11/09/2003
Número - 331


 

          

Francisco Simões

 

CHAME O LADRÃO (!?)

Com este título não pretendo incentivar nenhum tipo de “desobediência civil” ou enaltecer a criminalidade, absolutamente. Os mais da antiga devem se recordar dessa música do nosso grande Chico Buarque de Holanda. Lembram?

É bem verdade que esta, como tantas outras letras do Chico, foi escrita durante o período da ditadura militar. Que o inferno a tenha. Também é vero que naqueles tempos a violência era de outra ordem, ou de outra origem.

A tortura, por um longo período, foi oficializada, ou institucionalizada, embora desmentida pelos que a abonavam, por baixo dos panos, por baixo das mesas, e por cima das leis vigentes, mesmo as que eles haviam escrito. Muitos presos políticos foram mutilados, outros morreram, outros, talvez mais “sortudos”, saíram ilesos.

Para muitos era mesmo perigoso chamar a polícia, daí... Bem, o tempo passou, a realidade mudou, disseram que a ditadura acabou, que a democracia voltou, etc e tal. É verdade, mas também não exageremos muito nessas comemorações.

Hoje pelo menos podemos falar, denunciar, gritar, votar, portanto vivemos outros tempos, realmente. Mas, é verdade também que a violência renasceu, e cada dia mais forte, aliada ao tráfico de drogas e interesses outros que jorram em todos os níveis sociais. Ela vem do topo da pirâmide, em cascata, até a sua base, com certeza.

A corrupção, esta então, só falta ser, digamos, institucionalizada... Antes ela se escondia nas sombras tenebrosas e protetoras da repressão. Tinha ares de senhora embora sempre fosse uma devassa, uma libertina consentida, mas ai de quem a denunciasse.

Hoje nós podemos acusá-la, delatá-la, porém ela continua a agir impunemente. É verdade que em uns poucos casos a dita cuja, pega com a boca na botija, foi flagrada, detida, aprisionada, mas, dependendo do seu nível social ou hierárquico logo aparece um “hábeas corpus”, ou um mandato de segurança, instrumentos oportunos e legalíssimos, afinal “todos somos iguais perante as leis”, ou não somos?! Todos temos direito à sagrada defesa, ou não? Mas, também aqui não exageremos tanto na assertiva!

Bem, ia esquecendo que há também o recurso da internação hospitalar, muito usado atualmente, por se encontrar o corrupto convenientemente em profundo estado de depressão!! Esta é a cobertura médica, a que nem todo cidadão tem direito, claro. E vamos em frente.

Quanto à justiça social, esta tem se mantido permanentemente e com uma fidelidade impressionante, mas só nos discursos políticos. Invocada com veemência pela esquerda e pela direita, ambas, quando assumem o poder, logo sentem a necessidade de adiá-la por mais algum período. O crítico, antes de oposição, vira vidraça e percebe que é difícil cumprir promessas de campanha. Ficam então todos muito parecidos.

Outro assunto que se encaixa perfeitamente no quadro pintado acima é o desemprego. E o salário-mínimo? E a renda “per capita”? E a CPMF? E a tabela do imposto de renda, que só é voraz contra os assalariados? E a reforma da Previdência?! Sobre esta vale sempre a pena lembrar umas coisinhas.

Dizem que construíram Brasília com o dinheiro da Previdência, e também a ponte Rio – Niterói, além da nossa maior Usina Termo Elétrica, etc. Dizem que o Governo Federal é o maior devedor da Previdência, e não paga. Os clubes de futebol e algumas grandes empresas parecem seguir este mau exemplo, e fica por isso mesmo.

Alguns fraudadores já levaram, através dos anos, centenas de milhões de dólares dos cofres dela, é, da Previdência. Recuperaram somente uma mixaria e fizeram um alarde maior do que o que foi realmente recolhido aos cofres da... Previdência. Mas, na hora de redigirem a letra da “reforma” dela, é, da Previdência, aí sim, lembraram logo dos aposentados. E como lembraram, justiça seja feita!!

Para tentarem cobrir os rombos, antigos e novos, e manterem os privilégios, antigos e novos, avançaram firme no minguado salário da imensa maioria dos aposentados e pensionistas. A estes, por não terem quem os defenda, só resta lamentar o voto anteriormente destinado, consciente, todavia, de que, qualquer que fosse o eleito, a realidade não seria muito diferente. O resto é só propaganda da “neo oposição”...

Pois é, temos liberdade agora, temos sim, mas democracia, autêntica, fidedigna, dentro de parâmetros constitucionais, insistentemente ignorados por nossos governantes, bem, estamos ainda bem longe dela. Não adianta dizer o contrário, só se você se contenta com tão pouco, ou sustenta aquela visão egoísta de que se eu estou bem e os meus também, o resto que se dane. Você pode ser tudo, menos um legítimo democrata, de direita ou de esquerda, não importa o lado.

Até o poder agora se dividiu e compete: oficial e paralelo. Na ausência, ou desinteresse, ou incompetência, ou pusilanimidade do primeiro o segundo avança há muitos anos e se consolida, lamentavelmente. Enquanto o primeiro discursa o segundo age, e o povo que se lixe. Que país é este? Que democracia é esta? Falando sério.

Voltando ao título deste texto, aí está a tortura, não apenas a marginal, promovida por bandidos, criminosos, entre eles os seqüestradores e/ou traficantes, a que todo cidadão de bem está sujeito. O caso do chinês, o Sr. Chang, foi apenas um numa estatística constantemente divulgada pela imprensa. Confissões ainda seriam obtidas, segundo os noticiários, pelo velho e “eficiente” método.

Ainda há poucos dias vimos o caso de alguém que permaneceu na prisão por muitos meses e era inocente. Confessara o “crime”, segundo ele, sob tortura. Felizmente alguém conseguiu provar que o assassino do empresário era outra pessoa. E se tivéssemos a tal “pena de morte”, ainda defendida por muitos?

Bom, mesmo sem a termos, ela vem sendo exercida, tanto pelo “poder paralelo”, (vide o caso do jornalista Tim Lopes, entre outros), como pelo oficial. Ou você acredita que o Sr. Chang realmente teve um “acesso de fúria”, se debateu, e se feriu mortalmente ao bater com a cabeça em uma gaveta?! E o laudo do Instituto Médico Legal?

O nosso maior problema, hoje em dia, é que chamar a polícia infelizmente não nos dá aquela segurança que deveríamos ter sempre. E quanto a “chamar o ladrão”... do jeito que a coisa está, com certeza não será também uma atitude inteligente e nem prudente.

O que fazer então? Se você crê em Deus, reze, e se é ateu ou agnóstico, torça muito e sempre para que a sorte o proteja. Amém.

 

(11 de setembro/2003)
CooJornal no 331


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br