18/04/2003
Número - 311

 

          

Francisco Simões

 

NO PLANETA, SEM MACACOS

(Uma peça de ficção, ou um futuro que se desenha?)

Aqui estou sentado à frente de meu computador que resistiu a tudo, pelo menos até este momento. Meu programa é o antigo Windows XP - Professional, mas que ainda funciona a contento. Lá fora há um vácuo de tudo, um silêncio universal que se prenuncia eterno. Enfim, nosso mundo consegue a paz, mas a paz tumular, lúgubre, a paz da morte, da ausência da vida que não vibra mais. Eles conseguiram, afinal.

Em volta de mim circulam, agitadas, muitas baratas. Parecem comemorar o que alguns falavam, no passado, a respeito de sua resistência. O céu mudou de azul para um tom alaranjado. Também ele está doente, contaminado. De quando em vez ouço estrondos ao longe, é o único som que me chega. Há um forte odor de gases, insuportável. Não sei por quanto tempo ainda terei energia elétrica para escrever.

Há pouco reuni forças, levantei-me e fui até à janela. Pela rua, umas poucas pessoas circulam caladas e lentas, sem rumo, feito zumbis diurnos. Nem todos conseguem chegar até à esquina. Os veículos estão parados e os sinais de trânsito insistem em mudar de cor, para nada. No meu rádio de pilhas há muita estática, eventuais vozes inaudíveis, alguém profere palavras em tom de oração. Parece que a fé é mesmo indestrutível. Porém, ainda que Deus as ouça, é tarde demais. E ainda haverá Deus?

Lembrei-me agora de um filme a que assisti há muito, muito tempo: “O Planeta dos Macacos”. Recordo-me bem da previsão feita naquela película para o nosso mundo no caso de os homens, perdendo completamente a lucidez, a sensibilidade, a noção do valor da vida, colocando suas ambições, seus anseios de dominação e poder acima dos valores éticos, do respeito mútuo, da convivência pacífica, da solidariedade e do amor aos seus semelhantes, acabassem por levar a humanidade, um dia, ao Apocalipse.

Era a ficção advertindo a realidade que, afinal, não lhe deu ouvidos. Aqui estou eu, solitário, lamentando terem calado a voz dos poetas, dos pensadores, dos filósofos, dos músicos, dos artistas, dos escritores, da vida, enfim. Bilhões de seres humanos foram pisoteados, aniquilados, esmagados, por uns poucos néscios arrogantes que, no afã de novas conquistas, de imporem uma nova ordem, semeada com tanto sangue e ódio, não mediram suas forças nem as conseqüências colaterais de sua agressividade.

Desorganizaram a ordem mundial, acirraram o terrorismo que só esperava um novo alento para implantar também a sua senda brutal de crimes os mais cruéis, ou tão hediondos quanto os dos neo colonizadores de uma era que se dizia moderna, que se globalizava, mas que trazia no seu ventre o que de pior poderia vir à luz com a pele e a aparência de seres humanos: monstros, mas feitos à imagem e semelhança de Deus.

Puxo no meu arquivo do computador uma pasta onde arquivei pensamentos, citações etc, e leio esta atribuída ao grande cientista Albert Einstein, dita logo após a segunda grande guerra mundial. Profetizou Einstein: “Não sei com que armas se digladiarão na terceira guerra mundial, mas sei que na quarta guerra mundial se digladiarão com pedras e paus.”

Parece ser mesmo o que restou. Nem macacos há. Os da ficção, daquele filme a que me referi antes, devem ter levado milhares de anos para se desenvolverem, se organizarem, depois do sugerido apocalipse provocado pelos próprios seres humanos, raça em extinção, da qual sou certamente um dos raros espécimes, neste momento. Tal como muitos, sempre achei que isto jamais aconteceria, era incredível demais.

Não sei se haverá alguém que possa ler o que agora escrevo, ou se dirijo esta mensagem apenas para mim mesmo. Por isso estou me valendo do meu equipamento acessório que denominaram “crossing the time”. Tenho esperança de poder estar levando essas palavras através das barreiras do tempo, por este avançado aparelho, há uma distância de muitos anos passados. Este é o meu objetivo.

Se alguém me ler e estiver vivendo ali pelo começo do ano de 2003, por favor, creia, não haverá futuro. Eu ainda estou nele, ou no que dele restou após seguidos enfrentamentos entre governos que acharam que tudo podiam a partir de quando uma decisão unilateral foi adotada pela então maior nação do mundo. Declarações de conflitos, chamados à época de preventivos, levaram nações a confrontos vários.

Aos poucos o terror se alastrou por todos os continentes. O mundo ardia em chamas, o meio ambiente foi seriamente afetado e as geleiras dos pólos, que já vinham se derretendo há muito tempo, sem que os governantes fizessem algo para impedir a continuação daquela catástrofe, levaram o mar a invadir muitas cidades. Não havia para onde fugir. O fogo queimava o sonho, a utopia, a fé, a esperança de um futuro que ali se extinguia aos poucos. Um poeta, em delírio, recitava versos de amor na tragédia.

Parecia que o inferno, enfim, vencera a batalha definitiva entre o bem e o mal. Os que não acreditavam e se mostravam alheios a uma realidade que se deteriorava dia após dia, miravam incrédulos o desmoronar de um mundo que insistiam, até o fim, em acreditar que seria de paz. O amor chorava escondido enquanto o ódio gargalhava do alto de sua arrogância, enlouquecido, pois também ele não escaparia do fim.

Repito, quem me ler e estiver vivendo no começo do ano de 2003, por favor, avise a todos que puder, difunda esta verdade sem receio de ser ridicularizado. Ou todos se unem e fazem muito mais do que se fez antes, no passado do qual sou o futuro, ou se empenham no limite de uma contra reação à ação altamente destrutiva de uns poucos néscios, loucos, sanguinários, assassinos, irresponsáveis, ou não deixarão herança de vida para seus descendentes. Só nos reencontraremos novamente na desgraça.

Eu sou, como se dizia, “vocês amanhã”, mas um amanhã de trevas, de silêncio eterno, de uma natureza-morta, ao pé da letra, sem pintores para a retratar, onde a poesia sucumbiu ante a censura da morte, onde apagaram as cores do arco-íris pela ausência do sol e das gotículas de água necessárias para o seu esplendor, onde não há mais colonizadores nem colonizados, onde ditadura e democracia são palavras consumidas pelo fogo nas páginas de um dicionário que arde na minha estante, onde a fé perdeu a esperança num desesperante clima de fim de mundo.

Não acreditem em promessas de liberdade impostas pela força brutal de pessoas egoístas, ignorantes, arrogantes, mentirosas, cujo sorriso é falso, infiel, cuja palavra é comprometida com imposturas, e os arrastará para o caos. Não creiam em quem fale em nome de algum Deus, seja ele qual for, que abençoe e açule qualquer guerra, que é o mais cruel, o mais covarde, o mais desumano ato de terrorismo, ainda que oficial.

Jamais se cansem de levar o seu protesto a todos os recantos deste planeta. Não se deixem intimidar com as ameaças da força que tentará dissuadi-los de seu objetivo. Bradem bem alto, cantem mais alto ainda, invistam permanentemente sua palavra de Paz contra os anseios de guerra. Tentem fazer mais, o mais que puderem para evitar a catástrofe que começará sempre, como já começou antes, com promessas de falsa paz que alguns pretenderão construir pela força das armas e com a estupidez de sua arrogância, de seus desejos de conquistas, de seu desprezo pelo resto do mundo.

Se mesmo assim não conseguirem evitar mais um conflito que advirá em vosso tempo, o qual tenderá a se degenerar, alargando-se por várias fronteiras e continentes, então terá sido inútil este meu derradeiro apelo em meus últimos alentos para tentar mudar, no passado, a história deste futuro em que estou, neste planeta, sem macacos, ou qualquer outro tipo de vida, para além dessas cansativas baratas, que agora sobem, vitoriosas, pelas minhas pernas.


(18 de abril/2002)
CooJornal no 311


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br