12/04/2003
Número - 310

 

          

Francisco Simões

 

AMIGOS, AMIGOS, GUERRAS À PARTE

Normalmente quem escreve, seja na imprensa, seja em sites literários nesta Internet, costuma ignorar críticas que lhes sejam feitas por leitores. A maioria, pelo menos, age assim. Não os critico, apenas digo que nestes mais de dois anos que escrevo para vários sites literários, já me referi a 4 ou 5 críticas. Claro que só reconheço e dou valor as que são feitas com educação e respeito ao autor.

Ninguém que seja criticado está obrigado a concordar com a crítica recebida, mas algumas vezes elas já me foram bastante úteis, com certeza. O que não me julgo é dono da verdade, condição, aliás, que também não reconheço em certos críticos.

Pelo mundo afora há atualmente um “exército” incalculável de analistas, jornalistas, escritores, poetas, pensadores, etc, a escrever, e muito, contra esta guerra. Não que estejam a defender o ditador cruel e sanguinário que é o Sr. Saddam Hussein, o que todo mundo sabe, até os americanos, desde os tempos em que eles viviam de beijos, abraços, e armas químicas com ele. O mesmo ditador que hoje combatem.

Do Papa aos governantes, e ao mais humilde cidadão deste planeta, das inúmeras e gigantescas passeatas realizadas em todos os continentes, vê-se apenas uma disposição: ser contra uma guerra unilateral, não autorizada pela ONU, o que põe em risco a segurança da humanidade pela desorganização que poderá advir daí. Ninguém defende a pessoa de Saddam, em hipótese alguma. Até Bin Laden detesta Saddam.

Ninguém quer mais é ver cenas de tantas e tantas mortes, pessoas mutiladas, ao que, infelizmente estamos tendo que assistir de novo. Uma tragédia que pode se transformar em algo muito pior do que estamos a ver agora. Curioso é que dos 11 terroristas que derrubaram as torres nos EUA, 9 eram da Arábia Saudita, o próprio Osama, ex-amigo e ex-aliado dos americanos, também é saudita. Por quê o alvo tem que ser o Iraque, enquanto os sauditas são aliados nesta guerra? Porque a verdade está sendo também mutilada, dilacerada. Esta todo mundo sabe qual é.

Os próprios americanos já disseram antes que os terroristas estariam espalhados por uns 60 países do mundo. Vão bombardear a todos? E nós temos que assistir a isto e ficar calados? E alguém ainda acredita na “boa intenção” dos invasores do Iraque? E quando chegará a nossa vez de “alvo”, com tanto olho grande na Amazônia e o Brasil caminhando para ser auto suficiente em petróleo?

Aí, de repente, chega-me um comentário de um amigo leitor sobre o conjunto desses textos que tenho divulgado contra a guerra no qual o autor diz: “Só faltou você dizer uma coisa: Quem se declara contra a guerra e a derrubada do governo de Saddam fica teoricamente livre por algum tempo de ataques terroristas. Isso implica em afirmar que realmente o terror está intimamente ligado com aquele poder.”

Na minha visão, uma coisa não tem nada a ver com a outra. A esmagadora maioria da população mundial não defende Saddam e não aceita esta guerra ilegal, conforme documentos de 60 juristas que dão assistência à ONU, não o faz pensando em não sofrer “ataques terroristas”. Muito menos esta posição anti-guerra pode ser entendida como um atestado de que haja ligação do Iraque com terroristas. A afirmação do meu crítico, pelo menos na minha ótica, não faz nenhum sentido. Respeito o autor, mas talvez minha inteligência seja curta demais para alcançar o sentido de suas palavras.

Há quem me escreva dizendo preferir que eu continuasse na linha de contar histórias, falar da emoção das pessoas, etc. Outra amiga sofre com as notícias da guerra, seria bom só falar de amor. Concordo plenamente. Mas como dizer à minha consciência, ao meu temperamento, para eles ignorarem que existe uma guerra aqui dentro e outra pior lá fora? Não se trata de apenas desligar uma tomada. Alguns escrevem como se realmente estivessem totalmente alheios ao que se passa à volta de nós.

Ademais, quando lanço meu brado contra injustiças, e a guerra é uma das mais ferozes, das mais atrozes, das mais desumanas, não estou deixando de lado o amor, muito pelo contrário. Em 1995, minha esposa me disse um dia que muitos dos meus versos estavam amargos. E eu mal recomeçava a escrever poesias. Para responder à ela eu fiz o poema “Amor e Amargura”, no mesmo ano. Ele ainda está inédito em termos da Internet. Eu o finalizo com esses versos:

“Se este amor não amasse tanto / A vida e a liberdade / Se limitaria ao pranto, / Não se ouviria seu clamor, / Mas por amá-las tanto / E sofrer com a dor do próximo / Vai à luta e guarda o pranto / E com o manto da amargura / Põe no verso a investidura / Para bradar seu desencanto.”

Creio ter dito tudo. Mesmo quando entro feroz contra coisas do tipo de uma guerra totalmente desnecessária, insana, eu também me armo, mas da palavra, e é o amor, não o ódio, que me impulsiona a escrever. Só a morte calará esse amor.

Por isso, quando me escrevem: “Declaram não à guerra, mas simplesmente nada fazem” sou obrigado a responder que fazemos sim e muito, mas só o que podemos, só o que está ao nosso alcance. Nós protestamos, mas não usamos armas. Nossos “mísseis” são inúmeros abaixo-assinados. Nossas “tropas” vão às ruas, em todo o mundo, dizer NÃO à guerra, a Bush, a Blair, a Aznar, com veemência, mas pacificamente, e acabam por ser agredidas, pela força policial que está sempre ao lado do poder maior, ainda que este seja o verdadeiro assassino, o agressor. Mas, afinal, nunca foi diferente.

Então alguém afirma:“É bem mais interessante dizer que é contra e não fazer nada do que tomar partido.” Quanto à primeira afirmativa já está respondida acima, e quanto a não tomar partido é outro sério equívoco. O nosso partido e o de milhões de pessoas, em todos os continentes, que protestam contra esta guerra insana, é o da PAZ. Mas não da PAZ pela força. Não acreditamos na PAZ pelas armas, como neste caso.

Nos recusamos é a aceitar “libertadores” que se valem da violência que gera mais violência, que repudiam o diálogo, acatam a desobediência ao Conselho de Segurança da ONU, impõem a censura que está a ocorrer nos EUA, as agressões a estrangeiros, como vimos pela Tv fazerem contra famílias francesas, e se deleitam repetindo com arrogância: “...depois do Iraque virá a Coréia, o Irã...”.

Três excelentes amigos meus, um deles médico, o outro advogado e o outro administrador, cada um a sua maneira tentaram me fazer ver que a violência humana sempre existiu e jamais será diferente. Um deles até me lembrou das atrocidades do grande Alexandre, que ao invadir cidades mandava matar sumariamente todas as crianças, estuprar e matar todas as mulheres, etc.

Muitos fatos foram por eles lembrados provando-me que a história do mundo está repleta de violências, as mais cruéis, e que, portanto, o que se passa agora é apenas mais um desatino de seres humanos, e uma repetição de tantos outros do passado longínquo e recente. Eles, no fundo, também não aprovam a guerra atual, mas se mostram mais conformados do que eu e chegam a minimizar a revolta de milhões de pessoas que vão às ruas protestar, crendo que é inútil, pois a força não os ouvirá.

Dei-lhes razão em parte. Ocorre que hoje, neste novo milênio, tantos de nós esperavam que os homens estivessem mais empenhados em construir uma paz verdadeira e duradoura, e que tentassem, enfim, resolver suas questões, suas diferenças, por processos outros que não retornar à linguagem das armas, e essas, cada vez mais poderosas, mais destruidoras. Se não, até quando vamos justificar a violência humana pelo simplório raciocínio de que “nunca será diferente”?

Não, jamais vou me conformar com isso. Por este raciocínio nem deveríamos bradar contra a nossa “guerra particular”, a verdadeira guerrilha urbana, onde o crime, que chega ao absurdo de ser chamado de organizado pelas autoridades, tem feito mais vítimas que na guerra do Iraque. Afinal eles não dizem que o homem é violento por natureza e que “nunca vai ser diferente”? E como explicar Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Ghandi, Luther King... Como dizer que nossa raça tem evoluído?!

Olho em volto e vejo doenças que retornam para nos massacrar, outras que surgem de repente, e que logo vitimam milhares de pessoas, mais aquelas que já estão por aí a fazer estragos em demasia, algumas ainda incuráveis. Vejo milhões de pessoas morrendo de fome, de sede, sem assistência médica, será que alguns homens não conseguem usar o poder e a força de que dispõem para minimizar tanta miséria, tanta desgraça, em vez de só a aplicarem para mais violência? E como dois daqueles meus amigos estão convencidos de que hoje vivemos muito melhor? Nem tanto, amigos.

Realmente não me conformo, jamais me conformarei. Essa é uma das formas de demonstrar meu amor ao próximo, e, para os que discordam, meu recado é : amigos, amigos, guerras à parte.


(12 de abril/2002)
CooJornal no 310


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br