12/07/2003
Número - 323

 

          

Francisco Simões

 

CONVERSANDO COM O SILÊNCIO

Aqui estou outra vez em frente a ti, acariciando teu rosto, soltando a voz do meu coração. Não sei se teus ouvidos físicos me escutam neste momento, não sei, mas não importa.

Teus olhinhos cerrados fecham as portas do mundo em que estás momentaneamente mergulhada. Talvez eu não esteja nesse mundo, talvez, mas sei que passeio em tua memória, onde as recordações nos mantêm unidos. E há tanto para rememorar, tanto para reviver em lembranças.

Nem por isso me calo, não, continuarei falando contigo. Minhas palavras hão de penetrar no teu silêncio, alcançar a tua alma, tocar no teu coração, hoje um pouco acelerado porque ele está cansado, bem sei. Cansaço que te imerge nessa fuga da realidade, nessa privação de sentidos, mesmo contra a tua vontade.

Mas eu permaneço aqui, em frente a ti, esperando que o meu carinho te envolva na paz, a paz que une, que alicerça amor e paixão, que nos abençoou sempre com a felicidade. Não me importa se tua resposta é apenas o silêncio. Sei que tua taciturnidade não representa solidão, mas apenas a necessidade de não externar o que vai em tua alma, o que te castiga e machuca bem fundo.

Me poupas, eu pressinto, por isso calas, contendo o que poderia ser mais forte que o amor, então te sacrificas numa mudez que não desejas, mas que te consola na medida em que não me revela, não me desnuda a tua dor mais intensa. Me poupas, eu sei, mas nem por isso eu ignoro a verdade que carregas no coração.

Foges para um mundo que te abriga, te esconde, te refugia, protegendo-te da necessidade de bradares tua mágoa, tua amargura, aos meus ouvidos. E eu permaneço falando, falando sem tirar os olhos de ti. Percebo o que sempre eu soube: como és linda, apesar de tudo.

Minha conversa com o teu silêncio se prolonga porque minha ansiedade me impulsiona, me instiga a não desistir de que este monólogo possa fazer florescer o diálogo a qualquer momento. A vida passa e observa. Ela já está acostumada com a dor surda, a dor cansada, tantas vezes testemunhou o sofrimento alheio.

São momentos em que a felicidade sucumbe ante o infortúnio. Minhas palavras perseveram, não desistem. Meu olhar se mantém fixo em tuas pálpebras que desenham uma barreira instransponível, encobrindo o alvo de minha insistência. Teus olhos me proíbem de ler a tua alma mas, num rápido descuido, deixam escapar um tudo-nada, uma pequena gota reveladora do segredo que tentas me ocultar.

Imagino quanto de lágrima seria necessário para revelar a dor deste mundo. Quantos corações se afligem, suportam suas mágoas neste momento. Quantos, hoje, só têm a saudade, as lembranças, para passar em revista. Quantos se agarram a uma tênue esperança, e em nome de sua fé, continuam regando a sua espera sem dar ouvidos à desesperança.

O teu silêncio tem muito a ver com tantos outros por este mundo afora. Entendo que apenas fomos agora, digamos, sorteados para integrar um exército de seres cujo destino passaria inevitavelmente pelo outro lado da moeda. Parece que perdemos enfim no cara ou coroa com a vida. Cumpra-se a sina.

Mesmo assim, insisto em conversar com o teu silêncio. Pelo menos posso expressar-me revelando, ou reafirmando o que já sabes há muito tempo. O que, aliás, meus versos te confidenciaram algumas vezes, e continuarão a fazê-lo sempre, pois jamais eu silenciarei meu coração. Sei que me ouves, e isto me basta.

(Junho / 2003)

(12 de julho/2003)
CooJornal no 323


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br