16/04/2004
Número - 364


 

          

Francisco Simões

 

PARDAIS AO AR LIVRE - NÓS NA GAIOLA

Acho uma profunda injustiça o terem popularizado esta expressão “pardais eletrônicos”. Injustiça, claro, para com as lindas aves que são os verdadeiros pardais. Aliás, define-os o dicionário como:

“Ave passeriforme, ploceídea (Passer domesticus), da região paleártica, de coloração bruno-parda com tonalidades ferrugíneas. O macho tem mancha preta que abrange a garganta e o peito, e asas malhadas de preto com listras brancas; a fêmea, coloração uniforme, mais acastanhada.”

De alguma semelhança com essas lindas aves, quando machos, só a coloração preta dos “eletrônicos” que lhes cobre a cabeça, a garganta, o peito, mas também suas afiadas garras, sempre a serviço de Prefeituras que só pensam mesmo em arrecadar.

Diz mais o dicionário sobre a ave pardal: “Alimenta-se de grãos e sementes de gramíneas, raramente de insetos e outros artrópodes e, nas cidades, aproveita restos de toda sorte; nidifica nas habitações humanas, e não se adapta a viver onde não habite o homem. Atualmente se acha disseminado por quase todo o Brasil.”

Os eletrônicos alimentam-se de nossos salários, de nossa renda, nas cidades, e nas estradas. Há que se concordar com mais esta semelhança quando o dicionário afirma que eles, os pardais, se acham disseminados por quase todo o Brasil. Verdade mesmo. Os “eletrônicos” também.

Pior é encontrar pessoas que apóiam este tipo de fiscalização, que na verdade está totalmente desmoralizada, e que só favorece os cofres de quantas Prefeituras deles se valem, à sombra da lei. Uma vergonha oficializada, como outras, afinal.

Encontro vários no meu caminho entre Cabo Frio e o Rio de Janeiro. Ao sair aqui desta cidade topa-se logo com 4 em distância de poucos quilômetros. Mais para a frente há mais um e depois temos o desprazer de voltar a encontrar com outro na BR – 101, no contorno de Itaboraí. Por que eu uso a expressão “desmoralizados”? Muito bem, explico para quem ainda acredita em Papai Noel e em “pardal eletrônico”.

Com aquela habitual pose as “autoridades” que os aprovam costumam afirmar que é uma “forma de educar os motoristas irresponsáveis”. Que grandes mentirosos, garanto que nem eles acreditam no que afirmam. Por quê? Vamos seguindo.

Os motoristas, responsáveis ou não, quando se aproximam da tal “Ave passeriforme, ploceídea, metallicus, arrecadatoris...”, abrem de imediato suas asas cínicas, irônicas, zombeteiras, e deixam a velocidade do veículo cair para menos de 50 km p/hora. Parecem uns anjinhos!!!

Quem os vê passando naqueles poucos metros, deve julgar que o efeito é milagroso e que estamos todos aprendendo a dirigir com responsabilidade. Hahahaha... O máximo que eles suportam com o pé leve no acelerador são uns 50 metros, antes e depois do tal pardal eletrônico. A partir daí todos, repito, todos aceleram, alguns bem fundo e... pneus para que os quero!

A competição então recomeça com velocidades, muitas das vezes, bem superiores a 100 km p/hora. E aquele poste idiota permanece lá, impassível, crente que está “cumprindo com o seu dever”. Quanta parvoíce, asnice, bestice, burrice, para não agredir vossos olhos com outra palavra mais vulgar que segurei pela “baba”...

Isto eu presencio sempre, tanto indo, quanto voltando do Rio. Gastam uma nota preta naquela parafernália eletrônica, dinheiro nosso, dos impostos, claro, e o que se vê é a diária desmoralização deles. Pergunto: de que vale ter este tipo de comportamento infantil, a que nos obrigam com os pardais eletrônicas, isto por 6 ou 7 vezes, numa distância de 160 quilômetros, porta a porta, entre minha casa daqui e a do Rio?!

Educar, gente, é algo muito, mas muito diferente. Primeiro teríamos que contar com aquela que começa no seio familiar, depois com a escolar, e se conseguirmos uma reviravolta, após algumas gerações (refiro-me ao nosso país e a vários futuros governos realmente sérios e responsáveis), ainda sim nunca seria demais seguidas campanhas promovidas com competência, assim como já assisti a tantas na Europa, não obstante lá eles estarem muitos furos à nossa frente nos temas educação, saúde, cidadania etc e tal.

Se muitas dessas Prefeituras não têm, em verdade, nenhum interesse em educar ninguém, por outro lado, no que se refere às estradas, o órgão competente (creio que DNER) embaralha-se constantemente com sinalizações mal feitas, quando não ausentes, com reparos no asfalto que em pouco tempo logo voltam a se deteriorar. Por incompetência? Duvido. Acredito mais no trabalho mal feito por outras causas.

Ora, se o órgão fiscalizador de estradas ainda não conseguiu ver que, mesmo com a privatização da chamada Via Lagos, onde pagamos um pedágio escorchante, sequer construíram um acostamento seguro nos 30 primeiros quilômetros do sentido de quem vai de Cabo Frio para o Rio!!!

Venham conferir, amigos. O acostamento é de chão, recoberto por mato baixo que não nos permite avaliar a irregularidade do terreno. Em alguns trechos nem cabe um carro na largura do “acostamento”. Pode isso? Pior: nunca vi esta denúncia na imprensa. E este é o trecho mais novo da Via Lagos, foi construído depois dos 20 quilômetros que levam do pedágio até a BR – 101 (Rio Bonito).

Eles dão o mau exemplo repetidamente, e nos querem “educar”, autorizando a colocação dos “pardais” ao ar livre, e nós, na gaiola das multas... E quem escreve este texto tem em mãos um documento, assinado pelo presidente do DETRAN do Rio, de 22.08.2001, impregnado de elogios a este autor como motorista exemplar. Até acho que exageraram, mas que sou muito cuidadoso ao volante, lá isso sou.



(16 de abril/2004)
CooJornal no 364


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br