20/02/2004
Número - 356

 

 

          

Francisco Simões

 

CONCERTO DE VERÃO

Maravilha, o sol voltou a se hospedar em Cabo Frio. E veio com tudo. Na bagagem trouxe o verão, muita alegria, muita beleza, um ano novo cheio de esperanças (como se isto fosse alguma novidade!!), e já saiu distribuindo amor a quantos corações estejam preparados para recebê-lo.

Minha querida Cabo Frio, entretanto “engordou”, e “engordou” demais. De uma população residente em torno do 140.000, ao se “pesar”, já nos últimos dias do ano velho, ela registrou cerca de um milhão de visitantes, de turistas, a mais. Mas todo verão é assim mesmo. Até o final do Carnaval temos que conviver com este quadro.

Ordem do dia, ou de todo dia: acordar, mais ou menos, cedo, tomar o desjejum, e rumar para a praia. Pelo caminho você já vai imaginando a visão do mar, o reencontro com amigos que você não vê o resto do ano, o mergulhar na água fresquinha para em seguida iniciar a caminhada diária. Esta é importantíssima para nossa saúde. Então, pernas pra que te quero...

E lá vou eu. A areia da praia quase não se vê, tal a multidão de pernas, braços, cabeças e outras partes (e que partes...) que abundam por toda a largura da areia. Esbarro em alguém, alguém esbarra em mim, tudo tão rápido que nem dá tempo de pedir desculpa. Acelero o passo mas... não consigo andar nem cinco metros em linha reta. É uma verdadeira prova de obstáculos e paciência.

Sigo em frente (e de lado) mas não desisto. Súbito sou quase alvejado por uma bola “perdida” de frescobol. Este verdadeiro “tiroteio” também é comum, não só aqui, como nas praias pelo Brasil, em geral. Você me pergunta se este “esporte” é proibido, na praia, e pela manhã? Claro, amigo. Se existe lei a respeito? Correto, amigo. Se há fiscalização na praia? Perfeitamente, amigo. Por que eles não tomam providências? Ora, pergunte ao Sr. Prefeito, por favor.

Procuro molhar os pés na escuma das ondas quando desmaiam na praia, isto nos refresca um pouco para mantermos o ritmo. Vamos em frente. Quanto mais caminho rumo ao Forte de São Mateus mais percebo que o espaço à minha frente vai se tornando insuportavelmente labiríntico. Alguns “obstáculos” são largos e pesados, outros mais elegantes, outros fascinantes, outros torturantes à vista, ao toque, pesadelos ambulantes.

Enfim, uma massa turística democrática, do social à belezama, do feiúme à absurdez, da formosura ao antiestético, do cortês, polido, ao impudico, obsceno e mestre nas artes da impolidez. Um cão, sem nenhuma cerimônia, sem coleira, sem guia, numa descontração libertina e soltura de ventre desordenada, foi pontilhando o chão à minha frente, numa ação excrementosa, com “croquetes” de dejetos mal cheirosos.

Escapei por pouco daquela “armadilha” não intencional, mas intencionalmente um guri, de uns 5 anos, acertou-me em cheio com um punhado de areia molhada. O pai ainda riu. Com um educador daquele jaez qualquer tentativa de diálogo seria um desperdício de idéias e de palavras. O jeito é sorrir também, fazer cara de bobo, mesmo cuspindo marimbondo, e ir em frente. Nada que um rápido mergulho não lave o corpo, a alma e o nosso orgulho ferido. É o verão em Cabo Frio.

Na caminhada de volta, o vento, por estar nordeste, pouco nos refresca e o efeito do calor se torna mais abrasador. Quase uma sauna ao ar livre. Paro numa barraca ambulante e compro uma pequena garrafa de água mineral, sem gás, bem gelada. O meu “carburador” estava quase fervendo.

Mais alguns passos e desvio bem na hora em que uma bola de futebol, segundo dizem, “procurava um craque”. O chute, mal endereçado, passou a poucos centímetros do meu corpo e foi embater-se contra o traseiro de uma senhora que desequilibrou-se e ... pimba... enfiou o rosto na areia e os seios no balde de uma menina que, de imediato, mostrou seus dotes de soprano infantil.

Berros alucinantes traduziam seu susto e sua fúria. Dentro do balde havia um peixinho que acabou se acomodando na enseada entre os largos peitos da respeitável dama atingida. –“Quem foi o filho da ... que jogou essa bola?” – gritou a alvejada senhora. O jovem, dono da pelota, preferiu a perda do que a identificação.

Retomo meu cronômetro controlando o tempo da caminhada. Ao ver um casal de mãos dadas, coisa rara hoje em dia entre namorados, logo recordações me assomaram à mente. Era inevitável. Não se esquece um hábito, tão fortalecido por rotinas diárias, assim tão rapidamente. Quem sabe nunca seja arquivado no esquecimento. Meus passos perderam o ritmo, mas logo adiante retomei a passada.

Cruzo, no andar, com amigas do meu condomínio. Sorrisos, cumprimentos e um beijinho à distância. Já me aproximo da barraca do Pedro, nas dunas, reduto do Braga. Percebo que o calor aumentou, afinal o vento parara de soprar. Tomo uma ducha de água doce, em plena praia, que o Pedro oferece aos seus fregueses. Por entre as dunas dá para ver uma procissão imensa de pessoas se dirigindo à praia. Tomo logo posse do meu pequeno mas valioso espaço.

Água de coco geladinha, empadas praiana, a sombra que abriga e reconforta, e na barraca ao lado inicia-se um som ao vivo, inovação deste verão. Surpresa boa: os moços tocavam música da melhor qualidade. Estico a perna sobre a outra cadeira, mergulho no relaxamento mas logo percebo que o vento voltou, é, voltou, e agora sopra sudoeste. Detalhes que na cidade grande ninguém costuma perceber.

O sudoeste é parceiro da chuva. Prenúncio de mudanças para mais tarde. Minutos depois nuvens escuras riam da felicidade dos banhistas que pretendiam prolongar a estada na praia até o final da tarde. Realmente, já em casa, quando eu acordava de uma sesta revigorante, por volta das 18 horas, ouvia os primeiros “acordes” dos pingos d’água na cobertura da área dos fundos. Cumpria-se a previsão do tempo.



(20 de fevereiro/2004)
CooJornal no 356


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br