09/08/2003
Número - 327

 

 

          

Francisco Simões

 

QUANTO DÓI UMA SAUDADE

Esta expressão tem sido usada com variados sentidos. Às vezes a lançam com um toque ameaçador. Por exemplo, alguém se desentende com outro alguém e a amizade entra numa faixa de risco iminente. O simples fato dela ser proferida assim: “Vais ver quanto dói uma saudade”, carrega uma carga negativa e prenuncia, além de um rompimento, uma nada velada promessa de castigo ou um gesto intimidativo.

Muitos de nós já a utilizamos nesse sentido durante nossa vida. Uma desavença entre amigos, entre namorados, e no auge da dissensão, quando parece que qualquer hipótese de reconciliação passa longe de uma tentativa de trégua, lançam-na ao ar deixando claro que haverá pelo menos algum período de desunião. É este o tempo para reflexão de ambas as partes.

Mas, e os que não dispõem deste “tempo para reflexão”? Digamos, pela partida, para bem distante, da pessoa amada? Uma viagem que se faz necessária, que se impõe, embora por um período limitado de tempo? Claro que neste caso haverá um retorno, pois que há apenas um afastamento temporário, não um rompimento. Um simples adeus, ou até logo, mas certamente bastante doído, pois logo percebe-se quanto vai doer a saudade. Pelo menos esses têm a certeza da volta, do reencontro físico.

Quando esta separação é definitiva, entretanto, não importam as causas, os motivos, pois que, com certeza, a eles se sobreporá a danada da saudade. É só uma questão de tempo. E quantos rompimentos ocorrem por motivos tão fúteis? Quanto de dor e de arrependimento, muitas das vezes legam como herança a um ou a ambos os corações?

Nesses casos eu aplicaria os lindos versos de minha querida amiga e excelente poeta, Leyla Gomes, de Petrópolis: “É aquele encanto desencantado por não voltar, / É o desencanto encantado por permanecer, / E, em todos os momentos, o olhar perdido, / O pensamento quebrado em divisão, / As palavras sem endereço, desiludidas, / As mãos vazias sem terem o seu par, / E o coração descompassado sem casamento!”

Há poucos dias atrás, um grande amigo me escrevia isso: “Cândido das Neves, compositor de antigas canções, disse que... “Chorar é a mágoa em pérolas diluir.” E acrescentou meu bom amigo: “Diluída ela se torna menos corrosiva.” Sábias palavras.

E quem já não extravasou sua saudade, sua tristeza, em pérolas aquosas, naquele tudo-nada que, muitas das vezes, traduz um oceano de amargura? É geralmente o amor a razão maior da alegria e da dor, e esta machuca na razão direta da intensidade daquele. Refiro-me, claro, ao amor sentimento, ao amor emoção, ao amor doação, ao amor que une e perdura.

Mas, e quando o apartamento, a separação, são definitivos, no sentido amplo e mais completo dessas palavras? Quanto dói uma saudade? Claro que é inevitável o sofrimento, por mais que acreditemos na passagem para outra vida, por mais que aceitemos o karma ou destino, por mais que entendamos a necessidade, digamos assim, da reencarnação para o aperfeiçoamento do espírito, ou alma, que é imortal.

Afinal, enquanto permanecemos neste plano físico somos humanos, mortais, e carregamos nossas fraquezas, nossos defeitos, os quais, somados a uma sensibilidade mais acentuada e a um sentimentalismo mais aguçado, mais atilado, inevitavelmente ampliam nossa dor, transbordam nossas emoções. Ficar insensível em semelhante situação denota, na minha maneira de ver e de sentir, uma indiferença que quase nega o amor e pouco nos dignifica como seres humanos que somos. É a minha opinião.

Talvez, de certa forma, tal também se ponha no plano espiritual em certos casos. Lembro aqui o que disse Santo Agostinho: “Eu vou para Deus, mas não esquecerei aqueles a quem amei na terra.”

Mas, voltemos ao nosso plano físico. Fui buscar no nosso cancioneiro popular esta pérola poética encontrada na letra da música “Naquela Mesa”, escrita por Sérgio Bitencourt, quando da morte de seu pai, o excelente Jacob do Bandolim. Os da antiga certamente não se esqueceram. Realço apenas quatro versos: “Eu não sabia que doía tanto, / Uma mesa no canto, uma sala e um jardim...” E ao final ele coroa a letra-poema com essas palavras: “Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim.”

Quando da morte de seu pai, o poeta Augusto dos Anjos escreveu pelo menos dois sonetos. Um deles ele termina com essas palavras: “Quando meu pai deixou o lar amigo / Um sabiá da casa muito antigo, / Que há muito tempo não cantava lá, / Diluiu o silêncio em litanias... / E hoje, poetas, já faz sete dias / Que eu ouço o canto desse sabiá.” Formas e maneiras de se expressar o quanto dói uma saudade. Como negar?

Muitos outros exemplos poderiam ser aqui alinhados. Recentemente recebi do poeta e amigo Mário César del Vignia este pequeno, mas lindo e extremamente expressivo poema. O título é “Um ‘Não’ Calado”, e a autora do mesmo chama-se Olympia Salete Rodrigues. Leiam e releiam esta jóia:

“Você me consultava sempre: / -Eu posso? / -Você quer? / -Você gosta? / -Você deixa? / Eu sempre dizia sim. / Tudo o que me propunha era tão bom! / Agora você morreu / Sem me consultar. / Pela primeira vez / Eu diria não!”

Do amigo da velha guarda, professor Renato Campos, psicólogo e grande espiritualista, garimpei estas palavras: “ A vida segue. Do ontem, conserve e recorde apenas os momentos felizes. Os ruins, delete-os. Receba os amanhãs com a certeza de que fazem parte da contagem regressiva para o grande reencontro.”

Do excelente escritor brasileiro Bruno Kampel, residente na Suécia, chegou-me esta mensagem: “A agonia de quem a padece iguala-se em dor à de quem a acompanha, pois a impotência fere tanto como o deterioro do corpo.”

De outro bom amigo, escritor, poeta e advogado, o Dr. Douglas Mondo, recebi este lenitivo: “A lembrança beija teu coração com amargura, mas beijará ainda mais com o sentir que a vida é maravilhosa e verás a Zezé em cada flor, em cada folha e em cada fruto da árvore da vida.”

A artista plástica brasileira Flóra Cavalcanti, residente em Londrina, Paraná, através de um repasse do jornalista português Carlos Leite Ribeiro, agraciou-me com essas palavras:

“Isso é o que eu chamo de verdadeiros contos de amor, de sentimentos profundos e de respeito a mulher amada. Homens que realmente merecem ser chamados de senhores, por terem a hombridade de chorar, de emocionar-se e de dizer do grande amor que sentiram, e que um dia, viverão na eternidade ao lado da mulher amada.”

Desse imenso manancial de solidariedade humana que de repente dirigiu-se em minha direção, poderia destacar um sem número de maravilhosos textos com que tantos e generosos corações me presentearam. Mas, não caberiam no pequeno espaço de uma crônica. Os poucos aqui registrados traduzem o muito de beleza e sentimento de uma infinidade de amigos e amigas, alguns que a mim chegavam pela primeira vez.

Em agosto de 2001 eu escrevi o poema “Imortal”. Foram exatos 6 meses antes de a vida alterar o script da minha realidade. Digo em seus versos:

“Traz a tua paz para os meus sonhos
E faz que a minha noite seja eterna,
E assim, enquanto a vida hiberna,
Nossas almas, no entressonho,
Vaguearão juntas ao infinito
Num sopro de eternidade e vida.
E numa fuga do que esteja escrito,
Escapando do destino sensabor,
Libertos de incertezas aflitivas,
Distantes do corrupio, da roda-viva,
Buscaremos na esperança mais luzida
A imortalidade desse nosso amor.”

Até então, as saudades que me haviam doído no correr de minha existência estavam infinitamente distantes de gerar a dor maior que me estava reservada pela vida.

(Julho / 2003)

(09 de agosto/2003)
CooJornal no 327


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br