27/02/2004
Número - 357

 

 

          

Francisco Simões

 

ORA DIREIS, AMIGOS!!

Você vive anos e anos seguidos a lidar com as mesmas pessoas numa determinada comunidade. Você convive mais com uns, menos com outros, isto é normal e ocorre em todo grupo social. Alguns lhe são simpáticos e mostram uma amizade solidária e fiel. Outros, gratuitamente o evitam, ou não mostram qualquer interesse em desfrutar de sua amizade, de sua companhia.

Assim é, em termos gerais, a vida diária de um grupo de pessoas, de famílias, por exemplo, em um condomínio. Quanto maior este, crescem as possibilidades de você, isoladamente ou em família, acabar participando de eventos onde compartilhará momentos com pessoas que o tratam amistosamente, e também com aquelas que fazem questão de o ignorar, sem que nunca você descubra por que.

As pessoas são muito diferentes umas das outras, ainda que amigas, ainda que dividindo alegrias e tristezas com você e com os seus. Raras são as semelhanças. Não se iluda, afinal já dizia o velho ditado que “as aparências enganam”, e como enganam. Mas, não se engane você, amigo. Pelo menos, não se engane, como eu...

Se entre os que o evitam, deve haver pessoas de caráter, confiáveis, honestas, entre aqueles que você considera amigos nem todos certamente corresponderão integralmente à sua confiança, à sua amizade incondicional, à fiabilidade que neles deposita. São os reversos da impostura que é desmascarada com o tempo.

Dizem que o tempo é remédio para muita coisa, e é verdade. Serve para aliviar sofrimentos, para atenuar desenganos, mas também para revelar o lado oculto, ou enrustido, ou disfarçado, de certas personalidades. Talvez seja o tempo o nosso melhor aliado em todas essas circunstâncias. Ele o ensinará a vida, como ela é, basta que você seja um bom aluno, esteja aberto e atento aos sinais.

Pois é, nosso amigo tempo, que “mede a vida com a régua do destino”, como digo em meu poema “Passando o tempo”, escrito em agosto / 2000, realmente ele é o nosso mentor, nosso guia, nosso conselheiro, o mestre que nos acompanha, que nos desnuda com o passar do... tempo, que nos põe a descoberto, que revela qualidades e defeitos das pessoas, por mais esconsos ou abscônditos no âmago de cada comportamento.

Mas, digamos que sua vida muda de repente e então você se percebe só. Quando você mais precisa de apoio observa que este vem, muitas das vezes, de seres humanos que você conheceu através de uma máquina, e de uma máquina, convenhamos, não muito confiável... E os amigos mais próximos, aqueles com quem conviveu há tantos anos e ainda convive na comunidade? Alguns que lhe faziam festa? Que, amigos, se diziam?

Aí você começa a enxergar melhor, a discernir e ver claramente os que, afinal, não carregavam na alma qualquer falsídia. Esses você contou nos dedos das mãos, das duas, mas só. Foi o suficiente, porém menos mal. Amigos que dividiram a dor com você, que em sua lealdade ofereceram alguma ajuda. Amigos do peito e do coração.

Enquanto estes exercitavam a solidariedade outros mais se preocupavam em intrigar sobre seu novo rumo, sobre suas novas decisões, em palpitar sobre a vida que não lhes pertence, que é livre e apenas sua.

Palpitar é pouco, a impudência de alguns os moveu à fuxicaria, à mexericada, e levianamente, rasgando qualquer sentido de seriedade, pintaram mentiras de verdade e as ofereceram despudoradamente na feira dos adeptos da falsia, da calúnia, a custo de hipocrisia. Triste e decepcionante foi você ver que havia quem as aceitasse, as acolhesse e até se incumbisse de as divulgar.

Amigos, ora direis... amigos!! Falsos cognatos, biltres, ladros da verdade que picham, que enlameiam, que desrespeitam. Ora direis... amigos!! Sorrisos masturbados, abraços de felonia, encômios baratos mascarando a cara traição. Enfim, décadas de um castelo de areia que simbolizava amizade e que rui, em rápidos minutos, em palavras e conceitos que desenharam petas e intrujices.

Seu bom senso acorda para um pesadelo torturante da confiança crucificada. Ao inferno com tanta deslealdade. Você se lembra então que sua avó já dizia: “Aqui se faz, aqui se paga”. É verdade, creia que a lei do retorno, ou de causa e efeito, é aplicada pela vida sem marcar dia nem hora, mas não falha. Não é vingança, é justiça.

Você olha em volta de si e vê a lealdade, mas nos olhares mais simples, nas mãos que nunca se recusaram a levantá-lo, nos corações que sempre riram e choraram no mesmo compasso com você, nos sentimentos que sempre partilharam seu sofrimento, mitigando-o com seu amor, sua fé, sua esperança, que nunca lhe cobraram nada, apenas se doaram. Vidas realmente solidárias.

Amizades também de longo tempo, seu pequeno mundo, como você dirá, porém onde ninguém jamais “trocou de camisa”. A falsidade não consegue entender esses gestos e então os ridiculariza, os interpreta à mercê da sua própria perfídia, hábitat de sentimentos mesquinhos, desditosos. Línguas ferinas, mentes infiéis. E você se lembra de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena quando a mente não é pequena.”

Se você é avançado na idade, recorrerá também a amigos da “velha guarda”. O universo deles já foi bem grande. Eram inúmeros, na labuta diária, nos almoços compartilhados, em festejos, acontecimentos compartidos na alegria e na tristeza. É, você descobre então que eram... eram muitos, hoje são tão poucos. Você arrisca, tenta o reencontro, busca a reaproximação que a distância dificulta. Quanta decepção!

O silêncio correspondeu às costas viradas na sua tentativa de testar a velha chama da amizade. Mais uma vez os dedos de uma das mãos foram o limite e o malogro à sua esperança. Ora direis...amigos...!! Agradeça a Deus pelo saldo, pequeno, mas fiel.

Quanto aos Judas, não os condene, eles já terão feito por onde merecer tal sentença. O mal por si próprio se destrói, conserve o bem em seu coração. A vida é sua. Viva-a.




(27 de fevereiro/2004)
CooJornal no 357


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br