05/03/2004
Número - 358

          

Francisco Simões

 

SINFONIA DE VERÃO

Quando eu vou à praia sinto um prazer imenso, entre outras coisas, em ouvir, quando as ondas escachoam, os sons de sua arrebentação. Aquele continuar, aquele moto-perpétuo pelo qual o mar se comunica conosco e com o resto da natureza. Recosto-me, fecho os olhos, e deixo a imaginação fluir nas asas da “sinfonia do mar”.

Não julgo, entretanto, como escreveu Dorival Caymi, que seja “doce morrer no mar”. Vá lá que seja uma imagem, como tantas outras, que, no devaneio poético, se explica por si só, sem justificativas que a lógica poderia exigir. Aliás, a lógica exige coerência de raciocínio, de idéias, e isto não se pode nunca impor ao poeta, pelo contrário.

Mas, ouvir e dialogar com o mar, aqui em Cabo Frio, podemos fazê-lo durante todo o ano, exceto, porém, durante o alto verão. Neste período ecoam por toda a praia os mais variados sons. Vem de cada barraca “uma sentença”, digo, uma música diferente expressando gostos variados. Em alguns casos, bem duvidosos...

Um dia, após a caminhada, eu sentara na única mesa ainda disponível na barraca do Pedro, aqui nas dunas do Braga. É o ponto de encontro de quase todos que moram no nosso condomínio. O problema é que ela estava situada bem embaixo do alto-falante que nos despejava o som agressivo-musical de uma rádio FM local. Tudo era feito aos gritos: os anúncios, o papo do comunicador, a seleção musical (?!)...

Para quem estava lúcido, tomando apenas uma geladíssima água de coco, e se julga alguém com um gosto meio refinado, embora nem tanto exigente, aquilo era uma autêntica tortura. Ainda resisti uns 45 minutos, antes, porém, de ir a nocaute fui acertar a conta, tomar uma ducha fria e encarar o caminho de volta à casa entre as nossas dunas.

No dia seguinte, também após a caminhada, tratei de ficar mais próximo da barraca ao lado. Lá eu percebera que havia um som ao vivo. Menos mal, havia só um rapaz com um violão, um microfone, e tudo parecia ser mais agradável. Sentei, pedi minha água de coco, estiquei as pernas, e quando apreciava indiscretamente um jovem casal aos beijos ouvi os primeiros acordes tangidos pelas mãos do violonista.

Logo reconheci a música e percebi que o rapaz tinha bom gosto. Até que tinha. Mas, como dizem que alegria de banhista dura pouco, após a introdução ele resolveu... cantar!! Santa Misericórdia!! Pose ele tinha, mas derrapava constantemente na pauta, na escala, no tom, na afinação quase capotando ao esbarrar numa clave de sol... Fiquei imaginando quem seria o malvado que o teria convencido que era cantor!!

Olhei para trás, pois queria ver-lhe o rosto. O cara era todo sorrisos e acenava com a cabeça crente que cada olhar para ele voltado era uma confirmação de sucesso absoluto. Quanto mais ele se empolgava, mais derrapava na pauta, recurso, aliás, utilizado por alguns que andam por aí a exibir-se até na Tv quando lhes falta o essencial: a voz.

O pior, para a ilusão do violonista, era que, ao terminar certas “interpretações”, uns poucos que já haviam tomado todas (cervejas, caipirinhas etc) e que já estavam vendo até estrelas em pleno meio-dia, simplesmente o aplaudiam entusiasticamente... Quanta maldade.

Nessa fase há uma única forma de se ouvir o que chamo de “Sinfonia do Mar”, é quando caminhamos bem à beira-mar, tendo a escuma como tapete e o afluxo terminal das ondas a nos acariciar os pés. Nada se sobrepõe, ali, aos acordes do escachoar do ondeio do oceano. Ou, pelo menos, não deveria se sobrepor...

Bom, a verdade é que a “sonata marítima” sofre, sim, vez ou outra, um processo miscível de sons que costumam avançar de forma avassalante na escala de decibéis rasgando a harmonia, a paz que nos emite a “Sinfonia do Mar”. Gritos quase lancinantes, berros estridentes de mães correndo atrás de seus rebentos fugidiços.

Outras vezes são os pequenos seres, tão lindinhos, umas gracinhas, que provam poder alcançar os mais altos degraus da escala do esgoelamento infantil. E o fazem apenas por diversão, por prazer, no mundo do faz-de-conta. É o alto verão em Cabo Frio, a praia, o espaço mais socializante e liberal do mundo em hábitos, costumes, vestimentas, nível social, escala hierárquica, raças etc, pelo menos aqui para os nossos lados.

Enquanto na Europa, como na França, por exemplo, há espaços que discriminam, visto que são bem delimitados, com uma infra-estrutura magnífica de apoio ao banhista, mas que lá só entra quem paga, e eu paguei para conferir. Aqui a praia ainda é de todos, para todos, e nenhum político pensou em “inventar” ou copiar esses exemplos da Europa, privatizando “hectares de areia”.

Para quem não conhece, indico visitar as praias de Nice e Cannes, por exemplo, entre outras. A ressaltar como positivo é que por lá, na praia, ninguém, mas ninguém mesmo joga frescobol, futebol, cachorro não entra praia (há placas indicando a proibição) e há leis que, claro, são cumpridas.

A diferença é que aqui até há leis, mas quem cumpre??!! E vá você reclamar de alguma bolada que o atingiu, ou a alguém de sua família. Já passei por esta experiência. Hoje prefiro agir como o incomodado que se muda, ou contornar, bem distante, os irresponsáveis “atletas” do frescobol. Um dia a gente aprende.....

Voltando a nossa Cabo Frio, não podemos esquecer o “coral” dos vendedores, os ambulantes e os fixos. Afinal a propaganda é a alma do negócio. No verão eles formam um exército impressionante de milhares de brasileiros que, pelo menos naquele período, não se encontram nas fileiras dos desempregados. E haja “coral”!

Pois é, até depois do Carnaval, aqui prevalece mesmo é a “Sinfonia do Verão”, em detrimento da “Sinfonia do Mar”. O jeito é relaxar e esperar...




(05 de março/2004)
CooJornal no 358


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br