07/05/2004
Número - 367

 

 

          

Francisco Simões

 

FILOSOFIA PRAIANA

Era uma linda manhã de sol de outono, uma brisa fresca muito agradável e o mar bem relaxado, quase sem ondas. Apenas umas poucas algas tingiam de cor diferente parte das águas do Atlântico que vinham dar em nossa praia.

Acabáramos de fazer nossa caminhada matinal de uma hora, e retornáramos à “Baleia Azul”, barraca do amigo Francisco. O xará é magro, bem elegante e tem um forte gosto pela leitura, o que me agrada muito.

Tomávamos água de coco bem geladinha, de dentro do próprio, não dessas em caixinhas que vendem em supermercados, absolutamente. Nessas, da essência do coco já deve restar bem pouco, creio.

Estávamos então à sombra e o som da barraca deliciava nossos ouvidos com um magistral solo de sax. Adoro este instrumento, quando bem tocado, evidentemente. Louvei o bom gosto do amigo Francisco.

Um passarinho, à cata de comida, pousara em uma das 4 cadeiras de nossa mesa. Isto até nos surpreendeu. Procuramos não fazer nenhum movimento brusco enquanto o apreciávamos em sua tarefa. Logo chegou outro, mas este pousou na mesa ao lado.

Estávamos calados, respirando o ar puro que ainda temos aqui em Cabo Frio, especialmente à beira do mar. Deglutíamos uma empada praiana. Isto nos fez lembrar que há algumas semanas o dono da empresa que as produz foi assassinado covardemente dentro da loja, em um assalto de verão. O mal se aproxima de nós.

A certa altura minha amiga e dama de companhia, Marlene, rompeu seu silêncio que já se alongava bastante, pois estava mergulhada em pensamentos e, na sua habitual simplicidade, mas alcançando foros de quem filosofava, ela falou:

“Sêo Simões, olhe que linda esta visão do mar fugindo pelo horizonte, como o senhor costuma dizer, este céu de um azul paraíso, limpo de nuvens, essa praia imensa e com areia tão branquinha que dificilmente se encontra em outro lugar... a natureza é uma artista... como se diz mesmo?” E eu completei sua sentença: “perfeccionista, você quer dizer?”

“Exatamente, é isso sim. Imagino quanta beleza deve existir por este nosso país, de norte a sul, que eu não conheço. Nunca saí daqui. Quanta beleza há de ter a natureza espalhada pelo mundo afora, não é?”

Ouvi um tanto surpreso a boa amiga que passa a maior parte dos seus dias dedicada a tarefas domésticas, tanto em minha casa quanto na dela. Faz parte de nosso acordo de trabalho que ela me acompanhe também em minhas idas ao Rio, onde executa igualmente todas as tarefas de casa e, quase rotineiramente, me acompanha nas caminhadas, atividade de que ela necessita muito, como eu. Mas, ali surgia a Marlene pensante, quase poeta, quase filósofa.

Ouvi o que ela dissera e acrescentei: “Pois é, Marlene, pena que a natureza não pode evitar que se fizesse o homem, este ser predador por excelência, guerreiro quase por vocação, algumas vezes com instintos irracionais. “Homens capazes de monstruosidades tantas que arrancam lágrimas aos anjos”. Quem disse isto foi Bernard Shaw. Um dia lhe falo sobre ele, Marlene.”

E Marlene lançou-me um certo desafio que me surpreendeu: “Sêo Simões, e o que o senhor acha dessa história de agora os americanos dizerem que descobriram haver mesmo água em marte, tanto doce quanto salgada, o que antes sempre ouvi dizer ser impossível? O senhor acha que existe vida lá ou que já teria havido?”

Expliquei à amiga que havendo oxigênio, havendo água, naturalmente algum tipo de vida deve haver por lá. Mas, o que me assusta não é isso, de forma alguma. Fiquei mais impressionado com o fato de eles admitirem agora que, em passado bem remoto, possa ter havido em Marte, quem sabe, vida humana!

Falei então para a amiga Marlene: “Imagine que tenha havido vida do tipo da nossa por lá há milhões e milhões de anos. Imagine que nós, terráqueos, tenhamos vindo de lá?! O que acha? Por quê não, amiga?”-- Marlene me olhou com os olhos arregalados, pensou e sacou: “Mas, e a história de Adão e Eva, como ficaria a versão bíblica do começo da vida em nosso planeta Terra? Isso não funde a cuca da gente?”

A amiga é católica, como eu, mas no fundo sabemos que a tal versão por ela lembrada não deve convencer nem ao mais ardoroso defensor da palavra da salvação. Que me perdoem os que nela crêem, não há intenção de criar polêmica sobre o assunto. Mas, voltando à hipótese, repito, à hipótese da possibilidade de ter já havido, lá por Marte, há muito, muito tempo, vida humana como conhecemos, é de apavorar. Ou não?

Se o homem já viveu lá e deixou Marte como o vemos, meu Deus, o que será do nosso lindo planeta Terra daqui a alguns séculos?! Ou décadas, sei lá?! No ritmo crescente com que a violência mais se firma no nosso dia-a-dia, com a disposição belicista avassaladora, com a vocação predadora e mortífera que nossos seres racionais cada vez mais demonstram contra a vida, dá mesmo para se colocar a esperança de sobreaviso a fim de que ela não seja apanhada desprevenida, ou desavisada, coitada.

A paz voltou a se fazer em mim quando Marlene insistiu que eu pusesse novamente meus olhos na linha do horizonte por onde deslizavam suavemente duas velas brancas no mesmo sentido. Minha atenção mergulhou então na beleza do mar e minhas lembranças repassaram a cena de quando, junto com muitos amigos e amigas, confiamos às suas águas as cinzas do amor que partira para a eternidade.

Calados entreolhamo-nos e juntamos nossas saudades. Mas, havia muita vida em volta de nós. Brindamos com água de coco a natureza, essência de tudo, negação do não-ser.  



(07 de maio/2004)
CooJornal no 367


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br