24/05/2003
Número - 316

 

          

Francisco Simões

 

O SENTIDO DA VIDA

Ah, se eu possuísse o dom, se eu tivesse o poder, se me fosse concedida a virtude própria dos puros, dos imaculados, a inculpabilidade dos inocentes, o direito de acordar para o sonho na renúncia legítima do pesadelo, a utopia não delirante do sonho possível e alcançável pela busca incessante da esperança que não desanima.

Ah, se eu soubesse ser muito mais energia do que força, muito mais espírito do que matéria, sem ser santo nem demônio. Ah, se eu pudesse ir buscar nos confins da cosmogonia a origem, a essência, o começo do princípio do tudo e do nada, a razão do ser e do não ser, a resposta ao imponderável da existência.

Como disse Olavo Bilac: "Há numa vida humana cem mil vidas, / Cabem num coração cem mil pecados." Eu usaria quantas vidas preciso fosse, deixando à morte o dever de contabilizá-las no seu rastro de dor, de pesar, de ruína, mas ressurgindo sempre com a força da fé que move corações que se pertencem. De vida em vida seria um ser buscante de uma causa maior que o próprio infinito.

Carregaria comigo meus pecados, pois fugir deles me tornaria mentiroso e vil, e a santidade jamais caberia neste corpo que, de imortal, só carrega sua alma. Alma, princípio de vida, vida que gera o amor, amor que me estimula, me impulsiona, me acende o caminho, as trilhas todas, separa as pedras e me faz seguir.

Ah, se o tempo abrisse suas portas e me permitisse mergulhar na infinitude do imensurável espaço, arrastado até um passado de reencontro de vidas. Mesmo que nesta busca eu tivesse que procurar em curvas labirínticas, ou abismos profundos, no limiar de céus e infernos, eu não desistiria.

Venceria planos e dimensões, investiria contra centauros e dragões, sobrepujaria bruxas e magias quantas, saltaria muralhas e fogueiras, mergulharia nas águas mais profundas rasgando oceanos, levando minha procura a todos os caminhos e direções que me conduzissem até mesmo para além da eternidade. Esta seria pequena para esconder de mim o objeto do meu intento. Eu não desistiria.

Por maior que fosse a minha angústia, não pararia enquanto não encontrasse as raízes do bem e do mal, onde o bonito e o feio se anulam no igualitarismo de leis cósmicas onde o tudo se origina e o nada sobrevive no eclipse da não existência que se faz tão forte quanto o ser, pela dicotomia de conceitos contrários que afirmam também o não-ser, o não existir, que a nossa ignorância jamais alcançará.

Tentaria desbaratar as teias do destino, do fado, ou traduzir causas e efeitos. Buscaria nas sombras do passado alguma lógica, algum sentido, para a morte ou para a vida que caminha no presente tropeçando em incertezas, carregando pesadelos que projetam um futuro, tantas vezes, inalcançável.

Carregaria a minha fé, mas não titubearia em pô-la à prova se preciso fosse para alcançar a verdade maior, aquela que enfim me oferecesse respostas para tantas das minhas dúvidas que vez ou outra me mergulham no cepticismo, quase me afogando no antilógico de contradições enlouquecedoras.

Não busco chegar ao supremo ideal da felicidade, embora creia que, se ele existe, deveria estar ao alcance de todas as almas, de todos os seres, sem privilégios que diferenciam inteligências e sentimentos, que exigem discernimentos, os quais, a própria verdade que os criou, também os tornou limitados. A perfeição foi proibida ou se tornou seletiva?

Se aquele ideal não existe, a verdade, por conseqüência, também pode ser desmentida, por inexistente. Assim prefiro crer, do que considerá-la injusta. E quando me aproximei dessa conclusão, em tentativas frustradas de entender o sentido da vida, e mesmo da morte, mais me assustei de não chegar a nada, mais me apavorei de ver esvair-se o meu sonho, de perceber enfraquecer-se a minha esperança, perder-se a minha busca.

E tudo que me ensinaram? E tanto que pesquisei, que investiguei? E tudo em que acreditei, reafirmei e preguei? Somos todos inocentes por termos sido enganados? Seremos todos puros já que a mácula e a virtude estarão ausentes de qualquer conceito ético, na concepção de que a verdade seja uma mentira? No que nos transformaremos então?

Não, não é possível, talvez eu tenha errado o caminho, é, deve ser isso. Devo ter enveredado por tortuosas, enganadoras e indecifráveis veredas, mergulhado em enigmáticos e ambíguos mistérios que estejam no limiar do eterno e infinito conhecimento superior. Devo mesmo ter errado o caminho.

A verdadeira senda talvez se encontre muito para além das minhas limitações físicas e espirituais, não obstante a minha fé, o meu aprendizado, e os tantos ensaios e incursões no mundo incorpóreo, sobrenatural. É, fracassei, devo confessar. Paro, é hora de reflexão e não de investigação ou de busca.

Detenho-me então num lindo texto que recebi há pouco tempo dos bons amigos de São Vicente, em S. Paulo, o Ivan Matvichuc e sua esposa Fátima, sobre a vida. Releio-o. Chamam-me a atenção duas citações plantadas no referido texto:

“A nossa vida é uma promessa a cumprir, um fruto a amadurecer, uma obra a executar” , atribuído a A. Bouçois Mace;

“Das ruínas do corpo e da alma pode vicejar uma semente portadora de um futuro esperançoso para a Terra e para a humanidade”, de Frei Leonardo Boff.

Recolho-me à minha insignificância, fecho-me no silêncio pequeno que se curva ante uma realidade indecifrável, guardo as minhas dores e desconfianças porque não mais quero aceitar as fórmulas feitas, as verdades absolutas, os dogmas autoritários.

Por outro lado, sou obrigado a prostrar-me diante de mim mesmo abatido pela insídia de uma busca para a qual não estou preparado.

Algum dia, provavelmente, alcançarei o que procuro. Espero, porém, que não seja tarde demais, que a solidão não seja minha única e fiel companheira, que viver não seja um ato a cumprir, mas sem a presença do amor que por longos anos me deu sentido à vida.

Francisco Simões. (Fevereiro / 2003)



(24 de maio/2003)
CooJornal no 316


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br