29/03/2003
Número - 308


 

          

Francisco Simões

 

BAGDÁ, MEU AMOR?

Quem é mais antigo, mais passado no tempo, como eu, tem muitas lembranças que pessoas mais jovens não têm, claro. Ótimas, boas, ruins, tenebrosas. É sempre bom, no tempo em que estamos vivendo, darmos uma repassada nesta recordação.

Quem se lembra do filme “Hiroshima, meu amor”? Produzido em Hollywood. Pois é. Faz muito tempo. Eu o assisti, quando jovem, ainda na minha cidade natal, em Belém do Pará. Uma produção fantástica, uma história de amor num cenário de guerra.

Hiroshima, para os bem mais jovens, assim como Nagasaki, ambas cidades japonesas, foram arrasadas, em questão de segundos, por bombas atômicas lançadas, à luz do dia, logo cedinho. Centenas de milhares de pessoas morreram rapidamente, algumas talvez ainda nem tivessem se levantado do leito.

Homens, mulheres e crianças corriam desesperadamente com seus corpos ardendo, com sua pele gelatinizando-se, derretendo. Parecia que o sol explodira em cima daquelas cidades. Prédios também se dissolviam como sorvetes gigantes. Aliás, essas palavras foram ditas por um dos homens que estavam naqueles aviões.

Consta que depois um deles enlouqueceu. Mas, no seu país de origem muitos outros comemoravam, ao obterem a confirmação da missão cumprida por seus “bravos” guerreiros. Heróis de uma das maiores covardias que o mundo já conheceu. Duas chacinas monstruosas perpetradas em nome da paz.

Hiroshima e Nagasaki, até hoje, sofrem efeitos da radiação deixada por aquelas explosões atômicas. Durante décadas continuaram a nascer fetos deformados, vítimas mais do que inocentes de uma abominável, de uma gigantesca crueldade humana cometida por pessoas que se diziam cristãs.

O inferno se instalara em Hiroshima e Nagasaki contra a vontade de Deus, que, mesmo sendo Todo – Poderoso, algumas vezes não consegue conter a fúria, a insanidade, a crueza, os desmandos daqueles que dizem ter sido feitos à Sua imagem e semelhança. Na memória do tempo ficará para sempre registrado aquele assassinato em massa, aquele extermínio oficializado pela assinatura, pela ordem de um homem.

De um homem, mas que teve o respaldo de muitos outros, seus conselheiros militares, todos cristãos, todos tementes a Deus, menos na hora de matar. Um ato daqueles, nos tempos de hoje, poderia ser considerado o maior, o mais covarde, o mais traiçoeiro, o mais vil, o mais condenável dos atos terroristas contra civis inocentes. O cenário da guerra não passava por aquelas cidades, nem por aquelas pessoas.

Consta que, de imediato, morreram mais de 200.000 seres humanos que começavam mais uma etapa de suas vidas, que não portavam nenhuma arma, que apenas iniciariam mais uma rotina diária. E foram mortas com requinte de uma crueldade demoníaca. Não esqueçamos: em nome da Paz!!

Permitam-me lembrar aqui os primeiros versos do meu poema “Às pombas”: “Pombas, pombas, pombas / Fujam da paz / Da paz que faz bombas / Das bombas dos homens / Que defendem a paz...”

Neste ponto eu me volto para o momento presente. Uma guerra foi começada, contra a decisão da ONU, contra a vontade do Papa, contra quase a totalidade da população mundial que protesta diariamente, contra a esmagadora maioria dos governos que, só na ONU, representam 192 nações. A favor: alguns poucos, muito poucos, se considerarmos que nosso mundo tem hoje cerca 6 bilhões e 200 milhões de habitantes.

Começo a me preocupar quando, a cada dia que passa, aquilo que anunciavam como uma “guerra rápida” agora já avisam que será longa, muito longa, talvez. Mais me inquieta e me martiriza saber também que a tal de “guerra limpa” nunca existiu, e nem agora acontecerá. Ela começa a ficar é suja, muito suja, com tendência à fetidez.

Nos protestos ocorridos durante a Festa do Oscar, faltou alguém lembrar-se de entregar a estatueta a quem de direito no cenário que se está desenhando, cada vez mais, em terras do Golfo Pérsico. Senti falta de alguém anunciar: “The Oscar goes to..... death...” Corrijo agora o esquecimento dos artistas naquela festa.

Baseado em exemplos anteriores, dados também pelo mesmo exército que agora guerreia, desobedecendo à decisão da ONU e aos pareceres de 60 juristas que dão suporte àquele órgão, fico ainda mais apreensivo quando seus oficiais e o próprio governo estende um discurso de que a situação está ficando mais complicada do que eles esperavam.

Vêm à minha mente recordações como o que fizeram com aquelas duas cidades japonesas durante a II Grande Guerra Mundial. Se as coisas se tornam ainda mais difíceis para as tropas invasoras, será que ficarão assistindo à morte de seus homens com a mesma impassibilidade com que assistem ao derramamento do sangue dos civis iraquianos? Ou tentarão acabar logo com tudo de forma bem rápida?

Resistirão à tentação de aplicar algumas das chamadas “mães de todas as bombas” sobre a capital? Ou uma, apenas uma, de suas inúmeras bombas nucleares? Seria o ato final de uma peça mal encenada e vaiada por milhões de pessoas em todos os continentes, até por S. Santidade, o Papa. Este deve estar sendo chamado por alguns amantes da guerra de “terrorista”, ou de “anti-americano”, ou de “comunista”!!

Aí imagino se Hollywood iria, futuramente, produzir “Bagdá, meu amor”. Mas, depois do que conjeturo, e espero não aconteça, haverá realidade? Haverá futuro? Haverá Hollywood? E se houver, vencerão a censura que certamente irão enfrentar?


(29 de março/2002)
CooJornal no 308


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br