25/09/2003
Número - 333

 

          

Francisco Simões

 

NO DIA DOS NAMORADOS

Em cada data significativa ele sempre dedicava a ela alguns versos ou um texto em prosa. Era uma de suas marcas registradas, assim como todos os dias repetia de forma romântica e incansável “eu te amo.” Ela gostava de ouvir e agradecia sempre com aquele sorriso que o cativou desde quando seus olhares se encontraram pela primeira vez. Era uma das marcas registradas dela.

Muitas vezes, antes de ir dormir, ele costumava espalhar pela casa, em locais “estratégicos”, páginas que carregavam mensagens variadas, sempre dirigidas a ela. Ele o fez por muitos, muitos anos. Ela, ao acordar e ir ao banheiro, se deparava com uma das mensagens que lhe transmitiam sempre o carinho, a admiração, o respeito, enfim, o amor que transbordava de seu coração para o papel.

A cada pequena mensagem que lia, era uma emoção que se renovava em seu coração também apaixonado. Ele, ao mesmo tempo que declarava seu amor a ela, talvez procurasse também pedir perdão por suas culpas, que não eram muitas, é verdade, mas que o incomodavam sempre após sentir o sabor do pecado em cada uma delas. Foram poucas e jamais puseram em questão sobre quem reinava em seu coração.

O tempo era a maior testemunha da longevidade daquele sentimento, ora terno, ora ardente, que os unia a caminho da eternidade, como ele costumava lhe dizer. E ele não mentia. Num mundo violento, onde o desamor separa, agride, enlouquece, atrofia e mata vidas, é difícil explicar como aquele amor resistia aos “modernismos” de uma sociedade doente e em boa parte, decadente. Poucos resistiam como eles.

Ela nascera em berço pobre, muito pobre mesmo, ele, ao contrário, teve todo o conforto de um lar abastado. Suas origens eram bem diferentes, mas a vida escreveu seus caminhos de forma a se cruzarem em determinado dia e hora. Cumpria-se o destino, como dizem alguns.

“Era a vida que te encontrara e te apresentava a mim”... escreveu ele em um de seus poemas a ela dedicados. Ela não escrevia poesias e nem mesmo era muito apreciadora desse gênero literário, entretanto era sempre a primeira e mais importante crítica de seus trabalhos. Ele só considerava seus textos definitivos após a atenta leitura que ela fazia dos mesmos e depois de que emitia sua opinião.

Quando chegava o Dia dos Namorados ele procurava sempre ser criativo e variar as surpresas para ela. Ele repetiu este gesto por décadas e continuaria a fazê-lo se a vida lhe tivesse permitido. Mas, quem sabe o que o destino nos reserva?

Quem afinal entende os tais desígnios de Deus? Quem realmente explica o que é karma e como as pessoas podem ou não voltar à vida, reencarnar, no plano físico, tendo escolhido como nascer, como viver, ou até como morrer, às vezes, segundo dizem alguns, para expiar erros de vidas passadas? Ele aprendera bastante a respeito, mas ainda tinha muitas dúvidas, muitos questionamentos.

Ele costumava ler muito sobre o assunto, pesquisava, se informava, e até ela passou a se interessar pela chamada “vida após a morte”. Conhecimentos teóricos com uma ou outra pequena experiência que poderia ser considerada, de certa forma, paranormal, da parte dele.

Ela, a partir de certo tempo, igualmente mergulhou de cabeça no conhecer o mundo das ciências ocultas. Logo ela que jamais, em toda a sua existência, tivera qualquer atração por este assunto, face a sua rígida formação católica. Ela o surpreendia com aquele súbito interesse, mas também ela mesma jamais entendera isso, a não ser pelo desejo ardente e solidário de buscar formas de ajudar várias pessoas.

Mas, o tempo implacável ia “traçando rugas, desenhando o envelhecer” em ambos os rostos. Eles almejavam um dia que o próprio tempo lhes permitisse comemorar suas bodas de ouro. Pois é, eles sonhavam com aquele dia, mas nem todos os sonhos se realizam, não é verdade? O deles não estava no script de seus destinos.

E chegou então, mais uma vez, o “Dia dos Namorados”. Ele correu para seu escritório, em casa, e tratou de pôr no papel seu sentimento, sua emoção, escrevendo com o coração. Desta feita, porém, ele carregava uma angústia profunda, uma certeza que não queria ter, mas que a realidade lhe lembrava a cada segundo. Ele escreveu numa folha de papel que recebia letras e lágrimas.

Apressou-se em descer as escadas e levar para ela ler. Enfraquecida, sem forças, com os olhos fechados na maior parte do tempo, ainda assim ela foi buscar forças no amor, que não sucumbe jamais, e abriu seus olhos. Fitou-o, ouviu-o dizer que “chegara aquela mensagem para ela” e a seguir esforçou-se para ler o bilhete que estava a sua frente. Ao término do primeiro parágrafo já seus olhos fecharam-se lentamente.

Ele chegou quase a desistir, mas ela reagiu e, novamente olhando para ele, insistiu: “Deixa aí que eu quero ler, e vou ler sim.” Sua voz também era fraca, mas seu anseio em não o decepcionar era mais forte naquele momento. Aos poucos, com algum esforço, ela conseguiu ler o texto até o final.

Ela percebera então que ele, nervoso, não conseguia segurar sua comoção. Balbuciando, ela proferiu algumas palavras querendo confortá-lo. Ele substituiu o pranto por um sorriso úmido e inseguro. Pegou as mãos dela e beijou-as emocionado. Seria o último Dia dos Namorados para eles.

Nos próximos anos ele certamente ainda escreverá, mas não o fará sozinho, a saudade será sua parceira no homenagear seu grande e eterno amor.

Francisco Simões. (Agosto / 2003)  

(25 de setembro/2003)
CooJornal no 333


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br