22/03/2003
Número - 307

 

 

          

Francisco Simões

 

ERA UMA VEZ – II

Em fevereiro passado eu divulguei a crônica “Era uma Vez” (vide na relação ao lado) e, para os que não se lembram, ela iniciava com essas palavras:

“Vamos começar essa história assim: era uma vez..... Era um garoto, não como eu, pois ele não devia amar os Beatles e os Rolling Stones. Certamente que não.”

“Quando criança, sua brincadeira favorita era viver a fazer: ra-ta-ta-ta, ta-ta..... ra-ta-ta-ta-, ta-ta.... nos intervalos: bummmmm..... e tome bummmmm.....”

Ao final da mesma eu prometia continuar a ler a história daquele personagem e retornar para contar mais sobre ele e suas peripécias:

“Nosso ex-garoto, cada vez mais provando jamais ter amado os Beatles e os Rolling Stones, preparava-se para comandar à distância mais uma de suas brincadeiras de infância, com muitos ra-ta-ta-ta...ta-ta... e milhares de bummsss... Calculavam grande perda de vidas humanas e um acirramento da violência naquele planeta. Fechei o livro e deixei para ler o resto da história proximamente. Depois volto e conto.”

Cada página que eu virava, cada novo passo do nosso ex-garoto, então galgado ao posto supremo do Reino, que seu genitor também já comandara, me dava a sensação de que aquele bonito planeta estava ficando à mercê da inconseqüência, da irresponsabilidade, da insolência de quem fora mal educado, quando criança, a quem ninguém jamais ousara dizer “não”, em família, e agora não aceitava aquela negativa estampada em milhões de corações, mentes e palavras de todos que temiam o pior.

Ele assistia àquelas manifestações e ria-se a valer da petulância de um mundo que julgava poder mais do que ele, o nosso ex-garoto. Quanto atrevimento! Enviavam-lhe abaixo-assinados em profusão, e ele aproveitava para acender sua lareira com aquela papelada toda, pondo a arder não só nomes como a esperança de todos que, ilusoriamente, achavam que poderiam amolecer seu coração empedernido.

Tinha a seu lado uma reduzida patota, uma súcia de ambiciosos, uns, e interesseiros, outros, que se deixavam fascinar pela permanente pre$$$$$$$$ão que ele fazia, acenando-lhes com imensos favores que depois poderia jogar ao esquecimento, já que ninguém teria a audácia de lhe cobrar nada, principalmente se alcançasse o seu objetivo maior: ser o dono do mundo. Caminhava para isso, o nosso ex-garoto.

Havia naquele planeta, desde o último conflito universal, há muitas décadas, uma organização que reunia representantes de todos os reinos e no seu plenário eram debatidos assuntos de importância capital para o destino da humanidade. A maioria, também daquele órgão, se postara por atitudes de equilíbrio, exigia diálogo, tentava pela diplomacia impedir que nosso ex-garoto, arrastasse o planeta para o abismo.

Cínico e arrogante, às vezes fazia que se sensibilizava, mas por trás das portas do Reino estava sempre a arquitetar novas manobras a fim de levar a cabo seu plano maior: colocar seu Reino, já por demais respeitado, na posição de um Império diante do qual todos se ajoelhassem, dali pra frente, não deixando dúvidas de que o planeta não seria mais o mesmo, após ele. Até em nome de Deus, como seu emissário, ele falou.

Curiosamente, de repente, nosso ex-garoto, que cada vez mais confirmava jamais ter amado os Beatles e os Rolling Stones, passava a usar argumentos cujos fundamentos começavam a se assemelhar com os usados por seu ex-amigo, e inimigo nº 1, que ousara desafiá-lo, já que também ele, agora, colocava o conflito, que pretendia iniciar, no caminho de justificativas também de fundo religioso, para além dos interesses escusos em que todos acreditavam, embora ele dissimulasse.

Para nosso ex-garoto parecia então que a tal guerra era, também, “santa”. Como disse uma boa amiga, geralmente esses agentes que falam em conflito a mando de Deus, estão mesmo é a serviço do diabo e de seu reino. Com certeza. Prossegui na leitura, cada vez mais preocupado com o desfecho de toda aquela insanidade que se plantava contra o desejo da esmagadora maioria dos habitantes daquele lindo planeta.

Sabia, pelo conhecimento de fatos e comportamentos históricos, que ao final do livro eu poderia não encontrar um “happy end”, mas uma catástrofe de dimensões inimagináveis. Afinal, os chamados terroristas deveriam estar, àquela altura, aguardando o início do tal conflito, para reativarem também sua máquina de morte, liberada mais do que nunca, pelo exemplo que estava para dar a máquina maior e mais poderosa de todas: o terrorismo oficial.

Eu lera antes que outros reinos, possuidores de armas muito poderosas, igualmente aguardavam o primeiro tiro, do nosso ex-garoto, para, quem sabe, antes de serem eles os próximos atacados, começarem a disparar, pois o que mais havia no planeta eram divergências sufocadas, abafadas, aparentemente sob controle, mas cujas forças seriam liberadas a partir de então. O mau exemplo estava a ponto de exterminar qualquer sentido de equilíbrio, de bom senso. A paz já agonizava.

Cheguei a ler até a página onde está dito que nosso ex-garoto se reunia numa ilha, uma pequena ilha, bem distante do continente, com os amigos mais chegados de sua pequena patota. Quem patrocinava aquela cimeira era o chefe de um pequeno reino do mais antigo continente do planeta. Também lá a esmagadora maioria dos seus súditos era contra o tal conflito, mas a opinião popular já não mais contava.

Curioso era ler, em certos momentos, a violência da ação policial contra seres humanos que apenas se manifestavam a favor da paz, de uma paz universal sempre sonhada, que, a cada parágrafo, a mim parecia mesmo tornar-se uma definitiva utopia. A força mostrava estar sempre ao lado do poder, ainda que este esteja ensandecido, alucinado, acima da lei, com fortes instintos assassinos. Afinal, nunca foi diferente.

O curioso é que anteriormente o planeta fora fortemente abalado por um conflito que ceifou dezenas de milhões de vidas. A tirania de um homem é que iniciara aquele terrível processo de tentativa de domínio do planeta por sua raça. Afinal, tratava-se de uma ditadura cruel, fascista, radical, xenófoba. Agora, porém, o planeta estava ameaçado pelas forças do Reino que sempre fora tido e havido como o maior exemplo de democracia daquele mundo. Embora houvesse controvérsias.

O nosso ex-garoto estava banalizando o uso da força, uma espécie de licença ampliada para matar. Não parava de fazer ameaças aos que dele divergiam. Todos, sem distinção, desde que ousassem discordar da opinião dele, entravam em uma lista negra como nunca aquele planeta conhecera.

Voltaria a valer a lei do mais forte, ou seja, criar-se-ia um vácuo legal onde se mataria, simultaneamente, a verdadeira justiça, as regras do direito, as razões do bom senso, os valores éticos e morais, os argumentos do diálogo. Passaria a haver só um Rei, ou Imperador, universal, do qual emanariam todas as ordens, todas as regras, todas as leis. Ao resto do planeta sobrariam duas alternativas: obedecer ou morrer.

Entristecido e preocupado fechei o livro. O dever me chamava ao trabalho. Comigo ficou a impressão nada agradável do que poderá se conter nas páginas seguintes que deixarei para ler outro dia. Não obstante o quadro, até onde li, seja desanimador, ainda nutro uma derradeira esperança de que, no último momento, algo tenha feito nosso ex-garoto desistir de mais um ra-ta-ta-ta, ta-ta..... ra-ta-ta-ta, ta-ta.....


(22 de março/2002)
CooJornal no 307


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br