12/03/2004
Número - 359

 

 

          

Francisco Simões

 

VAMOS À DENTISTA?

Em qualquer pesquisa de opinião pública que vierem a perguntar quem tem medo de dentista com certeza a maioria vai apresentar respostas em vários graus que denotarão a dificuldade de assumirem a única que quereriam dizer: “Tenho sim.”

Não duvidem do que afirmo acima. Além de mim mesmo, que assumo a carapuça desde os 9 ou 10 anos, conheço muita gente que “joga neste time”. E bota muita nisso, mesmo. Mas, certamente um batalhão de entrevistados iria pigarrear, tossir, fazer outros tipos de cacoetes antes de responder àquela pergunta fulminante.

Ao responderem sairiam expressões como “bem depende, quer dizer...” ou então, “bom, não é que eu tenha medo, sabe”, ou ainda, “medo, eu, não, só não me sinto muito à vontade no dentista...” etc e tal. Todo este exercício vocabular para tentar fugir pela tangente do... medo. Podem crer.

Entretanto, os “corajosos”, os “valentões”, os “cupinudos”, os “cabras-machos”, os “sarados” etc, jamais o admitirão, nem como um simples receio. “Imagina, ter medo de um ou de uma dentista!. Eu, hein, isso é coisa de gente frouxa.” Já escuto alguns a fazer tal afirmação de coragem, de valentia, de arrojo... Êta cabras machos...

Quando confesso que meu desconforto ao sentar na cadeira de um odontologista vem de longa data, já desde criança, é porque o profissional que atendia a nossa família, e que aos domingos passeava a cavalo com meu avô Simões, tinha a mão bastante pesada. Aliás, as duas. Só não dava “coices”, mas quase.

Diante de minha fraqueza, ele não pestanejava em me intimidar, ainda mais, com aquelas gozações de quem se sente superior ao espezinhar um... medroso, um cagarolas, como se dizia por lá. Mal comparando, quando tínhamos que adentrar ao recinto eu me sentia como que um “condenado”, e ao ir para sentar, parecia dirigir-me à cadeira elétrica...

Sempre que minha madrinha precisava me levar ao consultório daquele “carrasco odontólogo” meu sofrimento, minha angústia, começavam na véspera. À noite era certo eu ter pelo menos um pesadelo. Ao despertar preferia que o mundo tivesse acabado. A consulta costumava ser à tarde, garantia de que pela manhã ficava difícil prestar atenção na aula, no Colégio Nazaré, de Irmãos Maristas.

O tempo passou, eu cresci e conheci, anos depois, apenas mais um dentista, um colega do BB e meu amigo, no Rio de Janeiro. Fui cliente dele, junto com minha esposa, por muitos e muitos anos. Ele pelo menos era calmo, tranqüilo, paciente, mas... lá estavam mais duas mãos pesadas. Parecia ser a minha sina.

O fato é que eu evitava procurar o dentista e só ia a ele quando realmente não dava para continuar bancando o “fugitivo”. Pelo menos numa coisa nós combinávamos perfeitamente: ele também era vascaíno... Em política nem dava para iniciar um papo, discordávamos quase sempre.

Novamente mais alguns anos se passaram, minha vida também mudou, mas o raio do “medo de dentista” parece que continuava latente. Certa noite, porém, quando eu jantava com amigos no Restaurante Tonto, da boa amiga Vera e seu marido, desfrutando da bonita visão noturna do nosso Canal de Itajuru, aqui em Cabo Frio, eis que de repente uma velha coroa cedeu ao peso dos anos e misturou-se com o delicioso filé que eu deglutia.

Felizmente houve tempo hábil para fisgá-la antes que fosse causar-me algum estrago ao estômago. Dois dias depois eu estava sentado novamente, por força das circunstâncias, numa cadeira de dentista. Fora a boa amiga Marlene, hoje minha “dama de companhia”, a cuidar deste coroa (sem trocadilhos) só e meio perdido nesta vida onde a luz maior se apagou, que indicara a profissional.

Vejam que digo “a” profissional, pois pela primeira vez eu teria uma jovem a vasculhar a minha “caverna bucal”! Amigos, também pela primeira vez senti que eu não teria medo de dentista. Bonita, sorriso cativante, voz meiga, paciente, e... mãos leves, muito leves. Até tomar anestesia e encarar aquele torturante motor tornou-se mais fácil. É verdade.

Por que anestesia e motor? Bem, a dentista acabou por fazer um, digamos, balanço geral nos meus heróicos e resistentes dentes, os últimos e fiéis amigos que, há tantas décadas, substituíram definitivamente meus singelos dentes de leite. E tome broca, e mais anestesia, além de outras ferramentas necessárias.

O tratamento está quase acabando, faltam apenas duas pequenas obturações. Tenho adiado por falta de tempo, mas também, sei lá, por alguma pequena “recaída” ao presenciar vários tratamentos de canal seguidos a serem feitos na minha amiga Marlene. Faço companhia a ela em retribuição ao apoio que ela também me dá nas minhas sessões com a nossa querida Doutora Andréa.

Pois é este o seu nome: Doutora Andréa. Aliás, a boa acolhida já começa na sala de espera quando somos recebidos pela sua secretária e assistente, a jovem Renata. Esta sempre nos premia, antes do “boa tarde”, com aquele sorriso amigo e contagiante.

Com tanta atenção e carinho eu tinha mesmo que mudar minha opinião sobre dentistas. Mas, com a devida cautela, pois ainda deve haver muitos “mãos pesadas”... O importante, porém, é que conhecemos a Doutora Andréa. Então, vamos à dentista?




(12 de março/2004)
CooJornal no 359


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br