar do tempo a vida vai agregando a este, para além de familiares, amigos, vizinhos, colegas, e todos irão formando o nosso meio de convivência, de relacionamento. Estará se criando o nosso ambiente, nosso pequeno universo, nossa existência dentro do mundo global.

Vamos aprendendo a viver, a existir, dentro de uma realidade na qual traçamos nosso rumo, desenhamos nosso futuro ou, como dizem alguns, seguimos em nosso destino. Aos poucos vamos tomando conhecimento da vivência de “outros mundos” a nossa volta, ladeando e/ou entrelaçando-se com o nosso. Todos incluídos no mesmo contexto universal de vida.

As realidades nos parecem as mesmas, porém com o tempo percebemos que elas divergem de várias formas, a começar pelas diferenças sociais, de comportamento, e/ou anseios e buscas. Mas nem todos esses “mundos” são tão discrepantes assim em suas variadas características. Alguns deles são habitados por pessoas do mesmo nível social, porém que se distinguem apenas na conduta, nos hábitos etc.

Costumamos imaginar que até podemos vir a participar de outra faixa de vida, de outro desses “mundos”, porém na busca constante da evolução, do conhecimento, do aprimoramento individual ou coletivo. De uma maneira geral jamais nos ocorre um dia mergulhar nas águas turvas de uma realidade que signifique o desfigurar de nossos planos, de nossos sonhos, o demolir todo um sentido de vida anterior.

Ocorre, porém, como se costuma dizer, que “o futuro só a Deus pertence.” Muitos são os meandros de nossa sina, de nosso destino. Sinuoso e impregnado de mistérios insondáveis é o longo caminho do nosso viver. Nem sempre depende apenas de nós, da nossa vontade, o traçá-lo.

Por qualquer motivo, por qualquer razão fora do nosso alcance, somos algumas vezes arrastados literalmente para um daqueles “mundos” que nos pareciam sempre tão distantes, praticamente inalcançáveis.

Só para termos um referencial, ainda que hipotético, imaginemos o planeta Mercúrio. Ele pertence ao nosso sistema solar, mas está tão distante, a tantos milhões de anos luz do nosso hábitat, o planeta Terra, que nunca nos imaginaríamos algum dia pondo os pés em seu solo. Seria incredível. Assim ocorre, em nossa existência, com alguns dos “mundos” a que me refiro acima.

Todavia um dia você se percebe, não apenas com os pés, mas com o coração, a mente, enfim você foi sugado por “Mercúrio”, nele está aprisionado, é uma nova realidade com a qual você vai ter que conviver. Inicialmente o choque é grande, o medo do desconhecido, de um ambiente que, para freqüentar, você terá que rever idéias e conceitos. Seu plano de viver tem que ser, em boa parte, alterado.

Você mergulhou em um outro mundo, sem aviso prévio, sem fazer opção, e sem direito à recusa ou a retorno imediato. Você sabe, porém, que precisa e que quer viver. Mais ainda, você quer ajudar a vida que não pertence apenas a você, mas que lhe é vital, que lhe é muito cara, ou que pode mesmo representar o seu próprio anseio de continuar vivendo.

Logo você entende que terá muitas batalhas pela frente como vencer angústias, ansiedades, incertezas, inquietações e perceberá que até sua fé poderá vir a ser questionada. Você terá que ser forte, em todos os sentidos, e fará de tudo para sê-lo.

Algumas vezes, porém, você terá que conviver com pequenas derrotas, você sentirá o desânimo querendo abraçá-lo, mas deverá reagir para não ser sufocado. Sua realidade, agora, inclui uma gangorra de emoções, um vulcão de cepticismo, que balançarão suas crenças vez ou outra.

Na convivência com este outro mundo você vai conhecendo mais e mais seus habitantes. Então você percebe que a sina não tem preferência por faixas etárias, por sexo, por credo etc. À sua frente expõem-se seres semelhantes a você, mas também outros que lembram a sua juventude, a sua infância, ou mesmo o seu amanhã.

As horas, os dias, os meses, vão desfolhando o tempo e você percebe que continua ali, que aquela vai continuando a ser grande parte da sua nova realidade. Uns e outros se aproximam de você, há um intercâmbio muito forte de solidariedade, de troca de verdades, histórias, experiências. Você percebe que a vida luta, resiste, em cada ser.

Alguém que você acaba de conhecer, fala-lhe de um provérbio chinês que diz: “Jamais se desespere em meio às mais sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.” Você sorri e percebe que, na ansiedade reinante em certos momentos naquele mundo, o sorriso é imediatamente correspondido por outro. Ainda que seja o primeiro encontro de tantos olhares. O sorriso é um estímulo, com o sorriso fazem-se amigos, reacendem-se esperanças, salvam-se vidas.

Ontem você acabara de chegar àquele novo ambiente, olhar vacilante, sua expressão era de quem pedia uma ajuda, um socorro, um apoio. Hoje você é a ajuda, o socorro, o apoio, para tantos. Quantos seres penetram naquele mundo portando no olhar a mesma antiga ansiedade, a mesma antiga angústia, o mesmo antigo medo, que você agora identifica facilmente nos outros seres.

Alguém lhe confidencia que já está ali faz bastante tempo e não tem idéia de quando poderá sair. Outro lhe fala que já esteve ali, naquele mundo, por algum período, foi liberado, mas, por algum motivo acabou tendo que retornar a ele agora. Você vê esperanças e vitórias, muitas, mas também assiste a derrotas, felizmente em menor número. A sorte não se mostra a mesma para todos.

Há verdadeiros anjos que tentam minorar a angústia, a ansiedade, ou mesmo o temor de alguns que fraquejam mais facilmente. Somam-se as palavras aos sorrisos, aos gestos solidários, exemplos que confortam e que reanimam. Anjos de carne e osso, de ambos os sexos, que partilham sua vida com aquela multidão que busca uma saída.

A rotina se repete de forma marcante, o tempo parece se arrastar tornando ainda mais longa a sua espera, a sua expectativa. A demora parece fazer parte da tocaia, da cilada que transportou você para aquele outro mundo. Mas sua esperança não esmorece, não vacila, não recua, apenas percebe que deverá ser paciente, resignada e perseverante. Uma aliada permanente que robustece a fé.

A certa altura você abre um livro e lê: “A alma tem ilusões assim como o pássaro tem asas: é isto o que a sustenta.” (Victor Hugo) Você mergulha mais fundo em seus pensamentos, percebe-se um passageiro de uma longa viagem. O cais ainda está distante, sua alma está inquieta. Decide alimentá-la com certezas que só você colheu. Não importa, se você acredita nelas use-as como as asas de sua esperança.

Mantenha seu vôo por sobre a ansiedade, a angústia, o medo. Não abra mão jamais do seu comando, recuse o imponderável, acredite que você pode. Mantendo a sua fé livre de eventuais ataques da desesperança você terá a mente como sua tenaz aliada, sempre, permanentemente.

Lembre dessas palavras de Lao Tse: “A cruz sem amor se converte em tortura, a vida sem amor não tem sentido.”

Continue a fazer da espera um aprendizado e do amor sua resposta para tudo. Você se sentirá melhor, você ajudará a semear a esperança em quantos corações e mentes estão ao seu redor. A vida lhe agradecerá e você conviverá melhor com ela e com seus desígnios. Esta geração de energia positiva, vital, atuará em sua defesa e se irradiará para além dos limites de seus passos, de seu olhar, de seus anseios.

Conviva na solidariedade de cada momento seu e de todos que buscam também a saída, como você. Aprenda que tudo faz sentido, algum sentido que um dia você alcançará. Acima de tudo, viva, viva cada dia, cada etapa, sabendo que o amor estará permanentemente ao seu lado, seguirá com você, sempre, para todo o sempre, e celebrará com você a felicidade maior no dia em que o seu sorriso mais largo traduzir a sua comemoração definitiva.


(22 de fevereiro/2002)
CooJornal no 303


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br