26/03/2004
Número - 361

 

          

Francisco Simões

 

QUEM REALMENTE PRATICA TERRORISMO?

Pretendo iniciar com este pensamento atribuído a Shakespeare: “...o mal que os homens fazem, vive após eles, o bem é sempre enterrado com seus ossos.”

Para o julgamento de alguns, terrorista é apenas aquele que engendra ataques covardes, cruéis, com o objetivo sempre de matar seres humanos para alcançar seus objetivos. O dicionário define o terrorismo como: “Forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência.”

Ambas as definições estão corretas, embora muito longe de retratar com fidelidade um ato de terror. Vamos nos ater apenas a este nosso tempo, pois se mergulharmos no passado, na história da humanidade, o espaço de que disponho não seria suficiente para falarmos sobre este assunto sem deixar de fora tantos exemplos.

Assusta-me, como a todo cidadão de bem, o ver que o mundo atual parece se encontrar repleto de minas para todo lado. Minas e mentes criminosas. Estas não estão apenas escondidas em cavernas, ou em desertos, mas também em palácios, muitas delas tendo nas mãos o poder de decidir quem deve viver e quem deve morrer, atitudes semelháveis as dos mais covardes adeptos do terrorismo. Ou não?

Temos presenciado atos da maior barbárie cometidos por pessoas que, pelo requinte de maldade, de crueldade de seus atos, é difícil de crer que possam ser classificados como seres humanos, e muito menos, como “feitos à imagem e semelhança de Deus”... isto para quem crê em um Deus de amor, de paz, um Ser perfeito.

Não importa a causa que digam defender, nada justifica o ceifar tantas e tantas vidas humanas para impor-se pela violência a fim de ganhar uma causa, uma batalha ou uma guerra. No meu entender, numa visão mais ampla, a execrável prática do terror, entretanto, não se resume à ação de grupos que agem à margem da lei, foragidos ou não, tendo a surpresa como seu aliado no delito que aterroriza, que mata, que imola e que algumas vezes incorpora sua própria vida num ato suicida que, na visão do criminoso, o redime, o resgata, o compensa com a salvação eterna.

Em nível semelhante é de se colocar aqueles que, sob o pretexto de enfrentar esse mesmo terrorismo, já que exterminá-lo totalmente me parece algo quase impossível, usam seu poder de fogo para também matar com impressionante frieza, em sua grande maioria pessoas inocentes, entre homens, mulheres e crianças. Afinal, isto vem se repetindo constantemente, algumas vezes até por “erro de cálculo” ou lá o que seja.

Quando alguns iniciam uma guerra, geralmente desleal, pois contra países que sequer têm tido condições de se defender, enquanto eles, em forma de aliados, usam de todo o seu poder de destruição, o que estão fazendo? Alguém já se deu ao trabalho de levantar dados que provem quantos verdadeiros terroristas (seus alvos!!) foram mortos tanto no Afeganistão quanto no Iraque? E no que se refere a pessoas inocentes, especialmente velhos, mulheres e crianças? Alguém tem esses dados?

Garanto que estes são a maioria, por todo o noticiário que sempre acompanhei na imprensa internacional. E afinal, esses são as mesmas vítimas dos autênticos e desprezíveis terroristas. Lamentavelmente ainda há pessoas que só computam mortos desta ou daquela nacionalidade, e menos se importam com as vidas perdidas ou mutiladas, seja qual for o seu sangue, o seu credo, o seu idioma. E são cristãos!!

Confirmando o que aqui advogo, reproduzirei parte do excelente artigo do jornalista português Vital Moreira, publicado no jornal “O Público”, de Portugal, na edição do dia 16.03.2004:

“A "guerra ao terror" não se faz gerando mais terroristas e facultando-lhe mais pretextos, mas sim evitando o seu crescimento e "secando" os seus apoios. Não se faz respondendo com guerras contra terceiros aos actos terroristas, depois de efectuados, mas sim criando as condições e os meios para os impedir.”

Mais adiante o referido jornalista prossegue em sua análise: “...o que a generalidade dos opositores à aventura iraquiana sustenta é que ela só podia ser, como foi efectivamente, um desastre em termos de luta contra o terrorismo. A história bélica está cheia de guerras perdidas, ou cuja vitória foi retardada, por causa de combates mal avisados, que só deram vantagens ao inimigo.”

“Primeiro, é bom recordá-lo, a luta contra o terrorismo era somente um motivo secundário do ataque ao Iraque, mesmo no discurso oficial de Bush, cabendo a primazia às famosas armas de destruição maciça, afinal inexistentes. Ora igualmente inexistentes eram as alegadas "ligações", bases e redes terroristas no Iraque. O terrorismo fez o seu aparecimento lá depois da invasão e ocupação, e para lutar contra ela. O ataque ao Iraque, enquanto as bases e as redes do terrorismo estavam noutro lado, não só consumiu ingloriamente meios e recursos que melhor teriam sido utilizados no ataque aos verdadeiros "santuários" terroristas, mas também deu aos grupos terroristas, que ficaram incólumes, novos pretextos e novos alvos (desde o próprio Iraque, após a invasão e ocupação, até à Espanha, agora).”

Como se vê, aí se confundem, se mesclam, terroristas e “terroristas”, os marginais e os oficiais, os fora-da-lei e os que rasgam as leis ou as reescrevem consoante seus inconfessáveis interesses.

Volto à pergunta do título: O que é realmente terrorismo? Pergunta como tantas outras que ficaram sem resposta após o 11/setembro. Respostas que não foram dadas e que poderiam estar em depoimentos de agentes da CIA e do FBI que não mais conseguiam se calar. Mas, engavetaram-nas no silêncio. Por quê? Quem deixa acontecer, sabe-se lá por que, deve ser classificado como o quê?

Agora estão retomando depoimentos, mas às vésperas de importantes eleições. Até onde poderemos confiar nessas respostas? Aguardemos, mas que a máscara pode estar caindo, lá isso bem que pode.



(26 de março/2004)
CooJornal no 361


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoespoeta.hpg.com.br