19/03/2004
Número - 360

 

          

Francisco Simões

 

CAIU O PRIMEIRO PINÓQUIO BELICISTA

Quando morei por 4 longos períodos na Europa, aprendi a admirar, a respeitar, o bravo povo espanhol. Sua história, sua luta pela liberdade, sua cultura, e o imenso respeito a esses e outros valores.

Agora, mais uma vez aplaudo aquela gente por ter dado uma inegável prova de consciência política, de cidadania, reafirmando, nas urnas, no dia 14.03.2004, o que já diziam em inúmeras passeatas, por meses seguidos, repudiando o apoio de seu governo ao clima belicista, cada vez mais acirrado, que vinha de longe, de quem pensa que tudo pode, que em tudo manda, que está acima das leis.

Ocorre que o mesmo mundo que deplora e diz NÃO à barbárie do terrorismo internacional, covarde e desumano, clama por paz, não deseja também, em hipótese alguma as “novas regras”, as “novas leis” geradas em corações e mentes que colocam, acima do valor de vidas humanas, os muitos interesses escusos de domínio político, de posse do que não lhes pertence, de perseguição, de imposição de valores que uma grande parte deste mesmo mundo tem o direito de rejeitar. Afinal, não são os seus.

Ainda tentando sarar a ferida da dor maior da perda de tantas vidas por um ato covarde, como é todo ato terrorista, ainda estarrecido e enxugando as lágrimas perante imagens chocantes de irmãos de sangue dilacerados no maior atentado já cometido naquele país, o povo espanhol soube dar ao seu governo, sem violência, a resposta consciente, democrática, pelo exercício de sua cidadania. Imagem digna de registro a do jovem, vítima daquela barbárie, muito ferido, em cadeira de rodas, comparecendo para votar.

O P.S.O.E. volta ao poder na Espanha, após 8 anos, mas o mais importante foi realmente o NÃO à arrogância, ao descaso do Sr. Aznar para com a vontade popular, ao servilismo claramente maquiado de solidariedade aos senhores considerados donos do mundo, proprietários da verdade única, eles que sustentaram por algum tempo o lema de “ou estão conosco ou estão contra nós”. A democracia mostrava então o outro lado de sua face com semelhanças e traços de um mal disfarçado autoritarismo.

Na época eu escrevi “Onde estão as respostas?” que poderá ser lida, ou relida, na relação de minhas crônicas, tanto no coojornal do Rio Total, como no meu site pessoal, em “Política”. Até hoje aguardo a maioria das respostas àquelas questões.

Mas, quando escrevo este texto, acabo de ver e ouvir pela TVE, o novo Primeiro Ministro espanhol, Sr. José Luiz Rodriguez Zapatero, dizer essas palavras: “O Sr. Blair e o Sr. Bush precisam fazer autocrítica. Não se pode organizar uma guerra com mentiras.” Pois é, e quem mente pode ser caricaturalmente chamado de Pinóquio. Ora, pelo menos três governantes internacionais atingiram este estágio.

Ninguém pode dizer que ignora já ter sido mais do que revelado que não havia armas químicas no Iraque, e que tudo de vitória que o Sr. Saddam também cantava antes, contra as forças invasoras, não passava de bazófia. Até seus mais leais soldados de elite fugiram porque sabiam que não dava para enfrentar as tropas mais bem armadas do mundo. Até Saddam se juntou ao grupo dos Pinóquios, afinal.

Quando o Iraque teve armas químicas no passado e massacrou o povo curdo, todos, minimamente bem informados, sabemos de quem o Sr. Saddam era aliado, a quem servia para ajudar a expulsar o fanático comandante religioso do Irã, e de quem recebia os armamentos. Agora, como antes, ele sempre foi o mesmo déspota, ditador cruel e sanguinário, sim senhor, só que naquele tempo ele foi útil, muito útil aos que agora o cassaram e prenderam, e deles, apesar do massacre promovido por Saddam, à época, não mereceu críticas, apenas indiferença e silêncio.

Desta feita, porém, como não havia armas químicas, nem o Iraque tinha poder de fogo para ameaçar ninguém, mentiram e repetiram a mentira para que todos acreditassem que ela fosse uma verdade. Pior, muitos acreditaram na “verdade”, ou fizeram que sim, como o agora derrotado Sr. Aznar, além do Sr. Tony Blair, que já escapou de dois impeachements, mas que poderá não escapar do julgamento popular quando chegarem as eleições inglesas. Pensavam talvez em tirar vantagem naquele apoio à incontrolável aventura belicista promovida por quem cuspiu no direito internacional.

Sobre o Sr. Blair ainda houve o agravante de documentação falsa usada para convencer seus compatriotas da necessidade da invasão ao Iraque, suicídio de uma testemunha que poderia elucidar algumas dúvidas, etc e tal. Mentiras, mentiras e mais mentiras. E fizeram guerra baseado em mentiras, como, aliás, deixou bem claro o novo Primeiro Ministro Espanhol. A afirmativa não é minha.

Permitam-me aqui reproduzir um trecho do artigo assinado por Vital Moreira, no jornal português, “O Público”, edição de 16.03.2004:
“A "guerra ao terror" não se faz gerando mais terroristas e facultando-lhe mais pretextos, mas sim evitando o seu crescimento e "secando" os seus apoios. Não se faz respondendo com guerras contra terceiros aos actos terroristas, depois de efectuados, mas sim criando as condições e os meios para os impedir (por exemplo, investindo mais nos serviços de informações, que saem tão mal do 11 de Março como já tinham saído do 11 de Setembro).”
“Como alertava o juiz espanhol Baltasar Garzón - só faltava ser ele também suspeito de pusilanimidade contra o terrorismo!... - em carta aberta dirigida a Aznar em 4 de Março de 2003, há um ano, protestando contra a guerra, "a única coisa que esta guerra injusta vai provocar é o crescimento do terrorismo integrista a médio e a longo prazo. (,...). O seu crescimento noutros lugares, entre os quais a Espanha, é tão evidente quanto terrível e V. Sa não quer ou não sabe vê-lo". Infelizmente, ele só se enganou no prazo, que foi mais curto do que o receado.”
E no Iraque quem mais sofreu, e ainda sofre, é a população civil, homens, mulheres e crianças, que morrem diariamente em continuados atentados na luta pelo poder e/ou pela expulsão dos invasores. Morrem agora mais do que morreram durante os dias que durou a “guerra”. E quem se lembra de chorar por eles, quem se importa?!

Só no Afeganistão morreram, e ainda morrem, muito mais pessoas do que as que lamentavelmente foram vitimadas no atentado das torres em Nova York. Ninguém, nenhuma nação vai pretender vencer esta praga do novo milênio, que é o terrorismo internacional, promovendo guerras, fazendo cara feia, ou espalhando ameaças para todo lado. Ledo engano.

Enquanto as nações não enfrentarem este problema a sério, sem bravatas, enquanto as lideranças mundiais se mantiverem na mesma postura a que vinham aderindo até agora, acredito, lamentavelmente poderemos ter que chorar por muitas e muitas vítimas inocentes mais. Se a estratégia, nada inteligente, não mudar, infelizmente é possível que o terrorismo continue recrudescendo. Pena que os senhores “estrategistas” estão sempre bem protegidos e nunca vão à luta!

Mas, encerrando, lembro que o bravo povo espanhol tirou da dor, do sofrimento, o clamor por mudança de atitude de seus governantes. O povo espanhol deu o exemplo, mostrou o caminho. Caiu o primeiro pinóquio belicista. Agora aguardemos as próximas eleições na Inglaterra e nos EUA.




(19 de março/2004)
CooJornal no 360


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br