02/04/2004
Número - 362



 

          

Francisco Simões

 

31.03.1964 : MINHAS MEMÓRIAS

Recebi da boa amiga e excelente escritora catarinense, a Urda Alice Klueger, para uma leitura prévia, um artigo intitulado “Quarenta anos da Revolução”. Ela fala daquele dia 31.03.1964 pela sua visão de criança, então morando na cidade de Blumenau (SC). Excelente texto. Li, reli e pensei: por que não contar também como foi o meu 31.03.1964?

Escrevi à amiga e falei-lhe da minha idéia. Aliás, julgo que outros também deveriam fazê-lo, pois não aceito essa história de que “o que passou, passou”, absolutamente. Ocorre que a partir daquele dia viveríamos sob o chicote de uma ditadura militar por mais de 20 anos. Importantes lideranças políticas da época foram para o exílio temendo a perseguição e mesmo a morte. Nem todos tiveram a mesma sorte.

Mas, e onde estava eu, então com 27 anos de idade e vivendo apenas há 4 anos no Rio de Janeiro? Eu morava então num dos quartos sociais do apartamento de uma família paraguaia, no último dos prédios da rua Silveira Martins, do lado direito de quem sobe a rua no sentido do bairro do Catete.

Era jovem, tinha seis anos de Banco do Brasil, salário apertado, tempos difíceis. Vi pela Tv as primeiras notícias do golpe impetrado e que tirara do poder o Sr. João Goulart. Vi também o conhecido apresentador de programas da televisão, Sr. Flávio Cavalcanti, correndo para a Avenida Atlântica com um microfone da então TV-Rio.

Ele ria, mostrava felicidade e conclamava o povo para sair às ruas a fim de comemorar “o fim do comunismo que ameaçava o país e a vitória da democracia”. Eu vi essas cenas junto com a família com quem eu morava e mais um amigo que chegara de Belém e ocupava outro quarto no mesmo apartamento.

Mas, ao vermos o que se passava na Praia do Flamengo, saímos e fomos até lá. Morávamos há apenas 3 quarteirões dali. Havia uma agitação muito forte nas ruas, um buzinaço ensurdecedor, bandeiras brasileiras tremulando nas mãos de pessoas que gritavam palavras de ordem. Ordem, que não era aquela com a qual nós sonháramos, pelo menos eu e o tal amigo e conterrâneo.

Nos postamos na calçada central entre as pistas e, não podendo nos expressar, pois seríamos certamente linchados, sentamos no nosso providencial silêncio e nos mantivemos imóveis. Tudo indicava que o Brasil estava começando a mudar, mas para onde ia ainda não se sabia. Eu custava a crer no que via, mas não podia desmentir a realidade que ali desfilava aparentemente feliz.

Logo algumas pessoas começaram a invadir o pequeno prédio que era sede da UNE – União Nacional dos Estudantes. Estávamos bem em frente a ele. Qual vândalos enlouquecidos, movidos por uma vingança incontrolável, atiravam pelas janelas tudo que podiam: blocos de papel, cadeiras, mesas, almofadas, tapetes, máquinas de escrever, tudo. Embaixo, outros ensandecidos iam amontoando algumas dessas peças e iniciaram uma imensa fogueira, em plena Praia do Flamengo.

A fúria dos invasores era tamanha que se tivessem encontrado alguém dentro daquele prédio dificilmente o coitado teria saído com vida. Enquanto isso o imenso cortejo de automóveis prosseguia com vivas à “revolução”. Eles atendiam ao apelo do ilustre apresentador da TV-Rio que os conclamara para aquela “festa da democracia”.

É, realmente o Brasil mudava, mas para onde, para o que, para que mãos, para que destino? Havia emoção e medo, muito medo em nossas mentes e corações, e foi inevitável ele se traduzir em lágrimas que procurávamos disfarçar como podíamos. Os que nos vissem talvez pensassem que chorávamos de felicidade... pois que pensassem, assim sairíamos incólumes daquele local, como realmente aconteceu.

Voltamos ao apartamento. Logo depois chegaram 2 jovens portando revistinhas infantis nas mãos. Aquilo era como uma espécie de “salvo-conduto”... Eram colegas da Faculdade onde também estudava o meu amigo e conterrâneo, acima referido. Ele era aluno de Direito. Os jovens pertenciam à UNE e tinham, segundo fiquei sabendo, uma atuação política muito forte. Estavam apavorados com a idéia de serem presos.

Pouco depois chegaram outros dois estudantes. Também assustados, procuravam articular uma fuga, de modo que não caíssem nas mãos dos novos senhores do poder, posto que, tomado à força, como foi, tudo podiam, tudo fariam para “limpar a área”, como alguns falavam. Temiam a prisão, a tortura, a morte. Boatos já se espalhavam sobre várias pessoas, inclusive jornalistas, professores, radialistas, intelectuais que ou haviam sido pegos ou estavam a ser caçados. Fora também criada a instituição do “dedo-duro”. Muitos aderiram a ela.

Os dias se passavam e cada vez mais se fazia sentir o peso da nova realidade que, como alegavam, tirara o país das garras do comunismo. Só não conseguiam mais esconder as suas próprias garras, tão ou mais afiadas, agressivas, cruéis, injustas, tiranas. Bastou só um pouco de tempo para que alguns simpatizantes que apoiaram abertamente aquele golpe de Estado acabassem por ser vítimas dele.

Eu me mudara, alguns dias depois, para um pequeníssimo apartamento conjugado (sala e quarto juntos, sem cozinha, pequeno banheiro, e uma janela), no começo do Catete, em um prédio muito antigo onde o oxigênio era coisa rara. Certa madrugada fui acordado abruptamente, pois parecia que sofríamos um terremoto. O tal prédio balançava enquanto da rua vinha um ruído ensurdecedor que depois deu para entender tratar-se de alguns tanques de guerra. O exército invadia o Catete!

Para onde iriam àquela hora? Foi mesmo de assustar a todos que, diga-se de passagem, já vivíamos naturalmente assustados. Mais tarde se soube que eles se dirigiam ao palácio do governo do Estado da Guanabara. Iam tirar do poder o governador Carlos Lacerda. Este apoiara o golpe, não havia segredo nisso, mas sempre pensou que os militares iriam tratá-lo, depois, de forma bem diferente.

Inteligente como era, sagaz, considerado um político competente, mas de alta venenosidade, o governador, entretanto, não imaginou que quem se apossava do poder daquela forma não iria permitir lideranças outras, nem mesmo a dele, com a força da palavra de que era dotado, solto por aí e, quem sabe, talvez com ambições de cobrar posteriormente alguma fatia do “bolo”!

Era uma continuação do 31.03.1964 na avidez devoradora de inteligências, de lideranças, de pensamentos livres, sem cabresto, e já a semear o célebre: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Só que o verbo amar, neste caso, significava capitular, aceitar incondicionalmente, submeter-se, etc. O resto, bem, o resto os que são daquele tempo com certeza não esqueceram.

E é bom que não esqueçamos mesmo, pois a mais capenga das democracias, com todas as suas imperfeições, é preferível, já que não nos tolhe a liberdade de expressão, a escolha pelo voto, o exercício da cidadania no sentido mais amplo possível, no pleno gozo de nossos direitos e deveres constitucionais. Podemos ajudar a aprimorar a nossa jovem democracia, podemos sim, porém jamais teríamos voz e voto na ditadura.



(02 de abril/2004)
CooJornal no 362


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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