06/11/2003
Número - 337

 

          

Francisco Simões

 

O TEXTO ESQUECIDO NO ARQUIVO

Um amigo meu sempre me dizia que não há coincidências, mas fatos e situações que estão escritas, que estão determinadas para acontecer. Eu não concordava plenamente com ele, tinha minhas dúvidas quanto a esta segurança com que ele afirmava suas convicções relativamente a destino, mas o respeitava muito e às suas idéias.

Tive no passado algumas experiências que me levaram a me aprofundar em leituras sérias relativamente ao ocultismo. Tentei saciar minha curiosidade, eliminar minhas dúvidas, lendo autores realmente sérios e respeitados no mundo todo. Li e li muito.

Carregava comigo duas sentenças que me haviam sido proferidas por dois senhores, duas autoridades da doutrina espírita. Um nunca soube da existência do outro e os fatos ocorreram, o primeiro em Belém do Pará, quando eu tinha apenas uns 21 anos, e o segundo no Rio de Janeiro, uns 10 anos depois.


Nas minhas incursões pelo ocultismo jamais saí da teoria, não seguindo os conselhos, as sugestões que me haviam sido dadas pelos senhores acima referidos que eu jamais conhecera antes na vida. Note-se que eles vieram a mim, eu não lhes fizera nenhum tipo de consulta à época. Depois nunca mais falei com nenhum deles.

Não tenho autoridade alguma para afirmar ou desmentir qualquer coisa na seara em questão, não obstante as experiências meramente pessoais que tive algumas vezes, no passado. Aqueles senhores me afirmavam com muita convicção de que eu seria médium e que deveria levar isto a sério. A sério eu levei, mas jamais busquei o desenvolvimento que me fora aconselhado. Talvez tenha tomado a decisão errada.


Mantive minhas leituras sobre o assunto, o que agora retomei com mais vigor, por razões óbvias. Digo-lhes isto tudo sem nenhum pejo, ou receio de crítica, ou de submeter-me a algum tipo de ridículo. Quem fala a verdade não deve temer o julgamento alheio, e este, convenhamos, nem sempre pode ou deve se impor como a palmatória para nossas palavras, para nossas convicções, para nossas idéias, ou para nosso comportamento, absolutamente.

Conto-lhes isso agora visto que, de repente, nem sei mesmo por que, se foi o acaso ou estava escrito, não sei, mas ao vasculhar um documento na minha pasta “Curricoutros”, guardada no arquivo com meu nome, deparei-me com este pequeno texto com o título “Solidão”. Nem me lembrava dele. Foi algo escrito num impulso emocional numa noite de tempestade, certamente em 2001 e antes do mês de agosto, pelo que nele escrevi. Se também me perguntarem: “por quê?” desculpem, não saberei lhes responder.

Nessa pasta eu guardo meu currículo de prêmios, biografia, dados pessoais (elementos que envio a concursos literários) entre outros documentos. Ocorre que desde o ano de 2002 eu decidi reduzir e muito minha participação naqueles eventos. Este ano inscrevi-me apenas em 4. Isto é, raramente retornei à pasta “Curricoutros” desde janeiro/2002. Ademais, o referido texto, que divulgo abaixo, nem deveria estar ali.

Bem, achei melhor inserir aqui o texto, talvez inacabado, talvez não, tal e qual ele foi escrito, ou seja, como se encontra na pasta acima referida. Nada foi alterado nele:

SOLIDÃO

“Alguma coisa aconteceu de errado. Tenho que me convencer disto, de que foi o temporal que voltou e inundou minhas idéias. Só pode ser isso. Bolas, tenho que acreditar em alguma coisa, em algo real, palpável, em algo que justifique plenamente este silêncio tão barulhento que me rompe a alma, me rasga a alegria, me nocauteia na saudade….

Bolas, isto só será relido por mim amanhã, talvez, de manhã... angústia cruel, há muito tempo não sentia isto…..estou mesmo ficando bobo….ou mais velho…. Afinal, dentro de pouco mais de 5 anos estarei com 70... e aí? ... Com energia sim, se Deus quiser, mas, dar a quem??? Para quem??? Não vai durar tanto, não creio.

Falo sozinho, com as paredes, com este teclado, muitas letras embaralham tudo e eu me enrosco nas palavras porque não sei mais o que dizer, não sei... Que o amanhã seja de esperança e depois também, mas quem sabe o depois do depois??... E se não for como espero? E se a ilusão tiver terminado??? Se a chama da esperança se apagou com o vento do temporal??

É, sem saber o que se passa comigo até tenho medo, muito medo. Falo feito um louco e peno como um cão abandonado pelo dono... Vou parar, não adianta ficar batendo na porta, ela está trancada por dentro... será que o coração também?? Este é o meu medo maior, mas eu já vivi tanto, já sofri muito, amei muito, por que este desespero então?

Calo-me, retiro-me, vou sumir nas trevas que me rodeiam às 23:35 hs..... A vida continua... Que nunca mais eu tenha outra noite igual a esta, nunca mais.....”

Acredito que tenha sido apenas um momento de reflexão que me fez mergulhar em sentimentos que não se justificavam até porque eu vivia uma felicidade imensa, tanto no meu relacionamento com minha esposa, como na maravilhosa acolhida de meus textos por pessoas que os comentavam rotineiramente. Eu era realmente feliz.

Poderia ser entendido como algo com sinais premonitórios? Algum presságio como indício de acontecimento futuro? Não sei, embora meses depois tenha se revelado o mal que ceifou a vida de quem eu mais amava. Talvez apenas uma coincidência, mesmo contrariando a opinião, ou as convicções, do meu amigo a que aludo acima.

Não adianta querermos especular neste terreno. Quanto mais pensamos que sabemos, mais vamos descobrindo o quanto desconhecemos. Ninguém se julgue dono da verdade. Muito, mas muito poucos, tiveram o privilégio de estar em contato com ela até hoje. Para mim foi apenas um texto esquecido no arquivo que agora veio à tona.


 

(06 de novembro/2003)
CooJornal no 339


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br