14/05/2004
Número - 368


 

 

          

Francisco Simões

 

PARA O CASO DE VOCÊ NÃO TER LIDO

Amigos e amigas, achei que hoje eu seria mais útil realçando um livro e uma reportagem que versa sobre o mesmo. Como digo no título deste texto, para o caso de você não ter lido, não me custa divulgar este trabalho sério que traz à tona memória de fatos históricos, tenha você conhecimento ou não deles, mas que não devem ser subestimados e muito menos ignorados.

Quero me referir ao livro “A guerra contra os fracos – a eugenia e a campanha norte-americana para criar uma raça superior” Autor: o jornalista americano Edwin Black. Tomei conhecimento dele por uma matéria assinada por Cláudio Camargo, saída na revista “Isto É”, edição de 24.03.04.

Para o caso de você não ter lido, repito, permito-me referir a informações sobre o livro, contidas no texto daquela reportagem. Ela trouxe o título: “Raízes do Holocausto - Adolf Hitler copiou de eugenistas americanos política que eliminava “raças inferiores”. Explicando a apresentação da matéria, logo ao começo do texto, o seu autor escreve:

“Embora tenha sido aplicada em escala industrial e genocida apenas na Alemanha nazista, a eugenia tomou corpo e ganhou forma e robustez nos EUA. Os epígonos de Hitler apenas copiaram e universalizaram o modelo.”

Avancemos mais um pouco na matéria de Cláudio Camargo. Aliás, não custa conhecer ou relembrar fatos históricos os quais, caso deseje contestar, deverá fazê-lo para o autor do livro, acima referido. Vamos a outro trecho dessa importante reportagem:

“Nos domínios de Tio Sam, berço da democracia moderna, a eliminação
de grupos étnicos indesejáveis não foi perpetrada por sinistras tropas
de assalto, como no III Reich, mas por “respeitados professores, universidades de elite, ricos industriais e funcionários do governo”.

“Criada na Inglaterra no século XIX pelo matemático Francis J. Galton, a eugenia (composta do grego “bem nascido”) atravessou o oceano e encontrou campo fértil em terras americanas. Sob a batuta do zoólogo Charles Davenport, o movimento eugenista obteve apoio de instituições renomadas, como a Carnagie Institution – que montou a primeira empresa de eugenia em Long Island –, da Fundação Rockefeller e de uma plêiade de acadêmicos, políticos e intelectuais.”

Seguindo a narrativa da matéria, apoiada nas afirmações do autor do livro, o jornalista americano Edwin Black, ficamos estarrecidos a cada vocábulo, a cada frase, a cada parágrafo. O que tínhamos de informação sobre este assunto não mergulhava tão profundo nem tirava o véu para tantas e tamanhas revelações. Quanto mais lemos mais nos estarrecemos, e está tudo no livro:

“O movimento cativou tanto a elite americana da época que, a partir de 1924, leis que impunham a esterilização compulsória foram promulgadas em 27 Estados americanos, para impedir que determinados grupos tivessem descendentes. Uma vasta legislação proibindo ou restringindo casamentos também foi criada para barrar a miscigenação. Confrontada com tamanha violação dos princípios da Constituição americana, a Suprema Corte deu sua bênção à eliminação dos mais fracos.”

Acredite se quiser, sabendo que descrer não altera os fatos nem muda a história. Não se trata de ficção, mas de realidade, de verdades históricas apuradas por um jornalista, americano, que já ficara famoso no ano de 2001 com outro livro que virou best-seller, “A IBM e o Holocausto.” Na seqüência o articulista de “Isto É” afirma:

“Entre os anos 1920 e 1960 pelo menos 70 mil americanos foram esterilizados compulsoriamente – a maioria mulheres.” Veja bem que está ali incluído o ano de 1960, portanto um passado não tão distante, o que mais ainda nos assusta. E prossegue a matéria, citando constantemente trechos do livro de Edwin Black:

“Os esforços americanos para criar uma super-raça nórdica chamaram a atenção de Hitler.” Antes da guerra, os nazistas praticaram a eugenia com total aprovação dos cruzados eugenistas americanos. Não sem uma ponta de inveja, claro: “Hitler está nos vencendo em nosso próprio jogo”, declarou em 1934 Joseph DeJarnette, superintendente do Western State Hospital, da Virgínia.”

Não sei se é o caso, mas talvez esta declaração e esses fatos expliquem o titubeio, durante algum período, de aquele país entrar na II Guerra Mundial, não em socorro somente da Europa, mas do próprio mundo. Alguns historiadores afirmam mesmo que Hitler contava com a não agressão dos americanos, ou que eles se manteriam fora do cenário daquela guerra.

Atualmente, em tempo de Bush e seus anseios beligerantes incontroláveis, que, de certa forma ameaça o mundo com sua eventual reeleição, é bom colocarmos nossas barbas de molho. Que surpresas poderão nos estar reservadas em futuro próximo? Afinal, não esqueçamos que até em nome de Deus ele já falou. E para o caso de você não ter mesmo lido, veja o parágrafo final da matéria a que aludo nesta crônica:

“Condenada pela comunidade acadêmica em 1977, a eugenia escondeu o rosto e buscou refúgio nos cromossomos da engenharia genética. Mas, assim como no passado a eugenia contaminou causas sociais, médicas e educacionais importantes, hoje ela pode inocular o vírus da intolerância em projetos científicos fundamentais, como o genoma e o processo de clonagem para fins terapêuticos. Afinal, é sabido que, ao brincar de Deus, o homem costuma fazer a obra do diabo”.  



(14 de maio/2004)
CooJornal no 368


Francisco Simões
escritor, fotógrafo (expositor), radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br